
A Gaiola Dourada Partida
Capítulo 2
O telefone tocou, quebrando o silêncio da noite. Eu atendi.
"Clara?"
Era o meu marido, Pedro. A sua voz estava baixa e rouca, como se estivesse a conter alguma emoção forte.
"Sim, sou eu."
"Onde é que estás? Porque é que não estás em casa?"
Olhei para as paredes brancas do quarto de hotel. Cheirava a desinfetante e a solidão.
"Estou fora. Preciso de um tempo."
"Um tempo? O que é que isso quer dizer? O teu pai está doente, ele precisa de ti. Ele não para de perguntar por ti."
O meu pai. O homem que me vendeu.
"Diz-lhe que estou morta," respondi, com a voz vazia de qualquer sentimento.
"Clara! Que raio estás a dizer? Ele é teu pai! Ele está a morrer!"
A sua voz subiu, cheia de raiva e incredulidade.
"Ele deixou de ser meu pai no dia em que me forçou a casar contigo para salvar a empresa dele."
Houve um silêncio do outro lado. Um silêncio pesado, carregado.
"Volta para casa, Clara. Vamos conversar sobre isto."
"Não há nada para conversar, Pedro. Eu quero o divórcio."
Desliguei antes que ele pudesse responder.
Bloqueei o número dele. Depois o da minha madrasta, Sofia. E o do meu meio-irmão, Tiago.
Finalmente, respirei fundo.
O casamento foi um negócio. Eu era o preço. O meu pai, Artur, estava à beira da falência. Pedro, o herdeiro de uma família rica, ofereceu-se para o salvar. A condição era simples: eu.
Casei com ele. A empresa do meu pai foi salva. Ele, a sua nova mulher Sofia e o filho dela, Tiago, continuaram a sua vida de luxo.
Eu fiquei presa.
Durante dois anos, vivi numa gaiola dourada. Pedro era um marido ausente, sempre a viajar, sempre ocupado. Eu era apenas um troféu que ele exibia em jantares de negócios.
O meu "pai" ligava-me todas as semanas. Não para saber de mim, mas para me lembrar do meu dever.
"Sê uma boa esposa, Clara. A nossa família depende disso."
A família deles. Eu não fazia parte dela.
Mas agora, o meu pai estava a morrer de cancro. Os médicos deram-lhe meses. De repente, eu tornei-me a sua filha querida outra vez.
Ele queria que eu implorasse a Pedro que usasse as suas ligações para conseguir um tratamento experimental no estrangeiro. Um tratamento que custava uma fortuna.
Eu recusei.
E pela primeira vez na minha vida, fugi.
Peguei no meu passaporte, em algum dinheiro que tinha guardado e saí daquela casa sem olhar para trás.
Não tinha para onde ir, por isso vim para este hotel barato numa cidade onde ninguém me conhecia.
A minha liberdade era estranha. Assustadora. Mas era minha.
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