
A Farsa Bem Montada
Capítulo 3
Os dias seguintes foram um inferno fabricado. Alice, sob instruções que eu ainda não entendia completamente, começou a piorar. Ela se queixava de dores no peito, de falta de ar. Parou de brincar e passava a maior parte do tempo deitada no sofá, pálida e apática.
Ela não podia mais ir à escola, e os remédios caríssimos que o Dr. Ricardo receitou, e que tivemos que comprar com o limite do cartão de crédito, pareciam não fazer efeito.
Uma noite, eu a encontrei chorando baixinho no quarto dela.
"Mamãe, eu vou morrer?"
A pergunta dela, dita com a inocência cruel das crianças, deveria ter me destruído. Mas meu coração já estava blindado. Eu me sentei na cama e a abracei.
"Claro que não, meu amor. A mamãe não vai deixar."
"Mas o papai disse que a gente não tem dinheiro pra cirurgia," ela sussurrou contra o meu peito. "Eu ouvi ele falando com a vovó. Ele tava chorando. Eu quero fazer a cirurgia, mamãe. Eu quero ficar boa pra brincar com a tia Camila. Ela disse que vai me levar pra Disney quando eu sarar."
Tia Camila. A vendedora. A amante.
Então era esse o nível da manipulação. Elas estavam usando a minha própria filha contra mim. Senti uma onda de raiva fria subir pela minha espinha, mas meu rosto permaneceu sereno.
"A gente vai conseguir o dinheiro, filha. Não se preocupe."
Pedro, por sua vez, estava no limite. Ele andava pela casa como um animal enjaulado, as olheiras fundas, o rosto sempre crispado de ansiedade. Toda hora ele vinha até mim.
"Sofia, você disse que ia dar um jeito! A Alice está piorando! A gente precisa fazer alguma coisa!"
"Eu estou fazendo, Pedro. Tenha paciência."
"Paciência? Como eu posso ter paciência? É a nossa filha!"
Eu o observava se descontrolar. A culpa e o medo estavam o consumindo. Bom. Era exatamente isso que eu queria.
Enquanto ele se desesperava, eu agia nas sombras. Fiz uma série de ligações. Contatei um antigo colega de faculdade que trabalhava como corretor de imóveis e coloquei à venda um apartamento que meus pais me deram de presente de formatura, um imóvel que Pedro nem sabia que estava apenas no meu nome.
Meu colega, ciente da "urgência familiar" , agiu rápido. Em menos de uma semana, ele encontrou um comprador disposto a pagar à vista. O valor era um pouco abaixo do mercado, mas era mais do que suficiente. Era uma quantia que faria os olhos de Pedro e sua amante brilharem de ganância.
Na sexta-feira, o dinheiro caiu na minha conta pessoal. Quase um milhão de reais.
Naquela noite, esperei Pedro chegar do seu "trabalho" – que eu sabia ser um encontro com Camila. Ele entrou em casa com a cara de sempre, derrotado.
"Alguma novidade?" ele perguntou, sem esperança.
Eu forcei um sorriso cansado, mas vitorioso.
"Sim. Consegui."
Ele me encarou, sem entender.
"Conseguiu o quê?"
"O dinheiro, Pedro. O dinheiro para a cirurgia da Alice."
Os olhos dele se arregalaram. Ele se aproximou de mim, incrédulo.
"Como? Sofia, como você conseguiu? É muito dinheiro!"
Eu fiz uma pausa dramática. Era hora de plantar a semente da minha história.
"Eu… pedi ajuda para a minha família."
O rosto dele se contraiu levemente. Ele sempre odiou a ideia de depender dos meus pais, que nunca aprovaram nosso casamento.
"Seus pais… eles emprestaram?"
"Não," eu menti, olhando em seus olhos. "Eles me deram. Eles venderam umas terras que tinham no interior. Disseram que a neta deles vem em primeiro lugar."
Era a mentira perfeita. Humilhante para ele, mas plausível.
Pedro ficou em silêncio por um momento, processando a informação. Então, a ganância e o alívio tomaram conta de sua expressão. Um sorriso enorme se abriu em seu rosto. Ele me agarrou e me levantou no ar, me girando pela sala.
"Sofia! Eu não acredito! Você conseguiu! Você é incrível! Meu amor, você salvou a nossa filha!"
Ele me beijou, um beijo desesperado e grato. Eu retribuí, sentindo o gosto amargo da traição em sua boca.
"Eu faria qualquer coisa pela Alice," eu disse, quando ele me colocou no chão.
"Eu sei, eu sei!" ele dizia, eufórico. "Vamos ligar para o Dr. Ricardo agora mesmo! Vamos marcar essa cirurgia! A Alice vai ficar bem! Tudo vai ficar bem agora!"
Ele correu para o telefone, transbordando uma felicidade que me dava nojo.
Eu o observei, com o meu sorriso sereno no rosto.
Não, Pedro.
Nada vai ficar bem.
A segunda parte do meu plano estava prestes a começar. E eu mal podia esperar para ver a máscara de vocês cair.
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