
A Fênix das Cinzas da Tragédia
Capítulo 3
A noite seguinte foi um borrão de insónia e silêncio.
Pedro dormiu no sofá. Ou pelo menos fingiu dormir.
Eu fiquei na nossa cama, a olhar para o teto, a ouvir a sua respiração irregular.
Cada som na casa parecia amplificado – o zumbido do frigorífico, o ranger do chão de madeira.
De manhã, encontrei-o na cozinha, a fazer café.
Ele não olhou para mim.
"Vou tratar dos... arranjos," disse ele, a sua voz rouca.
Arranjos. Uma palavra tão clínica, tão distante, para o funeral do nosso próprio filho.
Assenti, incapaz de formar palavras.
Ele saiu de casa sem dizer mais nada.
Fiquei sozinha com o silêncio e os dois berços vazios.
Caminhei até ao quarto do bebé. Tudo estava perfeito, à espera.
As paredes pintadas de um azul suave. Os pequenos macacões dobrados na gaveta.
Peguei num pequeno par de botinhas de lã que a minha mãe tinha tricotado.
Eram tão pequenas. Tão perfeitas.
Sentei-me no chão, a segurar as botinhas contra o meu peito, e finalmente chorei.
Chorei pela perda do meu filho, pela frieza do meu marido, pela traição da minha cunhada.
Chorei até não ter mais lágrimas.
Horas depois, a campainha tocou.
Arrastei-me até à porta, o meu corpo a sentir-se pesado e dorido.
Era a minha mãe.
Os seus olhos estavam vermelhos e inchados, mas quando ela me viu, a sua expressão transformou-se em pura preocupação.
"Oh, minha querida."
Ela envolveu-me nos seus braços, e eu desabei contra ela, um novo fluxo de lágrimas a começar.
Ela guiou-me até ao sofá e sentou-se ao meu lado, a segurar a minha mão.
"Onde está o Pedro?" perguntou ela suavemente.
"Foi tratar dos... arranjos."
A minha mãe franziu o sobrolho. "Sozinho? Ele devia estar aqui contigo."
Eu encolhi os ombros, sentindo-me vazia. "Ele não sabe como."
"E a Eva? Ela veio ver-te?"
Eu abanei a cabeça. "Ela tinha uma reunião."
A raiva brilhou nos olhos da minha mãe. "Uma reunião? Que tipo de mulher põe uma reunião à frente da sua família neste momento?"
Ela não esperou por uma resposta. Pegou no seu telemóvel e marcou um número.
"Eva, é a Ana. Onde estás?"
A sua voz era gelada.
"Não me interessa onde estás. A tua cunhada precisa de ti. O teu irmão precisa de ti. O teu sobrinho está morto, caso te tenhas esquecido."
Houve uma pausa.
"Não, não vou acalmar-me. És uma desgraça. Nunca gostei de ti, e agora sei porquê. Não tens coração."
Ela desligou com força.
"Desculpa, querida. Eu não devia ter feito isso à tua frente."
"Não," disse eu, a minha voz surpreendentemente firme. "Obrigada."
Pela primeira vez em dias, senti uma centelha de outra coisa que não dor.
Era raiva. E era boa.
A minha mãe ficou comigo o resto do dia. Ela fez-me chá, obrigou-me a comer uma fatia de tosta e ouviu-me enquanto eu falava sobre o Tiago.
Falei sobre como ele agarrou o meu dedo com a sua mãozinha, sobre o cheiro do seu cabelo.
Ela ouviu, as suas próprias lágrimas a caírem silenciosamente.
Quando Pedro voltou ao fim da tarde, parecia exausto.
Ele olhou para a minha mãe, depois para mim.
"Olá, Ana," disse ele rigidamente.
"Pedro," respondeu a minha mãe, a sua voz igualmente fria.
O ar na sala estava denso com tensão não dita.
"Está tudo tratado," disse Pedro, dirigindo-se a mim. "O serviço será na sexta-feira."
Sexta-feira. Daqui a dois dias.
Ele sentou-se na poltrona do outro lado da sala, criando uma distância física que espelhava a emocional.
"A Eva ligou," disse ele. "Ela disse que sente muito por não poder vir. Ela vai tentar chegar a tempo para o funeral."
"Tentar?" A minha mãe bufou. "Que generoso da parte dela."
Pedro ignorou-a. "Ela também disse... ela disse que o centro de investigação recebeu o financiamento. O nome dela estará na placa."
Ele disse isto como se fosse uma espécie de prémio de consolação.
Como se o sucesso da carreira da irmã dele pudesse, de alguma forma, compensar a morte do meu filho.
Olhei para ele, realmente olhei para ele, e vi um estranho.
Um homem que estava mais preocupado em apaziguar a sua irmã do que em confortar a sua esposa.
Um homem que estava a afogar-se nas suas próprias falhas e a arrastar-me com ele.
"Eu quero o divórcio," disse eu.
As palavras saíram antes que eu pudesse pará-las, silenciosas mas claras na sala tensa.
Pedro olhou para mim, chocado. "O quê? Sofia, não podes estar a falar a sério. Estás em sofrimento. Não estás a pensar com clareza."
"Oh, estou a pensar com mais clareza do que nunca," respondi, a minha voz a ganhar força. "O nosso filho morreu, Pedro. E tu e a tua irmã agem como se fosse apenas um inconveniente."
"Isso não é verdade!"
"Não é? A Eva nem sequer se deu ao trabalho de vir. E tu? Estás mais preocupado com a porcaria da tua empresa e em defender a tua irmã do que comigo."
"A minha empresa está a falir! Estou a tentar salvar-nos!" gritou ele, finalmente a deixar a sua frustração transparecer.
"Salvar-nos? Ou salvar-te a ti mesmo?"
Levantei-me, sentindo uma estranha calma a instalar-se sobre mim.
"Acabou, Pedro. Eu quero que saias."
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