
A Farsa Bem Montada
Capítulo 2
"Sinto muito, Sra. Mendes. O caso da sua filha é grave."
O Dr. Ricardo ajustou os óculos, seu rosto era uma máscara de falsa compaixão. Ele empurrou uma série de exames sobre a mesa em minha direção.
"Alice tem uma condição cardíaca congênita rara. Precisamos operar o mais rápido possível."
Meu marido, Pedro, que estava ao meu lado, empalideceu na mesma hora. Suas mãos começaram a tremer.
"Operar? Doutor, mas… quão grave é isso? Qual a chance de sucesso?"
A voz dele falhou.
"A cirurgia é de alto risco," o médico respondeu, com o tom solene e ensaiado, "mas é a única chance dela. Sem a cirurgia, a expectativa de vida é… curta."
Pedro desabou na cadeira, o rosto entre as mãos. Eu, por outro lado, permaneci quieta. Observei a cena com uma calma que não condizia com a notícia. Peguei os exames, olhando os gráficos e os números que não significavam nada para mim, mas fingi analisar.
"E o custo, doutor? Quanto custaria essa cirurgia?" perguntei, minha voz firme.
O médico citou um valor exorbitante. Uma quantia que eu sabia que não tínhamos disponível de imediato. Pedro soltou um gemido abafado.
"Meu Deus, Sofia… de onde vamos tirar tanto dinheiro?"
Eu não respondi. Apenas dobrei os papéis e os guardei na bolsa.
Saímos do consultório em silêncio. Pedro andava como um zumbi, tropeçando nos próprios pés. Alice, nossa filha, que esperava na recepção brincando com um tablet, correu até nós.
"Mamãe, papai! O médico disse que eu vou ficar boa?"
Pedro se agachou e a abraçou com força, as lágrimas escorrendo por seu rosto.
"Vai, meu amor. O papai vai dar um jeito. Você vai ficar boa."
Eu observei a cena, meu coração não sentia nada. Nenhuma dor, nenhuma pena. Apenas um frio calculista.
No caminho para casa, Pedro não parava de falar, sua voz cheia de pânico.
"A gente tem que usar nossas economias, Sofia. Todas elas. É pela Alice. Podemos vender o carro, pedir um empréstimo…"
"Calma, Pedro," eu disse, com uma suavidade que o surpreendeu. "Vamos chegar em casa primeiro e ver o que temos. Não adianta se desesperar agora."
Ele me olhou, um pouco aliviado pela minha aparente tranquilidade.
"Você tem razão. Você sempre sabe o que fazer."
Chegamos em casa. A casa que eu comprei com meu próprio dinheiro, antes mesmo de conhecer Pedro. Minha sogra, Dona Laura, estava na sala, assistindo à novela e comendo pipoca. Ao nos ver, ela abriu um sorriso.
"E então? O médico disse que não é nada, não é? Eu falei que era só manha de criança."
Pedro explodiu.
"Manha? Mãe, a Alice precisa de uma cirurgia de coração urgente! Ela pode morrer!"
Dona Laura derrubou o balde de pipoca no chão, o rosto contorcido de espanto.
"O quê? Cirurgia? Meu Deus do céu!"
Ignorei o drama dos dois e fui direto para o nosso quarto. Abri o aplicativo do banco no meu celular. Eu sabia exatamente quanto tínhamos na nossa conta conjunta. Era o suficiente para cobrir os custos iniciais, pelo menos.
Mas a conta estava zerada.
Não um pouco baixa. Totalmente zerada.
Respirei fundo. Uma, duas, três vezes. Eu já esperava por isso.
Voltei para a sala. Pedro estava tentando consolar a mãe, que agora chorava histericamente.
"Pedro," chamei, minha voz ainda calma. "O dinheiro sumiu. A conta está vazia."
Pedro parou de repente. Ele me encarou, confuso.
"O quê? Vazia? Como assim, vazia? Tinha mais de duzentos mil reais lá!"
Ele pegou o celular dele, frenético, e abriu o aplicativo. Seus olhos se arregalaram.
"Não é possível… Sofia, o que aconteceu?"
Eu não olhei para ele. Meus olhos se fixaram na minha sogra. Dona Laura parou de chorar e começou a desviar o olhar, de repente muito interessada em um ponto qualquer na parede.
"Mãe," a voz de Pedro era um fio. "O que a senhora fez com o dinheiro?"
Dona Laura se encolheu no sofá.
"Eu… eu não fiz nada…"
"Não minta pra mim!" Pedro gritou, o desespero o tornando agressivo. "O extrato mostra dezenas de transferências nos últimos meses! Todas para a mesma pessoa! Camila Souza! Quem é Camila Souza?"
Dona Laura começou a soluçar de novo.
"É a minha consultora de bem-estar! Ela vende uns produtos maravilhosos, meu filho! Produtos quânticos, que alinham os chakras e curam tudo! Eu comprei para ajudar a família, para trazer prosperidade e saúde!"
Pedro parecia que ia ter um colapso.
"Produtos de bem-estar? A senhora gastou duzentos mil reais em produtos de bem-estar? O dinheiro da cirurgia da sua neta?"
"Mas eu não sabia que ela ia precisar de cirurgia!" ela se defendeu, a voz esganiçada. "A Camila disse que os produtos iam proteger a todos nós de qualquer mal! Ela disse que era um investimento na nossa felicidade!"
Enquanto Pedro gritava com a mãe, eu observei a cena toda. Caixas e mais caixas de produtos inúteis empilhadas nos cantos da sala. Cremes, óleos, pedras energéticas, aparelhos que piscavam luzes coloridas. Tudo com a mesma marca. "Elixir da Vida". Eu já tinha visto aquela vendedora, Camila, aqui em casa algumas vezes. Uma mulher bonita, falante, que sempre trazia presentinhos para Alice e encantava minha sogra com seu papo furado.
Pedro se virou para mim, o rosto vermelho de raiva e desespero.
"Sofia, e agora? O que a gente faz? O dinheiro sumiu! A Alice…"
Eu me aproximei dele e, para o espanto total dele e da mãe, coloquei a mão em seu ombro e disse, com a voz mais gentil que consegui fingir:
"Pedro, não brigue com a sua mãe. Ela não fez por mal."
Pedro me olhou como se eu fosse louca.
"Não fez por mal? Sofia, ela gastou todo o nosso dinheiro! Todo!"
"Eu sei, querido," continuei, no mesmo tom apaziguador. "Mas ela foi enganada. Ela só queria o nosso bem. A culpa não é dela."
Dona Laura me olhou com gratidão, as lágrimas ainda escorrendo.
"Isso mesmo! A Sofia entende! Eu só queria ajudar!"
Eu sorri para ela. Um sorriso vazio.
"Não se preocupe, Pedro. Dinheiro a gente arruma. O importante é a família ficar unida. Eu vou dar um jeito."
Pedro me abraçou, aliviado. Ele se agarrou a mim como um náufrago.
"Ah, Sofia… me desculpe. Eu perdi a cabeça. Você é tão compreensiva. Eu não sei o que faria sem você."
"Eu sei, querido. Eu sei."
Eu o afaguei nas costas, enquanto olhava por cima de seu ombro para o rosto assustado de minha sogra.
O jogo deles tinha começado.
Mas o meu também. E eu não ia perder.
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