
A Fúria da Esposa, a Dinastia em Cinzas
Capítulo 3
Ponto de Vista: Íris Ferraz
Eu estava sentada no escuro da nossa cobertura, as luzes da cidade de São Paulo brilhando como diamantes espalhados lá embaixo. Os papéis do divórcio jaziam sobre a mesa de mogno polido, sem assinatura. Um dia se passou. Depois dois. Meu advogado ligou três vezes. Heitor não apareceu. Não ligou.
O silêncio era uma coisa viva, uma presença sufocante que preenchia cada canto da vida que havíamos construído. Eu esperava uma luta, uma negociação, uma guerra. Não esperava ser ignorada como um caso de uma noite.
No terceiro dia, um pacote chegou. Uma caixa pequena e elegante entregue por um mensageiro. Não era de Heitor. O endereço do remetente era uma caixa postal genérica. Minhas mãos estavam firmes enquanto eu abria. Dentro, aninhado em um leito de veludo preto, havia um porta-retratos de prata.
Era uma foto de Heitor e Kayla. Eles estavam no refúgio. Ele estava sentado no balanço da varanda, e ela estava aninhada em seu colo, a cabeça apoiada em seu peito. Ele estava sorrindo. Não seu sorriso público e calculado, mas um sorriso genuíno e suave que alcançava seus olhos. O tipo de sorriso que ele costumava reservar apenas para mim. Sua mão repousava protetoramente sobre a barriga dela.
Abaixo da foto havia um bilhete, escrito em uma caligrafia delicada e floreada.
*Ele diz que eu o lembro de você. Mas você está velha e não pode mais dar a ele o que ele precisa. Eu posso. O futuro nos pertence.*
Dentro do bilhete, havia uma foto de ultrassom. Uma imagem minúscula e granulada de uma vida apenas começando.
Eu não me despedacei. Não gritei. Apenas encarei a imagem, uma fúria fria e metódica crescendo dentro de mim. Ele não tinha apenas me substituído. Ele estava substituindo nosso filho.
"Léo", eu disse no intercomunicador. "Encontre-a. Não me importa o que custe. Encontre a garota."
O nome em seus registros de emprego na cafeteria do centro onde ela trabalhava era Kayla Souza. A ironia era tão espessa que era nauseante. Ele havia encontrado uma garota com um nome que ecoava o meu. Uma imitação barata.
Meu plano era simples. Heitor não assinaria os papéis? Tudo bem. Eu lhe daria um motivo. Eu tiraria dele seu precioso novo futuro, e o faria assistir.
Nós a encontramos dois dias depois, saindo de uma consulta pré-natal. Meus homens eram profissionais. Ela foi colocada em uma van preta antes mesmo que pudesse gritar.
O ponto de encontro era o antigo estaleiro, um lugar de ferrugem e ruína na beira da cidade. Um lugar onde havíamos fechado muitos negócios e acabado com muitas vidas. O céu tinha a cor de chumbo, um cinza pesado e opressivo que combinava com o humor em minha alma. Um vento cortante soprava do mar, trazendo a promessa de uma garoa gelada.
Quando cheguei, Kayla já estava lá. Ela estava suspensa de um guindaste por um arnês, pendurada a seis metros acima da água agitada e gelada do canal. Ela estava aterrorizada, o rosto pálido e manchado de lágrimas, mas quando me viu, seu medo se transformou em uma espécie de bravata patética.
"Ele vai te matar por isso!", ela gritou, sua voz fina contra o vento. "Heitor vai te caçar e te matar!"
Caminhei até a beira do píer, ignorando-a. Acendi um cigarro, a chama tremeluzindo ao vento.
"Heitor não mata mulheres", eu disse calmamente, soltando uma nuvem de fumaça. "É uma de suas poucas regras."
"Eu não sou qualquer mulher!", ela gritou, torcendo-se no arnês. "Estou carregando o filho dele! Eu sou a família dele agora! Você é só a velha cadela que ele está jogando fora!"
Eu quase sorri. Ela era tão jovem, tão ingênua. Achava que um bebê era um trunfo em nosso mundo. Não tinha ideia do quão pouco isso importava quando impérios estavam em jogo.
Faróis cortaram a penumbra. O sedã de Heitor parou com um rangido na entrada do píer. Ele saiu, o rosto uma nuvem de fúria. Ele viu Kayla pendurada no guindaste, e seus olhos me encontraram.
"Íris, pelo amor de Deus!", ele rugiu, caminhando em minha direção. "Mande descer ela!"
Dei uma tragada lenta no meu cigarro. "Assine os papéis, Heitor." Apontei com o queixo para os documentos do divórcio que Léo havia colocado em um caixote próximo, presos por uma pedra.
"Isso é loucura!", ele gritou, parando a alguns metros de mim.
"É mesmo?", perguntei, minha voz suave. "Foi você quem me ensinou. Alavancagem. Encontre o que eles mais amam e aperte."
Kayla estava soluçando histericamente agora. "Heitor! Me ajuda! O bebê!"
Suas palavras foram um golpe físico. O bebê. A criança que deveria ter sido nossa. O futuro que ele havia roubado de mim e estava dando a ela.
"Ela me chamou de velha cadela, Heitor", eu disse, minha voz baixando para um sussurro. "Ela disse que você estava me jogando fora. É isso que é? Vinte anos, apagados por um modelo novo?"
Ele não respondeu. Apenas me encarou, a mandíbula cerrada, as mãos fechadas em punhos. Seu silêncio foi toda a confirmação que eu precisava.
A garoa começou a cair, pequenas e afiadas gotas de gelo que picavam meu rosto.
"Assine os papéis", eu disse novamente, minha voz seca e desprovida de emoção. "Ou ela dá um mergulho. A escolha é sua."
Ele olhou de mim para a garota chorando suspensa sobre a água, sua nova vida pendurada por um fio. O homem que eu amei por duas décadas me olhou como se eu fosse um monstro. Talvez eu fosse. Afinal, ele me criou.
Você pode gostar





