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Capa do romance A garota que eu perdi

A garota que eu perdi

Com o término da relação, Felipe mergulha em um ciclo de reflexões sobre seus erros e as memórias compartilhadas com Samela. No entanto, ao revisitar o passado e analisar detalhes que antes passavam despercebidos, sua percepção se transforma de forma perturbadora. À medida que ele se aprofunda nessas lembranças, seus pensamentos ganham contornos cada vez mais sombrios. Esta narrativa desconstrói o romance idealizado e revela uma face obscura.
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Capítulo 1

Depois

O relógio tem tantos números.... Quer estejam ocultos ou visíveis aos nossos olhos. Além da contagem óbvia do um ao doze, temos a contagem das horas que ultrapassa e vai das treze as vinte e quatro horas. E ainda cabem todos aqueles segundos, que ficam pulando de um em um a cada minuto. É tanta coisa dentro de um pequeno objeto, andei pensando.

Tenho um exemplar bem ao lado da cama. Analógico. Ultimamente ando encarando-o muito, pensando nas pequenas coisas que cabem dentro de seu mundo de números.

Ando tendo muito tempo para pensar, e ao mesmo tempo que acho que devo muito fazer isso, tem sido uma grande tortura – assim como ficar observando o relógio.

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Antes

Meu pai morreu muito cedo, quase não consigo me lembrar de como ele era. Sei que era rigoroso e sério, e não tenho na memória nenhum gesto de carinho dele – nem comigo, nem com minha mãe ou irmã. Na verdade, ele parecia um homem meio distante de todos nós, embora sempre estivesse em casa.

Minha mãe, Anna, fala muito sobre ele, mas sempre numa forma de nos repreender de alguma coisa – “seu pai não ficaria feliz com isso” ou “não consigo nem pensar no quanto seu pai ficaria decepcionado com seu comportamento”. Não dá para saber quais emoções passam por sua cabeça quando ela fala sobre ele.

Minha irmã, Fátima, é quatorze anos mais velha que eu – o que torna óbvio que fui um acidente no percurso dos meus pais, por mais que minha mãe se negue a falar no assunto. Tudo que ela sabe falar é em como filhos são maravilhosos, a razão de nossas vidas e outras coisas irritantes.

Quando chego da faculdade – onde passo a maior parte das horas do dia -, quase sempre encontro o namorado da minha irmã, Antônio – um sujeito arrogante e metido a sabe tudo -, saindo de casa. Regularmente o clima é estranho, pois ela quer se casar, e o que parece é que ele só está enrolando.

Não sei se os dois conversam, se brigam ou debatem sobre o assunto. Às vezes acho que minha irmã é completamente submissa e espera que ele tome atitude em todos os aspectos da vida deles – o que não vai dar certo porque ele é a pessoa mais egoísta que já conheci.

- Está com fome? – minha mãe pergunta do quarto.

Posso escutar o som de um programa ridículo na televisão – ela só assiste esse tipo de coisa - e ver as luzes projetadas pelo aparelho no quarto escuro.

- Estou. – falo, me sentindo exausto.

Escuto a cama ranger e ela vem andando meio mancando pelo corredor. Parte minha pensa em dizer para ela não se preocupar, que já tenho vinte anos e posso me virar, mas a parte restante ganha dessa mais racional e, como de costume, não penso mais nisso.

Instantes depois já estou comendo em frente ao computador, andando por páginas dos perfis sociais do pessoal da faculdade, observando as fotos da última festa – que eu não fui.

Não sou muito popular porque passo a maior parte dos meus dias estudando. Quase nunca vou a nenhum evento social, não bebo nada com álcool, e não tenho uma aparência atraente. Nunca tive uma namorada, por exemplo, e nenhuma garota parece prestar muita atenção em mim se não for para pedir favores nos estudos.

Essas coisas não são importantes, na realidade. Realmente estou ali para estudar, para conseguir um bom emprego logo e ter dinheiro. Não quero uma mulher me atrapalhando nos meus objetivos.

Me acomodo na cama e olho para o relógio, calculando quantas horas terei para dormir.

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