
A Fúria da Esposa, a Dinastia em Cinzas
Capítulo 2
Ponto de Vista: Íris Ferraz
A palavra pairou no ar congelado, um comando e uma sentença de morte. Meus homens se moveram como um só, uma unidade perfeita de lealdade e violência que eu cultivei por anos. O corpo de Heitor enrijeceu, sua mão instintivamente indo para a parte de trás da cintura, onde ele sempre mantinha sua arma.
"Íris, não faça isso", ele avisou, sua voz um rosnado baixo. O estrategista calmo se fora, substituído pelo animal encurralado que eu conhecia da nossa juventude.
Mas eu já não dava ouvidos a avisos. A confiança nele tinha sido uma montanha, sólida e inabalável por duas décadas. Em uma única tarde, ele a transformou em pó.
Ele tentou dar um passo em minha direção, a mão estendida. "Vamos apenas conversar."
Eu recuei como se seu toque fosse me queimar. "Não se atreva a colocar as mãos em mim", sibilei. "Não depois de terem estado nela."
A garota, Kayla, choramingou atrás dele, seus grandes olhos castanhos cheios de lágrimas. Ela parecia aterrorizada, uma corça na mira. Era uma boa atuação.
"Acabou, Heitor", eu disse, as palavras com gosto de ácido. "Isso, nós, o império... acabou. Eu quero o divórcio."
Ele teve a audácia de parecer chocado. "Divórcio? Íris, seja razoável."
"Razoável?" Uma risada amarga escapou dos meus lábios. "Você quer razoabilidade?" Puxei minha própria arma do coldre escondido dentro do meu casaco. O metal frio era um conforto familiar em minha mão. Eu não a apontei para ele. Apontei para ela. "Razoável seria eu colocar uma bala na sua putinha por desrespeitar a memória da minha família."
O ar crepitou com tensão. Meus homens tinham suas armas em punho, um impasse nos portões do nosso santuário em ruínas. Kayla soltou um pequeno soluço sufocado.
"Saia da frente, Heitor", ordenei.
Ele não se moveu. Tornou-se uma muralha de músculos e fúria, protegendo-a completamente. "Você terá que passar por mim."
"Não me tente."
Apertei o gatilho.
O tiro foi ensurdecedor no silêncio do inverno. Não a atingiu. Eu não estava tentando. A bala se cravou na moldura de madeira da porta, a centímetros da cabeça dela, fazendo voar lascas.
Kayla gritou, um som agudo e penetrante que me arrepiou. Ela desabou contra Heitor, seu corpo tremendo incontrolavelmente.
E naquele momento, ele se moveu. Mais rápido do que eu o via se mover em anos. Ele cruzou o espaço entre nós em duas longas passadas, sua mão agarrando meu pulso, forçando meu braço para baixo. A força em seu aperto era imensa, implacável. A dor subiu pelo meu braço, aguda e elétrica.
"Chega", ele rosnou, o rosto a centímetros do meu. Seus olhos, os mesmos olhos escuros que costumavam me olhar com adoração, agora eram lascas frias e duras de obsidiana.
A pressão em meu pulso era esmagadora, os ossos rangendo. Vi a cicatriz em suas costas em minha mente, aquela que ele ganhou por mim. Esta mão, a que agora me causava tanta dor, era a mesma mão que me tirou dos escombros da nossa antiga vida, vez após vez.
Uma única lágrima quente escapou do meu olho e traçou um caminho pela minha bochecha fria. Eu não estava chorando pela dor no meu braço, mas pela agonia insuportável no meu peito. Ao ver aquela lágrima, algo nele vacilou. Seu aperto afrouxou por uma fração de segundo.
Foi toda a abertura que eu precisava.
Eu não era mais a garota que ele precisava proteger. Eu era uma rainha. Girei meu corpo, usando o impulso dele contra ele mesmo, e ergui meu joelho com força em seu estômago. Ele grunhiu, cambaleando para trás, sua mão soltando meu pulso.
Meu braço pendia em um ângulo inútil, meu pulso gritando em protesto, mas meu olhar estava fixo nele. Ele se endireitou, a respiração ofegante, mas não parecia zangado. Ele parecia... preocupado.
"Seu pulso", disse ele, dando um passo em minha direção. "Deixe-me ver."
Ele estendeu a mão para mim novamente, aquele velho hábito arraigado de querer curar minhas feridas. Do mesmo jeito que ele limpava e enfaixava meus cortes quando éramos crianças, seu toque tão cuidadoso, tão gentil.
"Fique longe de mim", rosnei, recuando.
Ele parou, a mão pairando no ar entre nós. "Íris, você está machucada."
"Você me machucou", retruquei. "Isso", gesticulei com minha mão boa para meu pulso latejante, "não é nada. Isso pode ser consertado. O que você fez lá dentro", apontei para o refúgio, "isso nunca poderá ser consertado."
A finalidade em minha voz pareceu atingi-lo. A preocupação em seus olhos foi substituída por uma resignação familiar e cansada. Ele me conhecia. Ele sabia quando eu havia traçado uma linha que nunca poderia ser desfeita.
Olhei para além dele, para a garota que agora soluçava com as mãos no rosto na varanda. Então olhei de volta para ele, para o homem que era meu mundo inteiro.
"Acabou, Heitor", sussurrei, as palavras parecendo ser arrancadas da minha alma. Dei as costas para ele, para o refúgio, para os vinte anos que construímos juntos. Caminhei em direção ao meu carro, cada passo um ato de pura força de vontade.
Meu braço direito, Léo, abriu a porta para mim. Seu rosto estava sombrio.
"Chefe?", ele perguntou, a voz baixa.
"Leve-me para casa", eu disse, minha voz falhando na última palavra.
Enquanto o carro se afastava, olhei no retrovisor. Heitor ainda estava lá, me vendo partir. Ele não se moveu para me impedir. Ele estava me deixando ir. E em seus braços, ele embalava a garota chorosa, confortando-a.
Ele havia feito sua escolha.
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