
A Garota Que Ele Chamou de Ensaio
Capítulo 3
Ponto de Vista de Kiara:
Encerrei a chamada com Clara, seus gritos entusiasmados ainda ecoando em meus ouvidos, um contraste gritante com o vazio doloroso no meu peito. A explosão de resolução desafiadora tinha sido revigorante, mas agora, sozinha no silêncio do meu quarto, o peso de tudo voltou a se instalar. Minha cama, ainda quente da presença fugaz de Félix, parecia uma armadilha. O cheiro dele, aquele almíscar e colônia, estava em toda parte, agarrado aos lençóis, ao meu cabelo, um fantasma de intimidade que agora parecia uma violação.
Pressionei as mãos contra as têmporas, tentando afastar as imagens: Félix rindo com Bella, suas palavras desdenhosas em francês, a década da minha vida que despejei nele. Era demais, uma cacofonia de dor e arrependimento. *Para, Kiara. Para de pensar.* Apertei os olhos com força, me balançando suavemente, desesperada pelo esquecimento do sono. Ainda estava escuro lá fora, as luzes da cidade um brilho distante e cintilante contra o céu escuro.
O sono, quando finalmente veio, foi agitado e superficial, atormentado por pesadelos com a risada de Félix e o sorriso triunfante de Bella. Eu me debatia, murmurando protestos incoerentes, até que um solavanco agudo me acordou. Meus olhos se abriram, o coração disparado. O quarto ainda estava escuro, mas uma fresta de amanhecer começava a pintar o céu fora da minha janela.
Ele não estava lá. Claro que não estava.
Uma onda arrepiante de compreensão me invadiu. Por anos, cada discussão, cada pequeno desentendimento, cada mal-entendido, terminava com Félix me enviando uma mensagem de "boa noite", geralmente com um emoji de coração, uma oferta de paz silenciosa. Era o jeito dele de garantir que eu não ficaria brava, que eu estaria esperando por ele, pronta para perdoar, na manhã seguinte. Era um hábito, um ritual, uma coleira. E agora, estava quebrada. Nem uma única mensagem, nem uma única ligação. Nem mesmo um texto casual e desdenhoso de "Você está bem?". Nada. O silêncio era mais alto do que qualquer discussão. Confirmava tudo. Eu realmente não era nada para ele.
Uma parte de mim, a velha e carente Kiara, queria gritar, ligar para ele, exigir uma explicação, forçá-lo a reconhecer os anos, o amor, a traição. Mas uma nova Kiara, um broto frágil mas crescente de amor-próprio, me segurou. O que eu diria? "Eu sei que você acha que sou apenas um treino"? O que ele diria? Negaria? Riria? Isso só daria a ele mais poder, mais controle. Ele distorceria tudo, me faria parecer a ex ciumenta e louca. Eu conhecia o jogo dele, e me recuso a jogar. Não mais.
Meu celular vibrou novamente. Desta vez era um alarme, me lembrando da orientação da universidade no Rio. Bufei, um som amargo e sem humor. Rio de Janeiro. Meu "sonho compartilhado". Não, meu futuro agora estava em São Paulo, um corte limpo, um novo começo.
Antes que eu pudesse tirar as pernas da cama, a porta se escancarou. Não foi uma batida gentil, nem uma entrada educada. Ela explodiu. Meu coração saltou para a garganta, um grito preso ali. Félix estava parado na porta, já vestido com calça de sarja impecável e uma camisa polo de grife, um sorriso confiante e levemente presunçoso no rosto.
— Bom dia, raio de sol — ele cantarolou, entrando como se fosse o dono do lugar, o que, de certa forma, ele era. Esta era a casa de hóspedes dos Decker, afinal, minha casa de infância ficava ao lado. Ele sempre teve a chave, um direito de passagem não dito. Ele ainda tinha. Ele nem se preocupou em fechar a porta atrás de si. Apenas desfilou até a minha cama, os olhos me percorrendo na minha camiseta amassada e shorts de dormir. Um arrepio de repulsa correu pela minha espinha.
Ele se jogou ao meu lado, inclinando-se, o rosto perto demais. — Noite difícil? Você parece um pouco... emburrada. — Ele estendeu a mão, o dedo traçando a linha do meu maxilar, depois colocando uma mecha de cabelo rebelde atrás da minha orelha. O gesto, antes íntimo, agora parecia invasivo, violador.
Eu me encolhi, recuando abruptamente. — Não — disse, minha voz plana, desprovida de emoção.
A testa dele franziu levemente. — Não o quê? Não toque na minha garota? — Ele riu, um som baixo e retumbante que costumava me causar arrepios de prazer. Agora só fazia meu estômago se contrair. Ele tentou me tocar novamente, a mão caindo na minha coxa nua, o polegar desenhando círculos lentos. — Ou você está apenas se fazendo de difícil? Você sabe que eu adoro quando você faz isso, Kiara. — Seus olhos tinham um brilho predatório, um desafio familiar.
Empurrei a mão dele, com mais força desta vez. — Félix. Para. — Minha voz ainda era plana, mas havia uma ponta nela, um aviso.
Ele recuou, um lampejo de aborrecimento cruzando seu rosto. — Opa. O que há com você? Mal-humorada esta manhã? Não te dei o suficiente ontem à noite? — Ele piscou, um gesto grosseiro e desdenhoso que fez meu sangue gelar.
Olhei para ele, meu olhar inabalável, recusando-me a dar a ele a satisfação de uma reação. Meu silêncio parecia irritá-lo mais do que qualquer explosão. Seu sorriso presunçoso desapareceu, substituído pela impaciência.
— Qual é, Kiara. Não seja assim. Eu te disse que tinha que ir para o escritório mais cedo. É importante. Estamos falando do negócio Ramsey, afinal. — Ele disse "Ramsey" com uma casualidade quase exagerada, como se estivesse testando as águas.
Permaneci em silêncio, meus olhos fixos em um ponto logo atrás do ombro dele.
Ele bufou. — Você está chateada por causa dela? Sério? Você sabe que a Bella é só fachada. Relações públicas. Você é... você é a Kiara. Isso é diferente. Isso é real. — A voz dele estava tingida com um tom paternalista, como se eu fosse uma criança que ele precisava acalmar com palavras vazias. Uma onda de amargura me invadiu. Ele realmente achava que eu era tão ingênua, tão estúpida?
Meus lábios quase formaram um sorriso fino e amargo. Real. Ele me chamava de "real" enquanto suas palavras em francês ecoavam na minha cabeça, me marcando como "treino". A pura arrogância, a audácia disso, era de tirar o fôlego. Empurrei meu corpo para fora da cama, evitando o olhar dele, e fui em direção à porta.
— Aonde você vai? — ele exigiu, a voz mais afiada agora, acostumada à minha obediência instantânea.
Não respondi. Apenas continuei andando, para fora do quarto, descendo as escadas. A casa parecia enorme, vazia, ecoando com o silêncio das minhas ilusões despedaçadas. Ele me seguiu, os passos pesados na madeira polida. Notei, com uma espécie de observação distante, que a paciência dele para o meu humor parecia ter se esgotado. Normalmente, ele me encantaria para sair dessa, ou esperaria eu me acalmar. Agora, ele estava apenas irritado.
Na cozinha, fui direto para a geladeira. — Mandei o buffet estocar todas as suas coisas favoritas para o café da manhã — disse ele, a voz tentando um tom conciliador, mas ainda com uma ponta de impaciência. — Panquecas, bacon, aquelas tortinhas de frutas que você ama. Vamos, vamos comer.
Ignorei o banquete, pegando um iogurte natural e um pouco de granola. Meu apetite tinha desaparecido em algum lugar entre *pratique* e Bella.
Ele me observou, o rosto escurecendo. — Iogurte? Sério? Tive todo esse trabalho, Kiara.
Despejei a granola no iogurte, evitando cuidadosamente o olhar dele. — Não estou com fome de doces, Félix.
A mão dele bateu com força no balcão, me fazendo pular. O copo de suco de laranja ao lado tombou, derramando uma bagunça brilhante e pegajosa pelo mármore branco imaculado. — Qual é o seu problema, Kiara? É a Bella? Você está com ciúmes? — A voz dele era um rosnado baixo, os olhos flamejando.
Suspirei, um som longo e cansado que veio do fundo da minha alma. — Ciúmes de quê, Félix? — rebati, finalmente encontrando o olhar furioso dele. Minha voz estava calma, quase distante. — De ser um "estepe"?
Os olhos dele se arregalaram uma fração, um lampejo de surpresa, depois suspeita. — Do que você está falando? Que "estepe"? — Ele bufou, desviando o olhar, depois voltando para mim. — Não seja ridícula. Você é minha melhor amiga, Kiara. Você é como... família. — A palavra "família" estava carregada de um desprezo arrepiante. Ele nunca usou essa palavra para descrever nossa intimidade.
Família. Minha melhor amiga. Apenas algumas horas atrás, eu tinha sido sua amante. Agora eu era "família", um termo que ele usava para se distanciar convenientemente, para negar a intimidade que compartilhamos, para invalidar meus sentimentos. A crueldade casual disso fez meu corpo tremer, não de medo, mas de uma raiva fria e justa.
Lágrimas brotaram em meus olhos, embaçando o rosto enfurecido dele. Uma única lágrima escapou, traçando um caminho pela minha bochecha. Eu não queria chorar, não na frente dele, não agora, quando precisava ser forte.
Ele olhou para mim, a raiva momentaneamente substituída por um lampejo de perplexidade. — Kiara? Que diabos? Por que você está chorando? — Ele parecia genuinamente surpreso, quase confuso. Deu um passo em minha direção, estendendo uma mão hesitante. — Ei, qual é. Não chora. Você sabe que eu odeio quando você chora. — Ele tentou me puxar para um abraço, um gesto desajeitado e forçado.
Nesse momento, o celular dele vibrou. Uma música pop vibrante e animada tocou do bolso dele. Ele olhou para baixo, os olhos se arregalando levemente. Murmurou um pedido de desculpas rápido, pegando o telefone. O rosto dele suavizou imediatamente, um sorriso substituindo a carranca confusa. — Oi, bebê — ele ronronou no telefone, a voz de repente cheia de calor e afeto, um contraste gritante com a raiva que acabara de direcionar a mim. — É, acabei de acordar. Só pegando... hum... café. Chego aí em vinte minutos. — Ele me lançou um olhar rápido e desdenhoso, os olhos frios novamente. — Tenho que ir, Kiara. Você sabe... trabalho. Supera isso.
Então ele se foi, saindo da cozinha a passos largos, a voz já desaparecendo enquanto continuava seus sussurros doces para Bella. A pesada porta da frente clicou ao fechar, me deixando parada sozinha na cozinha silenciosa e bagunçada, o suco de laranja derramado uma mancha brilhante e pegajosa no mármore.
Minhas lágrimas, que haviam pausado, agora recomeçaram, quentes e pesadas.
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