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Capa do romance A Fadista Renasce: A Vingança de Helena Sousa

A Fadista Renasce: A Vingança de Helena Sousa

Em Alfama, Helena planeava o seu noivado com Jacob após dez anos juntos, mas descobre que ele é casado com Nancy há três anos. Abalada pela traição e por uma doença degenerativa secreta, ela percebe que era apenas uma substituta para a esposa. Humilhada por usar restos de outra e confrontada com a gravidez da rival, Helena colapsa. Decidida a vingar-se do homem que a destruiu, ela abandona o passado de Liza Murray para renascer como a implacável Helena Sousa.
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Capítulo 2

O ar da casa em Alfama cheirava a cera de limão e a flores frescas. Eu tinha passado a tarde toda a limpar e a decorar.

Balões dourados e brancos flutuavam junto ao teto, e uma faixa com as palavras "Queres casar comigo?" estava cuidadosamente escondida atrás de uma cortina, pronta para ser revelada.

Esta noite, eu ia pedir em casamento o homem com quem partilhava a vida há dez anos, Jacob Gordon.

Ele era tudo para mim. A minha única família.

Enquanto arrumava a sua secretária, à procura de um isqueiro para as velas, a minha mão esbarrou numa caixa de madeira escondida no fundo de uma gaveta. Não a reconheci.

A curiosidade levou a melhor. Abri-a.

Lá dentro, dobrada ao meio, estava uma certidão de casamento.

O meu coração parou por um segundo. Talvez fosse uma brincadeira, uma surpresa para mim.

Desdobrei o papel com os dedos a tremer.

O nome do noivo era Jacob Gordon.

Mas o nome da noiva não era o meu. Era Nancy Contreras.

A data do casamento era de há três anos.

Senti o chão a fugir debaixo dos meus pés. A minha visão ficou turva. Tive de me agarrar à beira da secretária para não cair.

Três anos. Ele estava casado com outra mulher há três anos, enquanto vivia comigo, enquanto me prometia um futuro.

O meu telemóvel vibrou na bancada da cozinha, o som estridente a cortar o silêncio pesado. Ignorei-o.

A minha atenção estava presa na fotografia anexada à certidão. A mulher, Nancy, sorria para a câmara. E o meu sangue gelou.

Ela parecia-se comigo. Assustadoramente parecida. O mesmo cabelo escuro, os mesmos olhos. E, o mais chocante de tudo, o mesmo sinal distintivo que eu tenho, logo acima do lábio.

Era como olhar para uma versão distorcida de mim mesma num espelho.

O telemóvel tocou novamente, insistente. Com a mão a tremer, atendi, esperando que fosse Jacob, que houvesse uma explicação para este pesadelo.

Mas não era ele.

"Boa tarde, falo com a Sr.ª Liza Murray?"

Uma voz profissional, calma.

"Sim, sou eu." A minha própria voz soou-me estranha, oca.

"Ligo do Centro de Investigação Médica de Coimbra. Tenho o prazer de informar que a sua candidatura foi aceite. A sua vaga no programa de tratamento experimental está confirmada."

A doença. A maldita doença degenerativa que me estava a roubar a dança, a vida, e que eu tinha escondido de Jacob para não o preocupar. A minha última esperança.

A ironia era tão cruel que me fez soltar uma gargalhada seca e sem alegria.

"Senhora Murray? Está tudo bem?"

"Sim," consegui dizer, engolindo em seco. "Obrigada. Obrigada por me ligarem."

Desliguei a chamada e deixei o telemóvel cair.

Olhei para a certidão de casamento, depois para a faixa escondida. O meu pedido de casamento. A nossa casa. A nossa vida.

Tudo uma mentira.

Com uma fúria fria que nunca tinha sentido, agarrei na certidão e rasguei-a em pedaços minúsculos. Um por um, fui rebentando os balões com as unhas. Arranquei as flores das jarras e atirei-as para o chão.

A minha casa, o meu santuário, transformou-se num campo de batalha da minha desilusão.

Eu precisava de ouvir da boca dele. Precisava de confirmação.

Peguei nas chaves do carro e saí, deixando a porta aberta para a ruína da festa que nunca iria acontecer.

Conduzi até à adega dele no Porto, com a mente vazia, o corpo a funcionar em piloto automático.

Quando cheguei, a porta do escritório dele estava entreaberta. Ouvi vozes lá dentro. A voz de Jacob e a de um amigo.

Parei, com a mão na maçaneta, o coração a bater descontroladamente.

"Mas e a Liza? Ela não vai descobrir sobre a Nancy?" perguntou o amigo.

A resposta de Jacob foi um riso desdenhoso, um som que me cortou mais fundo do que qualquer faca.

"A Liza? Ela é a minha fadista de estimação. Uma órfã que tirei da sarjeta. Ela não tem para onde ir, não tem ninguém. Acha mesmo que alguém no meu círculo a levaria a sério? Ela devia estar grata por eu lhe dar um teto."

A minha fadista de estimação.

As minhas pernas cederam. Encostei-me à parede fria do corredor, a lutar para respirar.

"Mas tu pareces gostar dela," insistiu o amigo.

"Gostar? Ela é um escape. A Nancy é estéril, a vida com ela é um negócio. A Liza é... diversão. Um corpo quente para me manter entretido. Mas o jogo está a acabar. Em breve, já não vou precisar dela."

O jogo. A nossa década juntos era um jogo.

Não entrei. Não o confrontei. Voltei para o carro, em silêncio, e conduzi de volta para Lisboa.

Quando entrei em casa, o caos que eu tinha criado pareceu-me calmo em comparação com a tempestade dentro de mim.

Sentei-me no chão, no meio dos balões rebentados e das flores esmagadas.

Horas mais tarde, Jacob chegou. Ele entrou e parou, a olhar para a desarrumação.

"Liza? Meu amor, o que aconteceu aqui?"

A sua voz estava carregada de uma preocupação fingida que me revirou o estômago. Ele aproximou-se, o cheiro do seu perfume caro a encher-me as narinas.

"Estás bem? Pareces pálida."

Ele estendeu a mão para tocar no meu rosto, e eu recuei instintivamente, como se o seu toque fosse veneno.

"Não me toques."

A minha voz foi um sussurro gelado.

Ele franziu a testa, confuso. "O que se passa? Tivemos uma discussão?"

Eu não respondi. Apenas o encarei, vendo pela primeira vez o monstro que se escondia atrás daquele rosto bonito.

"Estás doente? É por isso que estás assim? Já te disse que temos de pensar em ter um filho. Um herdeiro para o negócio. A tua saúde é importante para isso."

Um herdeiro. Era só isso que eu era para ele. Uma incubadora.

A bile subiu-me pela garganta. Levantei-me de repente e corri para a casa de banho, vomitando violentamente na sanita. O meu corpo tremia incontrolavelmente.

Quando olhei para a água, vi fios de sangue. A doença, sempre presente, a lembrar-me da minha fragilidade.

Jacob apareceu à porta, a sua expressão uma mistura de irritação e preocupação calculada.

"O que foi isso? Estás grávida?"

A esperança na sua voz era nojenta.

"Não," disse eu, limpando a boca. "É só... cansaço."

Ele não pareceu convencido. Mais tarde, enquanto eu estava deitada na cama, a fingir que dormia, ouvi-o ao telefone no corredor. A sua voz era baixa, íntima.

"Sim, meu amor... Não te preocupes com ela... A minha pequena diversão está a chegar ao fim... Sim, estivemos no nosso sítio especial na semana passada..."

O nosso sítio especial. Um pequeno miradouro com vista para o Tejo, onde ele me levou no nosso primeiro aniversário. Onde ele me disse que me amava pela primeira vez.

Ele estava a partilhar as nossas memórias com ela. A reescrever a nossa história, tornando-a deles.

Fechei os olhos, mas as lágrimas escorreram na mesma, quentes e silenciosas, pelo meu rosto.

O amor da minha vida não existia. A minha vida era uma fraude.

E eu estava a morrer.

Naquele momento, uma decisão formou-se na minha mente, fria e clara como o gelo.

Eu ia aceitar a oferta de Coimbra.

Ia desaparecer. Ia forjar a minha morte.

E ele, Jacob Gordon, nunca mais me veria.

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