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A ex esposa da máfia

Após ser humilhada e destruída, uma mulher decide reescrever seu destino em busca de uma vingança que purifique sua alma. Contudo, seus planos de retaliação sofrem uma reviravolta inesperada quando ela conhece um homem misterioso, marcado por segredos profundos e traumas do passado. Nesta trama de máfia e romance para adultos, o encontro entre duas vidas feridas desencadeia eventos intensos onde o desejo de justiça se mistura a perigosas emoções.
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Capítulo 3

Beatrice Costello Sartori

E nesse ritual em estripar cada pedaço do corpo expulsei cada lembrança dolorosa, cada machucado nem mesmo se tudo der errado esse pequeno momento sempre vai ser a minha vitória.

Peguei o galão de gasolina jogando dentro do tambor, subi em um banquinho e desatei as mãos presas adicionando ao pequeno churrasco, sua cabeça ao fundo sem olhos vindo na minha direção arrancou uma risada. Me afastei o suficiente para apoiar o corpo cansado na porta pegando sua carteira de cigarros e o isqueiro.

Assim que joguei o isqueiro aceso em direção a gasolina, traguei meu primeiro e único cigarro.

Sentindo todas as mentiras sendo queimadas pelo fogo junto ao homem que um dia foi meu marido, os olhos azuis intensos prometendo e jurando um amor inexistente a cada surra, obrigando a minha mente por um único momento pensar ser culpada das suas maldades.

Eu estou perdendo a minha sanidade?

Me perdendo da realidade?

O cigarro acabou, e as chamas continuam consumindo todo o combustível, o cheiro da carne queimada deve ter se fixado na minha pele.

Mas queria estar ali e em nenhum outro lugar do mundo, ver aquele que por um único momento foi o ar que respirava, o dominador do meu demônio se transformar em cinzas é como gozar sem transar. E por mais que ninguém pudesse ocupar o seu lugar, ainda na morte ele é minha dor mais profunda, minha cicatriz mais aberta e mais exposta ao sol.

O sonho de uma vida feliz e de construir um amor puro junto a uma família grande, é o meu sonho de comercial de margarina que acabou de virar fumaça.

Esperei que em algum momento o arrependimento atingisse, que a dor me deixasse entorpecida, que o ar faltasse. Ainda assim, por alguma piada do destino senti os pulmões puxando o ar de maneira confortável pela primeira vez, senti o prazer enchendo as veias.

Revirei os olhos para a bagunça, esse foi o único momento de desconforto que senti.

Me beba, me alimente e me deixe te mostrar a luz.

Meu demônio parecia finalmente livre de seus grilhões e por alguma loucura, isso é reconfortante.

Peguei o álcool na prateleira ao lado e caminhei em direção ao machado sujo na mesa, com uma flanela nova, comecei a limpar o sangue, sentindo o cheiro da ferrugem e observando o brilho do machado aparecer.

Continuei o mesmo processo em cada faca, cada gilete, cada agulha e em cada alicate, todas as últimas vinte e quatro horas que passei aqui valeram. Cada grito de dor presente dentro da memória é guardado especialmente num lugar em que o passado não possa ser esquecido.

E agora cada pedaço de mim cobrou um preço para se manter, respirei o mais profundo que consegui apoiando na parede, peguei o celular na prateleira desligando o som e abrindo a porta. A escuridão abraçou como uma velha amiga, subindo cada degrau esperei sentir qualquer remorso e tudo o que senti foi um imenso nada.

Caminhando pela casa escura, tateando pelas paredes algum apoio para as pernas cansadas consegui chegar ao quarto, e como em uma prece silenciosa conectei o celular ao sistema de som, joguei o aparelho na cama sem me importar com a quantidade de ligações ou mensagens perdidas.

Suspirei, me perdendo da realidade sentindo o gosto do sangue encher a boca depois de cortar os lábios mordendo.

Poderia ter perdido a sanidade e mesmo assim, não importava.

O sangue dele sendo derramado e escorrendo pelos cantos, o fogo em seus olhos azuis sendo consumido, e as cinzas que subiram no lugar abafado.

É esse sussurro na minha mente que traz o primeiro sorriso aos meus lábios, depois do caos, e essa pequena sensação pela qual nunca mais irei deixar ir embora. Mesmo a custo de sangue inocente. Encarando o espelho dentro do banheiro percebi que o som já havia se desligado por talvez o celular ter finalmente descarregado, no reflexo alguém diferente do que estava acostumada a ver, com a cabeça lívida entrei dentro do box deixando a água escorrer pelo corpo limpando a sujeira agarrada a minha pele, pois a que se agarrou na minha alma não pode ser limpa.

Senti ser o suficiente e sai do box enrolando o corpo em uma toalha, caminhei para fora do banheiro segurando a sacola em que coloquei todas as provas que pudessem indicar o meu crime e sujando a casa toda de sangue, deixei a sacola do lado da porta de entrada para não esquecer de tirar o lixo mesmo sem saber se é dia de coleta ou qual dia é.

Caminhei até a bancada da cozinha em que costumava deixar o carregador e o conectei na tomada sentindo um pequeno choque na mão e uma bolinha vermelha aparecer instantaneamente na ponta do meu dedo causado pelo choque.

A dor não incomoda mais, talvez ela tenha sido a única companheira verdadeira em todos esses anos. Me movi um pouco para a esquerda abrindo a porta da geladeira e pegando o suco de laranja, o leite e dois ovos. Preparei a frigideira e quebrei os ovos, pegando uma chaleira para passar um café coado e a colocando no fogo, peguei um copo e enchi de suco, observando os ovos estalando dentro da frigideira enquanto o estalo dos ossos se quebrando enchia minha mente e meus ouvidos.

A chaleira apitou e o cheiro dos ovos começou a queimar, fechei o fogo e coloquei os ovos em um prato raso, passei o café com a maior calma e precisão como a arte que é. Pegando minha maior xícara enchi de café e cobri com leite até respingar fora ao levantá-la do balcão, tomei um gole sentindo o estômago agradecer o alimento que tinha sido roubado de si. Olhei para o copo ainda cheio de suco, jogando o conteúdo pela cozinha se misturando com os pingos de sangue de cada machucado aberto.

O som de um carro do lado de fora não me surpreendeu, e quando uma das poucas pessoas com a chave da minha casa entrou, o silêncio pesou e o ar que entrava pela porta esfriou a casa.

Seus olhos revistaram a casa procurando algo que nunca mais estaria lá, o entendimento pareceu atingir seus pensamentos, observando meu pequeno café da manhã. Sua proximidade em passos lentos não surpreendia, mas o seu silêncio pela primeira vez na vida incomodava.

Os olhos tão escuros quanto os meus, o cabelo alinhado e a barba bem cortada marcando a pele clara, pela primeira vez na vida entendi a escuridão nos olhos do meu irmão.

Talvez os piores monstros não sejam aqueles que criamos, talvez os piores monstros sejam apenas nós mesmos.

Puxando a baqueta se sentando na minha frente num silêncio ensurdecedor, respirei fundo e voltei a xícara de café, não me incomodei com a porta da entrada aberta os passos daqueles entravam foram enchendo o pequeno cômodo entre um sofá e a cozinha.

Levantei a cabeça e observei quieta, sentindo uma calmaria incrível dentro de mim.

Cada olhar carregado com uma interrogação que não poderia responder até a fome ter acabado, e o pior de tudo, é que essa fome não cessava a vontade de rebobinar cada momento como um filme sentindo cada sensação fechando os olhos, ao abrir me vi refletida nos olhos escuros, dei um pequeno sorriso de canto sentindo o desejo do monstro em se vangloriar.

Frente a frente com meu irmão sem nenhuma desilusão quanto ao destino do homem que foi meu marido, ele entendeu todas as entrelinhas do olhar, palavras eram desnecessárias e o suspiro ao segurar minha mão foi a sua forma de perguntar ‘você está bem?’ o aumento do meu sorriso se juntando ao seu igual ao meu, não poderia dar outra resposta.

Meus irmãos estavam ali por mim, o primeiro a falar sempre era Hunter

— Precisa de ajuda com a limpeza? – Seu olhar é cuidadoso, preocupado.

Os olhos verdes analisando cada parte minha exposta fazendo a raiva preencher o rosto esculpido de maxilar quadrado e boca cheia.

A decisão que tomei vai repercutir sobre todos nós de alguma maneira e esse é o seu jeito de dar seu apoio.

— Apenas a sacola de lixo ao lado da porta.

Ele se virou e caminhou até a porta pegando a sacola saindo fora da casa, todos nós observamos em silêncio a movimentação de ida e volta. Até estar parado novamente ao lado da bancada como se esperasse uma ordem ou um pedido.

— Certo, qual o plano? – Jack se virou de lado sentado no sofá agora com o corpo virado na nossa direção perguntando o que se passava pela cabeça de todos.

Os cabelos escuros em contraste com os nossos loiros, o rosto bem-feito, de lábios cheios e dentes perfeitos, o nariz um pouquinho torto e a expressão sarcástica de sempre estampada.

— Precisamos de uma história – Hunter respondeu sem desviar seus olhos dos meus.

— Forjamos a morte delas – Giácomo disse e pela primeira vez olhei para todos ali percebendo a falta de Bianca.

— Por que ela fez isso? – Sussurrei sem realmente querer a confirmação dos pensamentos.

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