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Capa do romance A Garota Que Ele Chamou de Ensaio

A Garota Que Ele Chamou de Ensaio

Após abrir mão de um sonho na USP pelo namorado de longa data, uma jovem descobre a cruel verdade. Em francês, idioma que ele acredita que ela ignora, o rapaz a ridiculariza para um amigo, chamando-a de mero ensaio enquanto planeja conquistar uma modelo. O que ele não sabe é que ela compreende cada ofensa. Sem alarde, ela recupera sua vaga na faculdade paulista e desaparece da vida dele, deixando o arrogante para trás ao bloquear qualquer contato.
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Capítulo 2

Ponto de Vista de Kiara:

O celular de Clara tremia na mão dela, me dando uma visão ainda mais próxima e nauseante da cena no café parisiense. Félix, com aquele sorriso impossivelmente charmoso estampado no rosto, inclinou-se para sussurrar algo para Bella. Ela soltou uma risadinha, um som que arranhou meus nervos em carne viva, e então, sem nenhuma vergonha, esticou-se e o beijou. Um beijo completo, demorado, ali mesmo, a céu aberto, para qualquer um ver. Para eu ver.

Minha respiração travou na garganta. Na noite passada, Félix insistiu que não era "fã de demonstrações públicas de afeto", especialmente não comigo. Ele sempre preferiu a intimidade silenciosa das portas fechadas, os olhares roubados, os sussurros privados. Ele dizia que era "especial", "nosso". A hipocrisia era uma marca fresca e ardente na minha alma. Minha visão afunilou, as bordas da tela embaçando. O café, os pedestres, o rosto preocupado de Clara — tudo desapareceu, substituído pela imagem vívida de Félix, os lábios dele nos dela. As palavras dele, *Elle était juste une pratique*, gritavam na minha cabeça, um refrão vicioso e zombeteiro.

Ele não tinha medo de demonstrações públicas; ele tinha vergonha de me exibir em público. Porque eu era apenas a cama quente, o estepe, o treino. Bella Ramsey, a modelo de alto nível, era o prêmio. Ela era digna de afeto público, de ser desfilada como um troféu. E ele não tinha perdido um único segundo. Apenas horas. Tinham se passado meras horas desde que ele acordou ao meu lado, desde que me chamou de "meu amor", desde que me prometeu um futuro compartilhado. Ele era implacável, total e completamente desprovido de qualquer sentimento real por mim. Ele era um predador, e eu tinha sido sua presa involuntária.

Um soluço sufocado escapou de mim, rasgando minha garganta. Minhas mãos voaram para o rosto, lágrimas quentes escorrendo pelos meus dedos. A traição era tão afiada, tão completa, que parecia que alguém tinha arrancado minhas entranhas e me deixado oca. Meu corpo começou a tremer incontrolavelmente, um tremor profundo e chocalhante que começou no meu peito e se espalhou por cada membro. Eu não conseguia respirar. Eu estava engasgando com a dor, com a constatação sufocante de que o homem que eu amava, a quem me dediquei, me via como nada mais do que um acessório descartável em sua grande peça de teatro.

— Kiara? Meu Deus, Kiara, você está bem? O que houve? — A voz de Clara, agora cheia de alarme, me sacudiu levemente. Ela virou a câmera de volta para o rosto, os olhos arregalados de preocupação. — O que aconteceu? Por que você está chorando assim?

Eu não conseguia falar, não conseguia formar palavras em meio aos soluços irregulares que me rasgavam. Apenas balancei a cabeça, pressionando as palmas das mãos com mais força contra os olhos, tentando apagar fisicamente as imagens, as palavras, a realidade esmagadora.

— Kiara, por favor, fala comigo — Clara implorou, a voz mais suave agora, tingida de empatia. — O Félix fez alguma coisa? É por causa da Bella? Eu sabia que aquela garota era problema. Ela está em todas as redes sociais dele agora, é nojento o jeito que ele está desfilando com ela depois de... depois de tudo.

Depois de tudo. Clara nem sabia da metade. Ela não sabia sobre o francês, sobre o "treino", sobre o "estepe". Ela só conhecia a versão pública da insensibilidade de Félix, que já era mais do que suficiente.

Finalmente, consegui engasgar uma única palavra crua. — Tudo.

— Tudo o quê? — Clara pressionou gentilmente. — Só me conta. Estou aqui. Seja o que for, vamos superar isso.

Respirei fundo, tremendo, tentando recuperar alguma aparência de controle. — Ele... ele me chamou de "treino", Clara — sussurrei, as palavras quase inaudíveis. — Ele me chamou de "estepe". Disse que estava apenas mantendo a cama quente para a Bella. Em francês. Logo depois... logo depois da noite passada.

Silêncio. Do outro lado, os olhos de Clara, geralmente tão brilhantes e cheios de vida, se arregalaram de horror. O queixo dela caiu, depois se fechou com força. Sua expressão endureceu, uma proteção feroz brilhando em seu olhar. — Ele o quê? — ela sibilou, a voz baixa e perigosa. — A audácia absoluta desse playboy arrogante e escroto! Ele fala francês para excluir as pessoas, Kiara. Ele acha que você é "simplória" demais para entendê-lo, não acha?

Assenti, novas lágrimas brotando. — Ele sempre achou. Aprendi francês anos atrás, para a avó dele, Dona Helena. Ele nunca soube.

Clara soltou uma série de xingamentos, coloridos e indignados. — Ah, Kiara. Minha pobre Kiara. Ele é um ser humano verdadeiramente desprezível. E quer saber? Ele sempre foi assim. Sempre te dando como certa. Sempre sabendo que você estaria lá para recolher os cacos dele, para torcer por ele, para fazê-lo parecer bem. Você sempre foi quem escolhia as gravatas dele, lembrava o aniversário da mãe dele, garantia que ele tivesse café antes das provas. Você basicamente administrava a vida dele, querida, e ele apenas... absorvia isso. Ele esperava isso.

As palavras dela, embora duras, foram um banho frio de verdade. Ela estava certa. Passei anos, toda a minha juventude, me moldando para ser a parceira perfeita para Félix. Ajustei meus sonhos, escolhi a universidade no Rio simplesmente porque era onde ele queria estar, planejando estudar arquitetura lá para poder ficar perto dele, apoiando-o enquanto ele assumia o império imobiliário da família. Eu via isso como devoção, como amor. Ele via como um direito, um dado adquirido. Ele usou meu amor como uma almofada, um conforto conveniente e sempre presente. Minha dor se transformou em um nó amargo de indignação.

— Eu não posso mais fazer isso, Clara — murmurei, minha voz mal passando de um sussurro. — Eu não posso. Eu não vou. — Uma estranha resolução começou a se solidificar dentro de mim, um núcleo duro e frio substituindo os pedaços estilhaçados. Minhas lágrimas secaram, deixando minhas bochechas rígidas e ardendo.

— Ótimo — disse Clara, a voz firme, apoiadora. — Já estava na hora, Kiara. Você merece muito mais do que ser o "estepe" de alguém. Você é brilhante, gentil, linda e tem seus próprios sonhos, lembra? E a USP? Você entrou no programa de arquitetura da USP, o melhor do país, com bolsa integral! Você me disse que recusou porque queria ficar com o Félix no Rio! E se... e se você não tivesse recusado?

Minha cabeça se ergueu num estalo. USP. Eu tinha quase esquecido. Era uma memória distante e dolorosa, uma estrada não percorrida por um homem que não merecia um único passo da minha jornada. A ideia, sussurrada por Clara, se instalou no espaço vazio do meu peito, não como uma pontada de arrependimento, mas como uma faísca de esperança desafiadora.

— Vou cancelar minha matrícula no Rio — declarei, as palavras saindo surpreendentemente firmes. — E vou aceitar a oferta da USP.

Clara arfou, um som encantado. — Kiara! É sério? Meu Deus, isso é incrível! Isso é... isso é você, Kiara! É o que você deveria ter feito desde o começo!

Um sorriso pequeno e genuíno tocou meus lábios, o primeiro no que pareceu uma eternidade. — É sério. Vou para São Paulo. Vou construir minha própria vida, meus próprios sonhos. Longe dele. — As palavras desdenhosas de Félix sobre eu ser um "estepe" selaram meu destino, mas não da maneira que ele pretendia. Ele me empurrou para fora de sua sombra, direto para a minha própria luz.

— Essa é a minha garota! — Clara vibrou, o rosto radiante. — Quando você vai ligar para eles? Agora? Liga agora!

Eu ri, um som frágil e trêmulo, mas uma risada mesmo assim. — Vou ligar. Amanhã de manhã, primeira coisa. — Pensei em todas as vezes que Félix dispensou casualmente meus esboços arquitetônicos, os olhos ficando vidrados enquanto eu falava apaixonadamente sobre projetar cidades sustentáveis, arranha-céus elegantes e espaços públicos inovadores. Ele mal ouvia, o foco sempre em seu próximo grande negócio, sua próxima conquista. Eu sempre engoli minha decepção, dizendo a mim mesma que ele estava apenas ocupado, que ele apreciaria eventualmente. Mas ele não apreciaria. Ele nunca apreciaria. Minha paixão era irrelevante para ele; não servia à narrativa dele.

Não mais. Eu construiria minha própria narrativa. Eu construiria estruturas imponentes que alcançariam o céu, e ele, o homem que achava que eu pertencia à sua sombra, seria apenas um homem minúsculo no chão, olhando para cima. O pensamento, afiado e doce, me encheu de uma determinação quieta e feroz.

— Ele nem vai saber o que o atingiu — murmurou Clara, um brilho triunfante nos olhos. — Ele vai estar ocupado demais se exibindo com seu "prêmio". E quando ele finalmente olhar em volta procurando sua sombrinha leal, você terá ido embora. Anos-luz de distância, brilhando mais do que ele jamais poderia.

— Ele nunca mais vai encontrar seu "estepe" — jurei, minha voz firme, resoluta. — Porque não sobrou nada para amortecer a queda dele.

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