
A Farsa Desmascarada
Capítulo 3
Juliana não esperava que ele voltasse tão cedo. O acordo deles sempre foi claro: ela mandava, ele obedecia. Ela sempre foi a dominante na relação, a que ditava as regras. Por isso, não viu razão para esconder a verdade.
"Não vamos nos casar. Qual o problema?"
A indiferença no tom dela o pegou de surpresa. Pedro presumiu que era mais um de seus dramas, um teste para ver sua reação. Ele não levou a sério, tirou o casaco e disse com a frieza habitual.
"Você foi quem insistiu em se casar, e agora você é quem diz que não vai. O que você está aprontando de novo?"
Ele ignorou a pergunta dela e olhou para os vestidos espalhados pela sala. Seus olhos passaram por dezenas de modelos caros antes de apontar para um.
"Este aqui."
Juliana olhou. Era o vestido que ela tinha elogiado em um vídeo dois dias antes, o seu favorito. Uma pontada de surpresa a atingiu, mas ela a afastou rapidamente. Não significava nada.
"O que você fez hoje?", ela perguntou, a voz neutra.
Pedro mentiu sem piscar.
"Estava ocupado com o trabalho. Não se preocupe, não vou esquecer o que prometi, de transar com você todos os dias."
Ele se aproximou e a pegou nos braços, com a intenção de levá-la para o quarto. Era parte do acordo, parte do preço que ele pagava. Mas, pela primeira vez em quatro anos, Juliana o afastou.
"Não precisa por enquanto. Vá dormir no quarto de hóspedes."
A mão de Pedro hesitou no ar. Um traço de descrença passou por seus olhos, como se estivesse vendo-a pela primeira vez.
"Você não costumava me querer sempre?"
Um riso irônico escapou dos lábios de Juliana.
"Você não sempre disse que fruta forçada não tem doçura?"
Os olhos de Pedro se aprofundaram, analisando-a. Por um momento, ele pareceu querer dizer algo, mas se conteve. Ele a colocou no chão com uma delicadeza que não era comum.
"Como quiser."
Dito isso, ele subiu as escadas sem olhar para trás e entrou no quarto de hóspedes, fechando a porta atrás de si.
No dia seguinte, Juliana acordou cedo. A empregada trouxe o café da manhã e o relatório diário sobre o paradeiro de Pedro.
"O Sr. Pedro saiu cedo para se exercitar. Quer esperar por ele para o café da manhã?"
Juliana balançou a cabeça.
"Vou sair daqui a pouco, não vou esperar por ele."
Depois de comer, Juliana pegou o carro. Primeiro, resolveu os trâmites de sua residência permanente em Lisboa. Com tudo acertado, ela encontrou um café ao ar livre com uma vista ampla, um lugar perfeito para observar a cidade e se despedir dela em silêncio.
Ela mexeu no celular por um tempo, respondendo e-mails e fazendo arranjos para sua partida. Quando levantou a cabeça para apreciar a vista, seus olhos captaram uma cena na cafeteria do outro lado da rua.
Era Pedro. E ele estava com Ana.
Ele a puxava pela mão, rindo de algo que ela dizia. Entraram na cafeteria e ele pediu dois cafés, enfatizando que um deveria ser quente. Ana fez um bico manhoso, dizendo que queria um gelado. Pedro, com um sorriso que Juliana nunca tinha visto, acariciou o cabelo dela.
"Não, você ainda está naqueles dias, só pode beber quente."
Juliana observou, paralisada. Como esperado de amigos de infância, ele se lembrava de tudo sobre ela.
O cadarço de Ana desamarrou, e Pedro, sem hesitar, se abaixou para amarrá-lo para ela. Ana disse que queria provar o café dele, e ele estendeu o copo para que ela bebesse um gole. Ela apontou para um vestido na vitrine de uma loja, exclamando como era bonito, e ele a levou para dentro, pacientemente esperando enquanto ela experimentava um por um.
Vendo os dois passeando, agindo como um casal apaixonado, Juliana sentiu como se estivesse conhecendo o verdadeiro Pedro pela primeira vez.
Na frente da pessoa que ele gostava, ele não era o homem frio e distante que ela conhecia. Ele sorria, brincava, e seu olhar era cheio de carinho enquanto ela fazia caretas. Ele não mantinha uma distância calculada, indiferente a tudo. Pelo contrário, ele se lembrava dos gostos e preferências dela, até mesmo a ajudava a combinar as roupas. Ele não dizia nada que pudesse estragar o clima, e não importava o que ela dissesse, ele sempre encontrava um jeito de continuar a conversa, mantendo-a viva e engajada.
Na frente de Ana, ele tirou sua máscara de frieza e voltou a ser ele mesmo. O Pedro cheio de vida, de vigor, com uma capacidade infinita de amar.
E essas coisas, Juliana nunca viu quando estava com ele.
Naquele momento, ela finalmente entendeu. Entre amar e não amar, havia um abismo. E não era algo que o dinheiro pudesse preencher.
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