
A Gaiola Dourada Partida
Capítulo 3
No dia seguinte, encontrei um pequeno café perto do hotel. O cheiro a café fresco e pão quente era reconfortante.
Pedi um café e um pastel de nata, e sentei-me a uma mesa perto da janela.
Pela primeira vez em anos, senti-me normal. Ninguém me olhava como a "esposa de Pedro Bastos". Eu era apenas uma mulher a tomar o pequeno-almoço.
O meu telemóvel vibrou. Um número desconhecido. Ignorei.
Vibrou outra vez. E outra.
Finalmente, atendi, irritada.
"Estou?"
"Clara, sou eu, a Sofia."
A voz da minha madrasta era melosa, como sempre.
"O que é que queres?"
"Querida, o teu pai não está bem. Ele precisa de ti. Ele está a chamar por ti."
"Já disse ao Pedro. Eu não vou voltar."
"Não sejas assim, Clara. Ele ama-te. Nós todos te amamos. Estás a ser egoísta."
Egoísta. A palavra atingiu-me.
"Egoísta? Fui eu que fui vendida para que vocês pudessem manter os vossos carros de luxo e as vossas férias na Europa. E eu sou a egoísta?"
"Isso não é verdade! Foi um sacrifício pela família!"
"Não, Sofia. Foi um sacrifício da minha vida pela vossa família."
Desliguei o telefone.
As minhas mãos tremiam. O café parecia amargo agora.
Paguei a conta e saí. Precisava de andar.
As ruas estavam cheias de gente. Famílias a rir, casais de mãos dadas.
Senti uma pontada de inveja.
Será que algum dia eu teria aquilo? Uma vida simples, um amor verdadeiro?
Ou estava condenada a carregar o peso do meu passado para sempre?
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