
A Fênix das Cinzas da Tragédia
Capítulo 2
Quando o médico me disse que o meu filho tinha morrido, o mundo pareceu parar.
Eu estava sentada numa cadeira fria de hospital, com o meu marido, Pedro, ao meu lado.
Ele segurava a minha mão, mas o seu toque não me trazia conforto.
"Senhora Mendes," disse o médico com uma voz suave, "Fizemos tudo o que podíamos."
As palavras ecoaram na minha cabeça, mas não as consegui processar.
O meu filho, o nosso pequeno Tiago, tinha nascido prematuro há apenas uma semana.
Lutou muito, mas o seu pequeno corpo não aguentou.
"Onde está a Eva?" perguntei, a minha voz era um sussurro rouco.
Eva, a irmã gémea de Pedro, era a pediatra chefe neste hospital.
Ela prometeu-nos que cuidaria pessoalmente do Tiago.
Pedro apertou a minha mão com mais força.
"Ela está ocupada, Sofia. Houve um grande acidente de autocarro. Ela está a salvar outras crianças."
As suas palavras não faziam sentido.
Salvar outras crianças? E o nosso filho? O sobrinho dela?
Olhei para o rosto de Pedro, procurando qualquer sinal de que ele partilhava da minha confusão, da minha dor.
Mas o seu rosto estava em branco, como se ele estivesse a recitar um facto de um livro.
"Vamos para casa, Sofia. Precisas de descansar."
Ele puxou-me para cima, e eu segui-o como um autómato.
O caminho para casa foi silencioso.
A casa parecia vazia, assustadoramente silenciosa sem os bipes das máquinas do hospital a que me habituara na última semana.
Sentei-me no sofá, a olhar para o berço vazio no canto da sala.
Tínhamos montado dois berços, um para o Tiago e outro para o nosso futuro segundo filho.
Agora, ambos estavam vazios.
Pedro foi para a cozinha e voltou com um copo de água.
"Bebe isto."
Obedeci, a água fria a descer pela minha garganta seca.
O meu telemóvel tocou. Era um número desconhecido. Ignorei.
Tocou outra vez. E outra vez.
Na quarta vez, Pedro pegou no telemóvel da minha mão.
"Quem é?" perguntou ele, a sua voz irritada.
Houve uma pausa.
"Sim, sou o marido dela. O que quer?"
Ele ouviu por um momento, a sua expressão a mudar de irritação para algo que eu não conseguia identificar.
"Entendo. Obrigado por me informar."
Ele desligou e colocou o telemóvel na mesa.
"Quem era?" perguntei.
"Apenas um vendedor," disse ele, demasiado depressa.
Eu sabia que ele estava a mentir. O Pedro era péssimo a mentir.
"Pedro, diz-me a verdade."
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo.
"Era do banco. Sobre o empréstimo da empresa."
A empresa dele. A empresa que ele começou com o dinheiro que o meu pai nos deu como presente de casamento.
Estava a falhar. Eu sabia disso, embora ele tentasse esconder de mim.
"O que é que eles disseram?"
"Não é nada com que te devas preocupar agora, Sofia. Já temos o suficiente no nosso prato."
A sua evasão só alimentou a minha crescente sensação de pavor.
O meu filho estava morto. A empresa do meu marido estava a afundar-se. E a minha cunhada, a médica que deveria salvar o meu bebé, estava em parte incerta.
Uma onda de náusea percorreu-me. Corri para a casa de banho e vomitei.
Quando voltei, Pedro estava ao telefone.
A sua voz era baixa, mas eu conseguia ouvir a urgência nela.
"Eva, onde estás? Preciso de ti. A Sofia não está bem."
Houve uma longa pausa enquanto ele ouvia a resposta dela.
"Eu não me importo com o acidente! O teu sobrinho morreu! Precisamos de ti aqui!"
A sua voz subiu, cheia de uma angústia que eu não tinha visto antes.
"O quê? Como assim não podes vir? Que reunião é mais importante do que isto?"
Ele bateu com o punho na parede, deixando uma pequena mossa no gesso.
"Está bem. Está bem, faz o que tens de fazer."
Ele desligou, o seu rosto pálido e tenso.
"Ela não vem," disse ele, a sua voz desprovida de emoção. "Ela tem uma reunião importante com investidores para o novo centro de investigação do hospital."
Uma reunião.
O meu filho estava morto, e a irmã dele, a sua tia, tinha uma reunião.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios.
"Claro que tem. O trabalho dela sempre veio primeiro."
Isto era um eco doloroso, a Eva sempre se preocupou mais com a sua carreira do que com qualquer outra coisa.
Sempre.
Pedro olhou para mim, os seus olhos finalmente a mostrarem uma centelha de dor partilhada.
"Sofia, eu sinto muito."
Mas as suas palavras chegaram demasiado tarde. A fenda entre nós já se tinha formado, e eu sabia, com uma certeza arrepiante, que só iria aumentar.
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