
A ex esposa da máfia
Capítulo 2
Beatrice Costello Sartori
Qual o intuito de começar tudo isso, se não, aliviar a mente de todos os grilhões que prendiam os loucos pensamentos? Poder encontrar o perdão de Giacomo, perdoar a mim mesma por algum dia ter acreditado que poderia ser realmente feliz.
Um verdadeiro jogo de xadrez formado dentro da mente pronto para agir a cada escolha e em cada curva possível, sem medidas nem volta para o buraco apenas a represa se arrebentando deixando toda a podridão tomar conta, uma da qual jamais poderia ter apagado mesmo que tenha tentado.
Um jogo perigoso, visto que o xadrez humano gera mortes. E é incrível o quanto isso traz um gosto doce a minha boca fazendo com que leve a ponta da língua aos lábios para molhar desejando ter mais dessa sensação
Escutar a música repetidas vezes em um loop enlouquecedor só me deixa mais acordada enquanto a mente tenta se perder no significado das palavras. Talvez essa seja a diferença, aceitei o monstro que habita em mim como uma segunda camada, como o ar que respiro. Ele existia ou nasceu?
Quem vai saber os desenhos projetados pelo diabo, quem vai saber em qual queda irá ceder.
A cada dor de cada mordida fazendo a dor se alastrar por todo o corpo, em cada surra inibindo os meus movimentos atordoando os pensamentos que foram se formando por dentro, tomando um espaço que acreditei algum dia que era bom. Ou ao menos tentei imaginar ser bom.
O espaço adestrado desde o nascimento a ser condescendente, paciente, amorosa e obediente agora é só um espaço oco e escuro, os desejos de suicídio que tive foram sendo tomados pelo desejo insano de consumir cada grito e cada gemido da sua dor.
Com fogo, sangue e a loucura intrínseca aos solitários de alma, minha mente é dominada por todas as ideias fluindo em um esquema perfeito, as peças de xadrez se movimentando cada vez ao levantar o taco para bater no bastardo outra vez e outra vez. Vendo a fúria brilhar em seus olhos, larguei o bastão no chão aproximando os nossos rostos o suficiente acariciando a barba crescida pela viagem, pego-me imaginando quantas ele atormentou sem ter a mim para saciar a sua sede.
Os olhos azuis brilham em resposta sua língua saiu para fora molhando os lábios pecaminosamente avermelhados, foi nesse ponto que me permitir adoecer? Ou já estava caída antes dele? Apoio a mão na sua bochecha.
–Eu te amo Stefano. – Digo, sentindo o retumbar no peito.
As palavras saindo com tanta facilidade que nem ao menos sei quando passei a amar o meu algoz, sinto os olhos queimando pelas lágrimas tomando cada traço do fôlego.
–Beatrice –A voz grave mexe com algo dentro de mim. – Me solte, prometo fingir que isso não aconteceu.
Suspiro, subindo na pequena mesa com algumas coisas ordenadas ao seu lado, traçando os bíceps estendidos com as pontas da unha, arrancando um gemido entre nós dois chegando aos seus punhos, e parando ao tocar a aliança em seu dedo anelar.
–Que tipo de amor é esse Stefano? – Pergunto, abaixando o corpo tirando as mãos dele para pegar a bola vermelha presa entre as tiras de couro na mesa.
Ele deita a cabeça para trás enquanto me ajoelho sobre a madeira, sentindo o peito se contorcendo de uma maneira tão dolorosa, repassando toques, carícias e olhares. Será que esse amor foi apenas uma ilusão, minha?
–É o único amor real. – Paro os movimentos buscando absorver cada uma das suas palavras. – O amor nos deixa loucos e todas as monstruosidades que fazemos por amor, não nos torna monstros apenas feitos de carne.
Suspiro com força sentindo a dor carregada pela enorme gota que escapou pelo canto dos meus olhos, fugindo ao escorrer pela bochecha.
– Deixe -me sentir uma última vez. – Ele morde os lábios
A sua visão tão inocentemente indefeso, exposto em toda a sua glória como uma escultura talhada no mais precioso mármore, é essa cena que rouba mais uma lágrima minha, seguro em seu braço esquerdo colocando o rosto próximo o suficiente do seu, sentindo o calor e o aroma do seu hálito de charuto, a língua traçando todo caminho feito pela lágrima sorvendo como se fosse a mais pura bebida. Afasto-me apenas o suficiente para ficarmos com os olhares conectados.
– Sinto que enlouqueci. – Admito, mesmo que por dentro ainda não saiba distinguir se é bom ou ruim.
–Você sempre foi louca meu amor e perfeita para mim. – Sinto a verdade em suas palavras, ficando balançada, tentada a desmanchar os laços que o prendem. – Não. – Volto a olhar para ele. – Não o faça, só um de nós pode sair vivo daqui depois disso.
Engulo em seco pois essa é a verdade mais dolorosa, uma faca que corta a minha alma e por algum motivo distorcido adoro essa dor.
— Está abrindo mão por mim? – Murmuro incrédula.
Seu sorriso se abre enorme fazendo os dentes brancos brilharam com tanta beleza, meu pedaço do sol que queima as minhas asas.
– Nos encontraremos no inferno querida. – Vejo como o olhar se transforma no mesmo momento. – Não esqueça que putas têm um lugar reservado para servir lá também.
Abro um sorriso de satisfação, é a verdade, é o que sou, uma puta e agora uma vadia má prestes a causar uma carnificina, voltei para os meus movimentos colocando a bola vermelha em sua boca, escutando os lamúrios quando as palavras começaram a acertar as cicatrizes abertas dentro da alma, suas acusações por ser uma má esposa, por ser uma puta de uma família ruim.
A indignidade de carregar um herdeiro Sartori.
Desço da mesa encarando o mar que carrega todas as minhas dores, os dissabores e o meu coração, sim, se é que tive algum um dia está indo embora com esse homem. E até mesmo ele sabe disso, ao parar de tentar falar para forçar o melhor sorriso mesmo com a boca aberta. Seu olhar carrega a satisfação de saber que está tatuado em mim.
Danço por um momento entoando a música fazendo a voz baixa repercutir nas paredes da minha cela, a sensação de prazer cresce, pois dessa vez ele será apenas, meu. Somente meu, para toda a eternidade. Sem olhar para mais ninguém, pois o último olhar será meu. Caminho pelo lugar chegando à mesa e escolhendo com cuidado a prova da monstruosidade que meu amor é capaz de fazer por ele.
Uma brincadeira infame em que a cada movimento arranca um sorriso em meio ao caos do sangue espalhado pelo ambiente pequeno que costumava ser a minha cela.
Meu ouvido direito pedia descanso do som incessante e mesmo com a dor deixei levar pela música penetrando, quando se perde a cabeça você se sente livre ou vivo?!
Não era o momento de conter a dor, não quando meu demônio precisa cantar, quando minha mente precisa sentir o sangue esquentando. Observei seus olhos tremendo, sua respiração fora de compasso e o suor na testa instigando o pior em mim, algo que nunca imaginei que seria possível como um sonho distante se realizando, agora. Escolhi o machado de lâmina cega.
Levantei o machado deixando a lâmina ficar presa no osso do o tornozelo, fazendo um movimento de balançar como se estivesse cortando lenha, para retira-lo não de um pedaço de madeira mas do osso, repetindo o movimento e vendo a forma em que seus olhos reviraram olhando para baixo vi que deixei apenas um toco no lugar, seus grunhidos se reverberando pelo local com isolamento misturando-se com a música. Soltei o machado na mesa escutando um breve suspiro de alívio, embora seu olhar agora carregue um desafio, o que ele não imagina é que o inferno é aqui, foi ele que me ensinou isso ao ensinar-me que entre as paredes desse porão aquele com o poder é o juíz e o carrasco. Peguei um pano caminhando até o seu pequeno armário, achei o ácido que precisava e voltei pressionando o pano com ácido no que restara do tornozelo. Seu corpo se retorcendo com a dor, ajoelhada ergui o olhar encontrando o dele, a dor repercutiu pelo meu lábio pela joelhada partindo a pele, lambi sentindo o gosto do líquido viscoso e sorrindo com o prazer.
Eu sou o seu carrasco, seu dono, seu inferno o único capaz de ter o seu amor, pois somos sujos, somos feitos da mesma podridão.
Minha mente perturbada e atordoada trouxe de volta as palavras infelizes, a memória é uma vadia repugnante.
Usei a mesma bola vermelha que era obrigada a usar, o que fez a visão me trazer um prazer tão distorcido. Sem um pé e ainda sendo a visão mais bela, dizem que o Diabo é lindo, estão todos certo, ele é tão lindo que ao ve-lo assim, indefeso sinto que tomo seu trono.
É isso que sou agora? Uma versão dele?
Um algoz como Stefano tem sido em todos esses anos.
Levantei observando a obra como um todo, a escultura que ficará perpetuada nas minhas lembranças, teria sido mais difícil sem a ajuda do meu irmão para prendê-lo nessa haste de açougue, convencer ele foi complicado, mas valeu a pena o gosto de retribuir todo o seu amor é só meu.
–Esse é o nosso amor. –Digo sorrindo, ficando em pé, escolhendo a nova arma na mesa. – Deixe-me te mostrar.
E essa vai ser minha memória mais prazerosa.
Você pode gostar





