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Capa do romance A Família dos meus Sonhos

A Família dos meus Sonhos

O magnata grego Angolos Constantine expulsou Georgie de sua vida sem saber que ela esperava um filho seu. Anos após o fim do casamento relâmpago, ele descobre a existência da criança que julgava ser incapaz de gerar. Determinado a recuperar seu pequeno milagre, Angolos enfrentará o profundo desprezo de Georgie. Ele não medirá esforços nem custos para tomar o que acredita lhe pertencer, ignorando as mágoas do passado para ter sua família.
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Capítulo 3

A realeza compareceu a um espetáculo de caridade e a mídia estava toda lá para cobrir o evento. No tapete vermelho, a estrela de uma novela estava ocupada em negar para as câmeras de tevê os boatos de que iria se casar com seu par na trama.

A entrada estava amontoada de outras caras, todas exibindo seus melhores sorrisos e roupas de grife. Apesar de a maioria dos homens presentes vestir basicamente os mesmos ternos escuros e formais, Paul não teve dificuldade em achar a pessoa que procurava.

Angolos Constantine se destacava na multidão. Não só por causa da altura e do visual. Ele tinha aquela qualidade rara chamada presença.

- Angolos...? - chamou ele, aliviado.

A figura alta, que tinha por companhia uma morena ele¬gante repleta de jóias, virou-se ao ouvir seu nome. Um sor¬riso se espalhou por seu rosto ao identificar de onde vinha.

- Paul! - exclamou ele, tirando o braço da acompanhan¬te e se aproximando com a mão estendida. - Não sabia que era fã de ópera.

- Não sou... e, mesmo que fosse, não seria o motivo de eu estar aqui - admitiu com franqueza. - Só vim até aqui para dizer a eles que sou seu médico particular.

O entalhe do forte nariz aristocrático de Angolos ficou mais pronunciado.

- Muito bem pensado da sua parte. - Ele virou a cabeça levemente para os lados, procurando alguém. - E onde está a adorável Miranda?

Paul Radcliff balançou a cabeça e olhou para o rosto do amigo que conhecia desde os tempos de universidade.

- Mirrie não veio.

- Pensei que vocês viessem juntos.

- A pressão dela estava um pouco alta... Nada sério. Angolos bateu com a mão na testa.

- Esqueci! - admitiu com um sorriso de autocensura! - Quando chega meu afilhado?

- Já chegou na semana passada.

Angolos arqueou as sobrancelhas.

- Agora a coisa ficou séria.

- Você está com ótima aparência, Angolos.

Ele sentiu que a frase soou incompleta. Ninguém que olhasse para sua figura esguia e saudável diria agora que poucos anos antes seu futuro era incerto. Paul era uma das poucas pessoas que sabiam disso, e ele mesmo mal conseguia acreditar!

- Sempre o médico, Paul - provocou ele, arqueando uma sobrancelha.

- E amigo, espero. - Foi por causa desta amizade que, após muito considerar, ele acabou vindo. Por isto e por causa da insistência da esposa.

- O homem tem direito de saber, Paul - insistiu ela. Ele estava inclinado a deixar a coisa como estava, mas esposas em estado avançado de gravidez precisam de trata¬mento especial. Miranda insistiu que ele tinha de falar com Angolos sem demora e que aquele era o tipo de coisa que não se fala por telefone.

Então ali estava ele, desejando não estar.

As feições duras do moreno grego se suavizaram com um sorriso devastador.

- E amigo - concordou Paul. - Então, qual o problema, Paul?

- Nenhum problema, exatamente - respondeu com desconforto.

Angolos não se deu ao trabalho de disfarçar que não acreditava naquilo.

- Não venha com essa. Tem de haver algo muito sério para você ter deixado Miranda sozinha numa hora dessas.

Aquele era Angolos, racional até o último fio de cabelo, a não ser quando se tratava de sua esposa. No que dizia respeito a Georgie, ele ficava bastante... grego... e imprevi¬sível, refletiu o inglês.

- Ela... Mirrie foi quem me fez vir - admitiu Paul. Angolos balançou a cabeça.

- Que bom que ela fez isso. Eu ficaria ofendido se você não viesse me procurar quando está com problemas. Espere um segundo e já estarei com você.

- Meu... problema...? Mas eu não tenho... - Paul parou e observou com uma expressão cômica de incredulidade enquanto o amigo trocava palavras com a morena, que não pareceu nada feliz com o que escutou. Segundos depois, Angolos estava ao seu lado de novo.

- Vamos sair daqui - sugeriu Angolos. - Tem um bar ali na esquina. Podemos conversar.

A primeira coisa que Paul pensou em dizer quando pe¬diram as bebidas foi:

- Deixe-me esclarecer uma coisa. Não estou aqui para lhe pedir dinheiro emprestado, Angolos.

- Eu sei muito bem que nem todos os problemas se re¬solvem com dinheiro, Paul. - Seu olhar grave deixou o outro homem desconfortável. - Mas, se o seu problema puder ser resolvido com dinheiro, eu vou resolvê-lo, queira você ou não. - Então ele sorriu calorosamente. - Meu ami¬go, se não fosse por você, eu nem estaria aqui.

- Besteira!

O evidente desconforto de Paul fez Angolos sorrir com dentes muito brancos, contrastando com o rosto moreno.

- Sua modéstia britânica chega a ser engraçada, Paul -observou ele secamente. Apoiou os cotovelos na mesa e se aproximou do outro com expressão atenta. - Então, qual é o problema?

- Eu não diria que é um problema... É só que o doutor Monroe se aposentou e seus pacientes foram repassados a nós... - Paul respirou fundo ao ver a testa franzida de An¬golos e prosseguiu rapidamente. - Ontem, meu sócio foi chamado para uma emergência e eu vi o nome dos novos pacientes. - Engoliu em seco. - Georgie... sua Georgie está entre eles.

A expressão de Angolos permaneceu a mesma, mas seu jeito de pegar a bebida e levar aos lábios pareceu estranho. Quando pôs a bebida na mesa de novo, ele olhou nos olhos do outro.

- Ela está doente?

- Não, não!

Os ombros de Angolos relaxaram quase imperceptivelmente.

Angolos reconheceu por dentro que aquilo era algo per¬verso, mas considerando que três anos e meio atrás ele havia amaldiçoado a esposa infiel com todas as suas forças, a possibilidade de ela estar doente agora talvez tivesse des¬pertado algum instinto primitivo de vingança.

- Na verdade, ela pareceu estar muito bem... um pouquinho magra, talvez - comentou Paul. - Ela sempre teve bons ossos.

- Não tenho o menor interesse em saber da parte estética dela. - O maxilar de Angolos enrijeceu enquanto o outro ho¬mem olhou para ele com ceticismo. - E não me lembro de você me dizer que Georgie tinha bons ossos quando veio me falar que casar com ela seria o maior erro de minha vida...

- Ah, bem, eu temia que você estivesse...

- Maluco? Pois no final você estava certo mesmo. - Ele se aproximou mais um pouco. - Ela pediu para você inter¬ceder? Pensei que você tivesse mais juízo e não fosse se deixar levar por...

O doutor pareceu indignado.

- Na verdade, parceiro, tenho a séria impressão que você é a última pessoa com quem ela gostaria de entrar em con¬tato - revelou com toda a franqueza.

- Realmente!

- Georgie ficou bastante chocada ao me ver. Na verdade - admitiu ele -, achei que ela fosse sair correndo do consul¬tório. E, quando eu toquei no seu nome, ela pareceu... - Ele parou. Não havia palavras para descrever a expressão nos olhos daquela jovem mãe. - Não pareceu muito contente - completou Paul.

Angolos se recostou à cadeira, abriu um botão da jaque¬ta e cruzou os braços.

- Mesmo assim, aqui está você.

- Sim. E é duro. Mirrie é bem melhor neste tipo de coi¬sa do que eu.

Neste ponto, se a conversa fosse com outra pessoa, An¬golos já teria mandado a pessoa passear, mas, como era Paul, ele controlou a impaciência.

- A questão, Angolos, é que ela trouxe o garoto. - A expressão de Angolos não estava nada encorajadora, mas Paul persistiu. - Você já viu...?

- Não, nunca vi o garoto - respondeu Angolos glacialmente.

- É um menino ótimo, e nada mimado. Georgie tem feito um bom trabalho, mas, pelo que percebi, ela está sem dinheiro.

Os lábios de Angolos se retorceram em uma expressão de revolta.

- Então é isso, ela está bancando a pobrezinha. Eu de¬posito uma quantia mais do que suficiente todo mês para as necessidades da criança. Se Georgette ficou gananciosa e se por um acaso tem esperança de conseguir mais dinheiro de mim, pode esquecer. Ela já me fez de bobo uma vez...

- Ela sinceramente não tocou no assunto "dinheiro". Angolos, se ela quisesse arrancar dinheiro de você... Você viu quanto aquele roqueiro que negou a paternidade de uma criança teve que pagar à mãe depois do exame de DNA?

- Pois o DNA a impediria de continuar fazendo a crian¬ça passar por minha. Se ela está tão desesperada, devia vender sua história para algum tablóide sensacionalista. -Suas narinas inflaram e ele tamborilou os dedos na mesa. - Seria bem o estilo dela.

- Será que ela já não teria feito isso, se quisesse? E, se quisesse dinheiro, posso imaginar que o divórcio teria um acordo financeiro bem vantajoso para ela.

- Só por cima de meu cadáver.

- Sinto que você diga isto. De verdade.

- Esperava que não chegasse a esse ponto - replicou Angolos. - Por acaso estamos dando voltas?

- Sim, bem, na verdade é... a questão do DNA...

- Que questão do DNA?

- Tem certeza que o teste daria negativo!

- Certeza...? - Angolos olhou para o amigo com incre¬dulidade. - Logo você me faz uma pergunta destas? A qui¬mioterapia salvou minha vida, mas me deixou estéril. Minha única chance de ser pai está armazenada em algum lugar a não sei quantos graus abaixo de zero.

- Falta de sorte - disse Paul, bastante consciente da iminente paternidade do amigo.

- Falta de sorte? - Angolos deu um risinho de canto de boca. - Sim, suponho que tenha sido falta de sorte. Contudo, considerando que, sem o tratamento, e mais importante, sem seu diagnóstico precoce, eu não estaria aqui, posso me con¬siderar sortudo, sim.

- Mas não é uma situação fácil.

- Intelectualmente, na verdade. Não tenho problema com a situação, mas, de alguma forma, não importa quantas vezes eu diga a mim mesmo que a masculinidade de um homem não está na contagem de espermatozóides, ainda sinto... - Deu um risinho sardônico e olhou nos olhos de Paul. - Quem sabe Georgette não estava certa e eu não passo de um machista irrecuperável...

- Há dúvidas quanto a isso?

A resposta fez Angolos dar um sorriso amargo.

- Por isso você nunca contou a ela sobre a quimioterapia e o câncer? Estava com medo que ela... - Paul deu um sor¬riso constrangido. - Desculpe, eu não devia...

- Se eu estava com medo que ela me achasse menos homem, é isso? O que você acha, Paul?

- Acho que, se eu soubesse o que se passava em sua mente, eu seria o único - respondeu o amigo com franqueza. - Sabe, quando se trata de responder a perguntas, você é mais escorregadio que um político. Se quer minha opinião, você estava errado. Sei que Georgie era jovem, mas ela sempre me pareceu bastante madura...

- Madura o bastante para me trair e tentar fazer o produ¬to de suas aventuras amorosas se passar por meu filho.

Paul fechou a cara.

- Bem, quanto a isto, Angolos..

- Vai querer discutir a infidelidade de minha esposa?

- Claro que não.

- Se descobriu quem era o amante dela... - No final, ela acabou se recusando a reconhecer sua culpa e a dizer o nome do amante. Apesar de Angolos saber quem era. - Saiba que não estou mais interessado.

- Quem sabe não havia amante nenhum?

As sobrancelhas escuras de Angolos se contorceram quando ele deu um sorriso revoltado.

- Amante nenhum...? O que está querendo dizer? Que ela ficou grávida do Divino Espírito Santo?

Paul levantou a mão.

- Angolos, me escute. Sei que este tipo de quimioterapia à qual você se submeteu normalmente causa infertilidade, mas há exceções... Você não fez nenhum teste...

- Não, como também não passei pela orientação psico¬lógica, que, pelo jeito, queria me fazer ficar contente por ser menos homem.

- Sim, você na época deixou bem claro o que achava da orientação psicológica.

- Não se pode alterar o que acontece, apenas aceitar.

- Terrivelmente fatalista.

- Nós, gregos, somos fatalistas.

- Você é a pessoa menos fatalista que já conhecia na vida. E, às vezes, conversar ajuda... Mas não vim aqui para dis¬cutir os benefícios de conversar para desabafar.

- Você vai me dizer o que tem para dizer ou não vai?

- O garoto é seu.

O rosto de Angolos foi tomado por um espasmo de raiva. Paul observou, alarmado, o amigo respirar fundo várias vezes e dizer, com voz bastante controlada:

- Até você, Paul?

- Você vai querer acabar comigo, eu sei, mas tenho de dizer mesmo assim. O garoto, Angolos, é você sem tirar nem pôr. E não estou dizendo que ele é parecido, ele é sua répli¬ca em miniatura. Não há qualquer sombra de dúvida: Nicky é seu filho.

- Isso é alguma piada, Paul?

- Tenho um senso de humor negro, Angolos, mas não sou cruel. Se não acredita em mim, sugiro que confira por si mesmo.

- Não vou embarcar nesta fantasia.

- Eles estão na casa de praia.

- Não tenho intenção de ir a lugar nenhum atrás dessa mulher.

- Bem, isto é contigo, mas se eu fosse você...

Os olhos de Angolos cintilaram.

- Mas não é. Você tem uma esposa à sua espera em casa, você vai segurar seu filho nos braços logo... - Ele viu o choque no rosto do amigo, e pior ainda, a compaixão que apareceu em sua expressão. - A verdade, Paul - acrescentou Angolos em tom mais moderado -, é que eu o invejo. Nunca menospreze o que você tem.

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