
A Farsa Desmascarada
Capítulo 2
Quatro anos se passaram. Quatro longos anos desde que a vida de Juliana se entrelaçou com a de Pedro e Ana, os irmãos mais novos de seu falecido noivo, Carlos.
Naquele dia, o mundo dela desmoronou com a notícia da morte de Carlos, mas ela se agarrou à promessa que fez a ele no leito de morte da mãe deles: cuidar de seus irmãos como se fossem dela.
E ela cumpriu.
Juliana investiu tudo o que tinha, e mais um pouco, na carreira de Pedro. Ela o tirou de um emprego medíocre em um bar e o transformou em uma estrela do futebol, contratando os melhores treinadores, nutricionistas e agentes. Para Ana, ela garantiu uma vaga em uma das escolas de elite mais caras do país, moldando-a para ser uma jovem elegante e sofisticada. Ela dedicou sua vida a eles, acreditando que estava honrando a memória do homem que amou.
Hoje era a véspera de um jogo importante, o jogo que poderia consagrar Pedro de vez. Juliana preparou o lanche favorito dele e foi até o escritório que montou para ele no apartamento de luxo onde viviam. A porta estava entreaberta, e vozes tensas vinham de dentro.
Ela parou, com a mão na maçaneta, e ouviu a voz chorosa de Ana.
"Pedro, eu sei que você não gosta da Juliana. Eu sei que você sempre me amou. A gente estava tão perto de ficar junto, mas por causa da doença da nossa mãe e da falta de dinheiro para a minha escola, você não teve outra escolha a não ser aceitar a ajuda da Juliana e fingir ser namorado dela."
O coração de Juliana parou. A bandeja em suas mãos tremeu.
"Ela te forçou por todos esses anos. Agora que você é famoso, você não precisa mais se casar com ela! Eu não aceito que você se case com ela. Se você fizer isso, eu pulo daqui!"
A mãe de Pedro e Ana, que também estava na sala, interveio com um tom de súplica.
"Pedro, a Ana cresceu comigo, e eu sempre a vi como minha nora. Você não pode desapontá-la!"
A irmã de Pedro, que não era Ana, também se manifestou.
"Irmão, por favor, termina com a Juliana! A Ana te ama tanto, eu quero que ela seja minha cunhada."
Todos pressionavam Pedro, que permanecia em silêncio.
"Diga alguma coisa, Pedro! Você tem o poder de se livrar da Juliana agora. Por que você não termina com ela? Por que você vai se casar com ela? Se você se apaixonou por ela, eu vou me matar!"
O caos se instalou. Sem obter uma resposta, Ana perdeu o controle e correu para a sacada do trigésimo andar, tentando pular.
Pedro finalmente se moveu, agarrando-a com força. Em voz baixa, ele disse a única coisa que poderia acalmá-la.
"Está bem, eu não vou me casar."
Um sorriso vitorioso brotou no rosto de Ana, em meio às lágrimas.
"Eu sabia que você me amava! Eu quero que você fuja do casamento e humilhe a Juliana, como vingança por todos esses anos de coação."
A sugestão chocou a todos na sala. Vendo a hesitação no rosto de Pedro, Ana começou a chorar novamente.
"Pedro, você também a odeia, não é? Se você me prometer isso, eu nunca mais vou tentar me matar."
A mãe deles, em vez de repreender a filha, incentivou o plano cruel.
"Fuja do casamento, meu filho. A Juliana merece uma lição."
Pedro franziu a testa, seu rosto uma máscara de pensamentos conflitantes. Por fim, ele cedeu.
"Tudo bem."
Sua mãe e irmã sorriram, radiantes. Ana se jogou nos braços de Pedro, o rosto sorridente manchado de lágrimas.
"Então está combinado! Mal posso esperar para ver a Juliana sofrendo."
Do lado de fora, Juliana ouviu cada palavra. O mundo que ela construiu nos últimos quatro anos se desfez em pó. Ela se virou, sem fazer barulho, e caminhou em direção ao elevador. O lanche que ela preparou com tanto carinho caiu no chão, esquecido.
Dentro do carro, com as mãos tremendo no volante, ela ligou para sua mãe.
"Mãe, você estava certa."
Sua voz era um fio.
"Pedro, mesmo que se pareça com o Carlos, ele não é o Carlos. Eu não vou me casar."
Do outro lado da linha, um suspiro cansado.
"Carlos se foi há tantos anos, minha filha. Você só o usou como um substituto. Já deu, não precisa se casar com ele."
As palavras da mãe trouxeram à tona um passado doloroso.
Juliana conheceu Carlos na infância. Ele era o vizinho dois anos mais velho, o cavalheiro gentil que sempre protegia a pequena rebelde que ela era. Eles cresceram juntos, inseparáveis, e o amor floresceu de forma natural e inevitável. Ela o amava com cada fibra de seu ser e jurou que se casaria apenas com ele.
No dia do aniversário de vinte e dois anos de Carlos, eles planejaram se casar. Juliana esperou por ele o dia todo no cartório, com o coração cheio de sonhos. Mas ele nunca apareceu. Em vez disso, ela recebeu a pior notícia de sua vida: Carlos havia morrido em um acidente de carro.
Seu mundo mergulhou na escuridão. Incapaz de aceitar a verdade, ela começou uma busca desesperada por ele em outros rostos. Um rosto semelhante, olhos claros, uma voz gentil... Qualquer traço de Carlos em outra pessoa era o suficiente para ela tentar uma aproximação.
Há quatro anos, ela encontrou Pedro. Ele trabalhava em um bar, um jovem com uma semelhança impressionante com Carlos. Movida por seu luto e sua obsessão, Juliana decidiu que precisava tê-lo por perto. Ela descobriu sobre sua família endividada, sua mãe doente e sua irmã precisando de uma boa escola. E então, fez a proposta: ela pagaria por tudo, se ele aceitasse ser seu namorado.
Desde então, ela nunca mais procurou outro substituto. Todos, inclusive a família dele, pensavam que ela estava perdidamente apaixonada por Pedro. Mas no fundo, ela sabia a verdade. Estava apenas se lembrando de Carlos através dele, vivendo uma ilusão que ela mesma se forçou a acreditar.
Até hoje. A cena no escritório foi o despertar brutal de que precisava. Um substituto é apenas um substituto.
Sua voz saiu rouca.
"Mãe, vou te encontrar em Lisboa em alguns dias. Vamos morar lá."
E passar o resto da vida se lembrando do verdadeiro Carlos.
Depois de desligar, ela dirigiu de volta para a suíte nupcial que dividiria com Pedro. Uma designer a esperava com mais de cem vestidos de noiva espalhados pelo quarto. A visão que antes a animaria, agora a enchia de náuseas.
Ela acenou com a mão, dispensando a mulher.
"Não vou escolher, não vou me casar."
No instante seguinte, a porta se abriu. Era Pedro, com seus olhos claros que um dia a lembraram tanto de Carlos.
"Não vai se casar?"
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