
A Facada e o Ventre: A Luta de Uma Mãe
Capítulo 3
O ar frio da noite atingiu o meu rosto quando saí da esquadra. Chamei um táxi.
O motorista olhou para mim pelo espelho retrovisor, o seu rosto mostrava preocupação.
"Para o hospital, senhora?"
Eu hesitei por um momento. O meu coração batia descontroladamente.
"Não. Para a Rua das Flores, número 12, por favor."
Era a casa da minha avó. O único lugar onde eu me sentia verdadeiramente segura.
Durante a viagem, o meu telemóvel não parou de vibrar. Eram chamadas do Pedro.
Deixei-o tocar até que o silêncio regressou.
Depois, uma mensagem de texto apareceu no ecrã.
"Laura, onde estás? Volta para casa. Precisamos de conversar. Não tomes decisões precipitadas."
Apaguei a mensagem sem responder.
Conversar? Ele queria dizer, ele falava e eu ouvia. Ele mandava e eu obedecia.
Eu tinha feito isso durante três anos.
Chega.
Quando o táxi parou em frente à pequena casa da minha avó, senti um alívio imenso.
Paguei ao motorista e caminhei lentamente pelo caminho de pedra. A luz da sala estava acesa.
A minha avó abriu a porta antes mesmo de eu bater.
Ela olhou para o meu rosto, depois para a minha barriga, e os seus olhos encheram-se de compreensão.
"Entra, minha querida."
Ela não fez perguntas. Apenas me abraçou, e nesse abraço quente e familiar, eu finalmente desabei.
As lágrimas que eu tinha segurado durante horas finalmente caíram, silenciosas e quentes.
"Oh, avó," solucei eu.
"Shhh, está tudo bem. Estás segura agora. O bebé está seguro."
Ela guiou-me até ao sofá e trouxe-me um chá de camomila com mel.
Sentei-me ali, a beber o chá, enquanto a minha avó se sentava ao meu lado, a segurar a minha mão.
O silêncio na sua casa era reconfortante. Tão diferente do silêncio tenso e opressivo da minha própria casa.
O meu telemóvel vibrou novamente. Era a minha sogra, Helena.
Recusei a chamada.
Segundos depois, uma mensagem de voz. A curiosidade venceu-me.
"Laura, não sei que jogo estás a jogar, mas é melhor parares. O teu dever é estar ao lado do teu marido e da sua família. A Sofia está em choque por tua causa! És uma egoísta. Se pensas que vais ficar com um cêntimo do dinheiro do meu filho neste divórcio, estás muito enganada."
A voz dela era venenosa.
Apaguei a mensagem. Senti uma náusea.
A minha avó olhou para mim.
"Eles?"
Eu assenti, incapaz de falar.
"Eles nunca gostaram de ti, Laura. Eles só gostavam da ideia de um herdeiro."
As suas palavras eram duras, mas verdadeiras.
Eu sempre soube disso, no fundo. Mas tinha tentado tanto. Tentei ser a nora perfeita, a esposa perfeita.
Tentei ignorar os comentários maldosos da Sofia, as críticas constantes da Helena.
Tentei acreditar que o amor do Pedro por mim era real.
Mas o incidente de hoje tinha quebrado a ilusão.
Quando ele me olhou com aqueles olhos frios na esquadra, defendendo a mulher que tentou magoar-me a mim e ao nosso filho por nascer, eu vi a verdade.
Eu não era a sua prioridade. Eu não era a sua parceira.
Eu era um acessório. Um útero.
O meu bebé mexeu-se dentro de mim, um pequeno pontapé suave, como se para me lembrar que eu não estava sozinha.
Coloquei a mão na minha barriga.
"Vou proteger-te," sussurrei. "Prometo."
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