
A Facada e o Ventre: A Luta de Uma Mãe
Capítulo 2
Eu estava na esquadra da polícia, a dar o meu depoimento.
O meu marido, Pedro, estava sentado do outro lado da sala, a consolar a sua irmã mais nova, Sofia.
A perna dela estava enfaixada e ela chorava nos braços dele.
"Não te preocupes, Sofia. Eu estou aqui. Ninguém te vai magoar."
A sua voz era suave e cheia de preocupação.
Um polícia aproximou-se de mim com um copo de água morna.
"Senhora Alves, está tudo bem? Quer fazer uma pausa?"
Eu abanei a cabeça.
"Não, estou bem. Posso continuar."
O meu olhar fixou-se em Pedro. Ele nem sequer olhou para mim uma única vez desde que chegámos.
O seu foco estava inteiramente em Sofia, que tinha acabado de tentar esfaquear-me com uma faca de fruta.
Se eu não tivesse reagido rápido o suficiente, a faca estaria agora no meu estômago.
O meu estômago, que carregava o nosso filho de sete meses.
O polícia olhou para o meu ventre proeminente e depois para o Pedro. Havia uma pitada de confusão no seu rosto.
"O seu marido..."
"Ele está a consolar a irmã dele," completei a frase por ele, com a voz vazia de emoção. "Ela está muito assustada."
O polícia franziu o sobrolho, mas não disse mais nada.
Eu sabia o que ele estava a pensar. A vítima era eu. A mulher grávida que quase foi esfaqueada era eu.
Mas aos olhos do meu marido, a única que precisava de conforto era a sua irmã agressora.
Depois de terminar o meu depoimento, levantei-me lentamente. As minhas pernas tremiam um pouco.
Pedro finalmente olhou para mim. A sua expressão era fria, acusadora.
"Laura, já chega. A Sofia já está traumatizada o suficiente. Ela não teve a intenção."
A sua voz não era alta, mas cada palavra era pesada.
"Ela não teve a intenção?" A minha voz saiu rouca. "Ela veio para cima de mim com uma faca, Pedro."
"Ela estava apenas a descascar uma maçã! Tu assustaste-a! Sabes como ela é sensível desde que os nossos pais morreram. Tens de ser mais compreensiva."
Eu olhei para ele, incrédula.
A sensibilidade dela dava-lhe o direito de me atacar?
A minha sogra, a mãe do Pedro, entrou apressadamente na esquadra. Ignorou-me completamente e correu para a Sofia.
"Oh, minha querida menina! Estás bem? Aquele monstro magoou-te?"
Ela abraçou a Sofia com força, lançando-me um olhar cheio de ódio.
Monstro. Era isso que eu era para eles.
Senti uma súbita onda de exaustão. Uma exaustão tão profunda que parecia sugar toda a força do meu corpo.
Peguei no meu telemóvel e liguei ao meu advogado.
"Miguel, sou eu, a Laura. Quero o divórcio."
O silêncio do outro lado da linha foi breve.
"Tens a certeza, Laura? Por causa disto?"
"Sim," respondi, a minha voz firme pela primeira vez naquela noite. "Tenho a certeza absoluta."
Desliguei antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.
O meu olhar encontrou o do Pedro. A sua raiva era palpável, mesmo à distância.
Ele levantou-se e caminhou na minha direção, o seu corpo tenso.
"O que é que acabaste de fazer?" sibilou ele, baixo o suficiente para que apenas eu ouvisse.
"Estás a divorciar-te de mim? Agora? Quando a minha irmã mais precisa de nós?"
"A tua irmã precisa de ajuda profissional, Pedro. Não de mim como saco de boxe."
"Não sejas dramática! Estás grávida do meu filho! Vais deitar fora a nossa família por causa de um pequeno desentendimento?"
Um pequeno desentendimento.
A tentativa de homicídio era agora um pequeno desentendimento.
"O nosso filho merece uma mãe que não tenha de temer pela sua vida em sua própria casa," disse eu, calmamente.
Ele agarrou o meu braço com força.
"Não te atrevas a usar o nosso filho contra mim. Tu não vais a lado nenhum. Vais para casa, vais pedir desculpa à Sofia e vamos esquecer que isto aconteceu."
A sua mãe aproximou-se, o seu rosto uma máscara de desdém.
"Ouve o teu marido. Para de ser uma criança mimada. A família é o mais importante. A Sofia é frágil."
Eu olhei para a mão dele no meu braço e depois para o seu rosto.
Não havia amor ali. Nem preocupação. Apenas controlo e raiva.
"Larga-me, Pedro."
"Não."
Um polícia notou a altercação e aproximou-se.
"Está tudo bem aqui?"
Pedro largou o meu braço imediatamente, forçando um sorriso.
"Sim, oficial. Apenas uma discussão de casal. A minha esposa está um pouco emotiva por causa da gravidez."
Ele tentou colocar o braço à volta dos meus ombros, mas eu afastei-me.
"Não me toques," disse eu, a minha voz a tremer ligeiramente. "Eu quero ir para casa. A minha casa. Sozinha."
Virei-me e saí da esquadra, sem olhar para trás.
Eu sabia que ele não me seguiria.
A sua prioridade estava lá dentro, a consolar a sua "frágil" irmã.
A única coisa que nos ligava era o bebé na minha barriga. E eu percebi, com uma clareza dolorosa, que isso não era suficiente.
Nunca tinha sido.
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