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Capa do romance A Família dos meus Sonhos

A Família dos meus Sonhos

O magnata grego Angolos Constantine expulsou Georgie de sua vida sem saber que ela esperava um filho seu. Anos após o fim do casamento relâmpago, ele descobre a existência da criança que julgava ser incapaz de gerar. Determinado a recuperar seu pequeno milagre, Angolos enfrentará o profundo desprezo de Georgie. Ele não medirá esforços nem custos para tomar o que acredita lhe pertencer, ignorando as mágoas do passado para ter sua família.
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Capítulo 2

- Quantos anos você tem, Georgette?

Georgie considerou brevemente a idéia de se sair com algo como "tenho idade suficiente", mas sabia que não conseguiria. Além disso, seria um vexame se ele caísse na risada.

- Vinte e um - respondeu ela.

- Você gostaria de jantar comigo hoje? - perguntou Angolos sem perder tempo.

Ela o olhou com olhos perplexos.

- Eu... Você...?

- A idéia é essa.

Georgie engoliu em seco, passou a língua nos lábios salgados e olhou para ele com desconfiança.

- Não está falando sério. - Ela tentou rir, mas não con¬seguiu.

- Por que não estaria? - Ela balançou a cabeça e corou ao sentir o tom irônico dele. - Você é a mulher mais atraen¬te desta praia.

- Sou a única com menos de 60 anos sem marido e filhos, portanto não vou me entusiasmar com seu elogio.

A quem ela queria enganar? Por toda a vida, como uma garota normal, com um enorme mundo interior escondido. Mas será que alguém se daria ao trabalho de procurar saber? Agora, totalmente do nada, aparecia este homem incrível que a via como uma mulher desejável!

Se entusiasmar...? Ela estava nas nuvens!

Tentou fazer uma expressão divertida, mas falhou miseravelmente ao ver aqueles cílios de ébano. Flame-jantes era o termo para definir aqueles olhos esfumaçados que a fitavam.

- Nem sei seu nome - protestou Georgie.

O sorriso dele era seguro, com o toque de arrogância que vinha naturalmente de alguém como ele. E por que não seria, meditou ela quatro anos depois. Angolos Constantine estava acostumado a conseguir o que queria. Um pouquinho de complacência era compreensível, considerando-se que mal ele havia alcançado a puberdade e as mulheres já se jogavam aos seus pés!

- Não é nenhuma barreira insuportável, e eu já sei seu nome, Georgette. - Ele disse seu nome de um jeito quase palpável, que a fez sentir um arrepio na nuca e uma dor indefinível no ventre.

Ela olhou para ele, sonhando. Era só um jantar.

- É só um jantar - disse ele, como se lesse seus pen-samentos.

O que ela estava fazendo, hesitando? Todas as garotas que conhecia não precisariam ser convidadas duas vezes. Viam o que queriam e corriam atrás. Georgie as admirava, mas, por dentro, ficava pensando se essas garotas não seriam tão inseguras quanto ela própria.

Ao abrir a boca, ela quis dizer sim, mas seu pai não a criara para ser impulsiva. Desde pequena, sempre a educaram para ter cuidado, e seu condicionamento acabou falando mais alto no último instante.

- Obrigada, mas não posso. - Ele era um estranho. Podia ser um maníaco, ou, até mesmo, um maníaco casado. Ela fez que não com a cabeça; estava além de seu alcance e sabia disso. - Obrigada, mas acho que não posso. Meu na¬morado não iria gostar.

Em outras circunstâncias, a expressão de frustração e confusão no rosto dele seria risível.

Ela não estava com vontade de rir; nem mesmo de sorrir. Estava em dúvida se tinha mesmo feito "a coisa certa".

Angolos arqueou as sobrancelhas negras.

- Está se recusando?

Georgie percebeu que ele estava de fato pasmo. Não estava acostumado a ouvir não. Ela fez que sim. Desta vez, ele falou com um toque de irritação.

- Como quiser.

A irritação dele a fez se sentir ligeiramente melhor. Sua natureza normal, aquela que tinha quando não estava trans¬formada em uma devassa descerebrada por causa da aura sexual que irradiava daquele homem, voltou ao comando. Por que ele achara que ela era uma presa fácil? Podia ter sido um tantinho óbvia em sua atração por ele, mas uma garota podia olhar sem querer tocar, não podia?

Ela deu um sorriso que era, em parte, de desculpas. Não estava tentando puxar briga em nome da igualdade de direi¬tos entre homens e mulheres. - mulheres melhores e mais corajosas já haviam feito isto -, tudo o que ela queria era dar o fora de lá sem ficar parecendo mais idiota ainda!

Ciente que seus atos eram acompanhados pelos olhos dele, ela pôs de modo desajeitado suas coisas na bolsa de lona.

- Jack! - chamou ela enquanto fechava o zíper da bolsa, dando um suspiro de alívio.

- Esqueceu isto aqui.

Georgie se virou e viu que ele estava segurando o pro¬tetor solar.

Ela esticou a mão.

- Obrigada. - O contato entre os dedos durou menos que o tempo de uma batida de coração, mas foi o bastante para ela sentir uma onda elétrica por todo o corpo. Os olhos ar¬regalados e assustados dela se depararam momentaneamen¬te com os dele e Georgie percebeu, sem precisar dizer ne¬nhuma palavra, que ele sabia exatamente o que ela estava sentindo.

Bem, ao menos alguém sabia!

Sem esperar para ver se seu irritante irmão a estava acompanhando, Georgie tropeçou e correu pela areia até a faixa litorânea coberta por pedrinhas, o tempo todo lutando contra o insano impulso de voltar.

Um grito infantil puxou Georgie de volta ao presente. Ela fez sons de admiração ao ver o filho orgulhosamente lhe mostrar as pedrinhas que ele empilhara no terraço.

Ela lembrava de fazer a mesma coisa quando era criança, continuidade era importante. Estava longe de ter passado por grandes provações quando criança, mas havia um vazio; perguntas que continuavam sem resposta porque sua mãe não estava lá para responder. E agora Nicky tinha um pai ausente... A história se repetia!

Ela empinou o queixo. Rejeição não era coisa hereditária, era falta de sorte, e se Georgie tinha algo a ver com isto, Nicky saberia julgar a mãe melhor do que ela mesma.

Era estranho... Ela havia mudado tanto que não dava mais para reconhecer nela a menina correndo na praia naquele dia, mas a casa da praia e a cidade não haviam mudado nada. Era como se o lugar tivesse entrado numa cápsula do tempo.

A cidade continuava audaciosamente cafona. Não havia nenhum restaurante estiloso de frutos do mar, nem grandes ondas para atrair os surfistas, mas, apesar de tudo, Georgie tinha uma queda pelo lugar. Ela esfregou as mãos cheias de areia nos bolsos traseiros da bermuda e aceitou a concha que Nicky estava lhe dando com toda a pompa.

Era a primeira vez que ela voltava lá desde aquele verão fatídico. Em parte, viera para enterrar os fantasmas do pas¬sado, porém, em termos mais práticos, não havia como ela bancar as férias com Nicky de outra maneira.

Respirou fundo, curtindo o ar salgado. As memórias tomam conta da gente sem que a gente perceba, refletiu ela. As coisas mais inesperadas podem desencadeá-las: um cheiro... uma textura. Como antes, num segundo estava tentando tirar a areia dos pés antes de calçar as sandálias, e no outro... zap.

Foi incrivelmente vivido.

De repente, ela estava com o pé no colo de Angolos, com a cabeça abaixada, os olhos azul-escuros cintilando ao sol enquanto ele tirava a areia do seu pé. O toque de seus dedos a fez sentir pequenos arrepios pelo corpo todo. Ainda de olhos fixos nos dela, ele levantou o pé dela até sua boca e chupou um dedo.

Georgie apertou a areia com a mão, contorcendo o corpo.

- Você não pode fazer isso! - gritou ela, quase engas¬gando. Tirou o pé da mão dele, levando os joelhos até o queixo.

- Por quê? - perguntou ele com uma expressão estranha nos lábios.

- Porque assim você me mata - confessou, abalada.

O jeito que ele olhava para ela, aquele brilho predatório de desejo, aquilo a derretia por dentro.

- Você não vai ter que esperar muito tempo, yineka mou. Amanhã, seremos marido e mulher.

De volta ao presente, Georgie abriu seus punhos cerrados. Estava com as palmas das mãos suadas. Ela suspirou e es¬fregou as mãos na parte de trás da bermuda. Será que um dia ela seria capaz de pensar no marido sem ter um ataque de nervos?

- Eles mal conseguiam tirar as mãos um do outro.

Os detalhes lascivos... Disto, ela realmente não precisa¬va mesmo.

- Não sou puritana - prosseguiu a mulher mais velha -, mas francamente... ela não conseguia tirar as mãos dele...

Por mais mortificante que fosse o comentário da avó, Georgie não era dada a ficar se iludindo, portanto tinha de reconhecer que o que ela disse era verdadeiro.

Sempre com o leve desdém pelos relacionamentos amo¬rosos das meninas de sua geração, que ela considerava confusos e muitas vezes dolorosos, Georgie nunca esteve preparada para as emoções primitivas que Angolos desper¬tava nela. Ela ficou totalmente mesmerizada por ele.

- Meu filho e eu discordamos na maioria das coisas, mas, naquela ocasião, nós pensamos a mesma coisa. Robert dis¬se a ela: "Durma com esse homem, se quiser, até more com ele, mas casar... É insanidade".

- Mas uma insanidade pela qual todas nós passamos, Ann - foi a lúgubre resposta.

Georgie ficou imaginando as duas senhoras vivendo a luxúria cega e insana que ela sentira por Angolos.

- A menina colheu as conseqüências de sua estupidez.

O desdém na voz da avó fez o rosto bronzeado de Geor¬gie ficar mais vermelho ainda, de vergonha. Ela havia co¬metido um grande erro e estava pronta para reconhecer isto, mas, às vezes, pensava que, se dependesse de sua família, teria de ficar se culpando por aquilo até os oitenta anos!

- Ela era muito nova.

- Nova e achava que sabia de tudo.

- Os jovens são assim mesmo. Ele... o homem da revis¬ta... parecia mais velho?

- Trinta e dois ou algo assim, acho, na época. Você tem que entender que Georgie era muito ingênua para a idade dela, enquanto ele esbanjava experiência. Uma tentação em carne em osso, claro. Não me admira que ela tenha se apai¬xonado por ele.

Aquele reconhecimento impressionou Georgie. A avó jamais demonstrara solidariedade na frente dela. -Você acha que ele se aproveitou...?

- Bem, o que você acha? Um homem com um casamen¬to fracassado nas costas... E grego.

Pelo tom de sua avó, era difícil dizer qual erro ela consi¬derava mais difícil de perdoar: ser separado ou ser grego.

- Na hora em que bati os olhos nele, vi que não era de confiança. Eu disse a ela, nós todos dissemos a ela, e ela ouviu? Nada, ela o amava.

- Mesmo assim, você devia ter orgulho do modo como ela reconstruiu a vida e do menino lindo que ela tem.

- Um menino que nunca viu o pai,

- Nunca? Tem certeza...?

- Recusa-se categoricamente. Angolos Constantine dei¬xou claro que não quer nada com a criança. Nem ele, nem ninguém de sua família maravilhosa, jamais se aproximou... Se quer saber, eu acho uma bênção que fiquem longe.

Era tolice, porém, mesmo depois deste tempo todo, a verdade ainda doía. O nó de dor e raiva no peito de Georgie apertava ainda mais quando ela olhava para a pequena figu¬ra que cruzava o gramado em direção a ela.

Seu rostinho adorável era uma máscara de concentração ao carregar um pequeno balde cheio de pedrinhas. O olhar carinhoso dela o seguiu enquanto ele depositara cuidadosa¬mente o baldinho no chão, ajoelhava-se com as pernas gordinhas e começava a cavar a terra macia.

O amor que sentia pelo filho, amor que sentira desde o primeiro momento em que o segurou nos braços, pulsou em seu peito. Georgie imaginou que aquele momento mágico pudesse ser compartilhado com Angolos. , Como estava errada!

Ela deu à luz sozinha. Não teve marido para segurar sua mão nem ajudá-la a passar por aquela dor, não havia ninguém para ela compartilhar a magia daquele momento.

Angolos já não a amava mais... Ou será que, na verdade, jamais amara?

Mas por que a dúvida agora, Georgie? Afinal, homem nenhum podia tratar alguém por quem já sentira alguma coisa do jeito que ele a tratara.

Ela aceitou aquilo.

Claro que aceitou!

Mas como Angolos era capaz de rejeitar o filho que fizeram juntos? Nicky era perfeito... Como alguém poderia não querê-lo? Como um pai era capaz de não amar o próprio filho?

- Ainda bem que a família dela estava aqui para segurar as pontas.

A observação da avó foi perfeitamente audível, porém Georgie teve de se esforçar para ouvir a resposta da outra mulher. Este era o problema de ficar escutando atrás da porta: depois que se começara, era difícil parar.

- Que triste! Como um homem pode não querer ver o filho?

- Eu pergunto o mesmo. Só sei que ele não deu um cen¬tavo a ela e Georgie é cabeça-dura demais para lutar pelo que é dela por direito. Eu disse que ela devia entrar com o divórcio e exigir cada centavo que pudesse. Não houve acordo pré-nupcial. Meu medo é que Georgie tenha puxado à mãe, que não tem um pingo de senso prático.

Georgie ficou pensando no que a avó acharia se soubes¬se que Angolos comparecia com dinheiro todos os meses, mas que o dinheiro permanecia intocado.

A esta altura, já tinha bastante dinheiro na conta.

- Mamãe... - A vozinha cansada fez Georgie perceber o perigo de Nicky ouvir aquela conversa.

- Estou com sede. - A figura diminuta, com baldinho e pá na mão, puxou a perna da bermuda dela.

Georgie se abaixou para ficar na altura do menino, sor¬rindo, e afastou uma mecha cacheada e brilhante do cabelo, que lhe caía sobre o rosto. Jamais poderia esquecer do rosto de Angolos, pois o via em miniatura todos os dias.

- Também estou, querido - disse ela, falando alto para anunciar sua presença às duas senhoras. - Vamos ver se a vovó também quer uma limonada?

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