
A garota que eu perdi
Capítulo 3
Depois
Escureceu completamente. Eu abri as janelas para deixar o ar entrar – o ar frio de inverno – e bater em meu peito nu. Ou o ar que eu deveria achar frio porque não sinto nada.
Observo a movimentação nas casas vizinhas, as pessoas seguindo suas vidas, suas histórias. Me pergunto se todas elas vivem “a história”, se sabem quando ela começou, ou se a deixaram passar sem notar. Ou pior, se notaram apenas quando já havia passado.
É muito fácil se perder em sua rotina e simplesmente deixar “a história” rolar sem se dar conta. Eu sei muito bem disso, o relógio tem me mostrado isso insistentemente, e não importa quanto arrependimento haja – o que foi perdido, já se foi e muitas vezes não há nada para fazer para recuperá-lo.
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Antes
Eu atravesso o pátio da faculdade a passos largos quando esbarro com uma garota que parece meio perdida. Estranhamente, ela olha diretamente na minha direção e dá um sorriso que deve parecer tímido, mas que mais parece um pouco nervoso.
- Oi! – ela diz timidamente.
- Desculpa por isso. – peço, querendo continuar meu caminho.
Ela usa uma calça marrom e uma blusa branca. É bonita, muito bonita, e de um jeito único, mas eu jamais lhe diria isso. Tem um ar jovem, cheio de esperança, e olhos expressivos demais. Nunca a vi por aqui, então deve ser nova na faculdade.
- Não tem problema. – ela balança a cabeça para enfatizar – Oi. – repete, como se estivesse voltando para o roteiro que havia imaginado.
- Oi. – respondo já calculando o tempo que ela vai me tomar, porque preciso ir até a biblioteca estudar o quanto antes.
- Você poderia me indicar para que lado fica a biblioteca?
- Na verdade, estou indo para lá. – fico cheio de alívio, apontando a direção. Imensamente grato pelo meu tempo poupado.
Nós andamos lado a lado, em completo silêncio. Percebo que ela olha tudo com interesse, como se tentasse guardar onde são as coisas, e não se preocupa em conversar. Quando passamos pela porta da biblioteca, ela me agradece e se afasta.
Eu sento na minha mesa de costume e pego minhas coisas, mas minha concentração se foi. Fico vendo o rosto dela na minha mente, os olhos atentos – quase que ingênuos – e o sorriso tímido.
Meus olhos buscam encontrá-la repetidamente e só muito tempo depois percebo que não me apresentei. Não vai fazer mal algum pelo menos dizer o meu nome, não que eu esteja interessado em mais do que isso. Minhas prioridades já estão bem estabelecidas até o final dos estudos, talvez até um pouco depois, e não há espaço para distrações – por mais atraentes que pareçam ser.
- Desculpe. – quando percebo, já estou ao seu lado na mesa – É que eu não havia me apresentado. O meu nome é Felipe. – estendo a mão.
Ela ergue os olhos do livro e sorri.
- O meu é Samela.
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