
A esposa virgem
Capítulo 2
Isabella
Mais uma entrevista.
Mais um não.
— Desculpe, mas você não tem os requisitos para vaga em aberto,
mas guardaremos seu currículo em nosso banco de dados para novas
oportunidades.
Escuto novamente a maldita frase que já tinha decorado e até mesmo
passado a ouvir durante meus sonhos todas as noites. Sonhos não, pesadelos.
Bom, o fato é que eu tinha perdido tempo tentando conseguir uma
vaga como vendedora de uma loja chique no shopping. Mas até que a
negativa foi justa desta vez, porque eu não sei nem diferenciar uma maldita
seda de uma viscose. Para mim, é tudo o mesmo tecido ou pedaço de pano.
Quem se importa com isso? Bem, pelo visto as grã-finas fresca se importam.
Falando nas peruas, tenho certeza de que, quando fosse atendê-las, não
conseguiria segurar minha língua e responderia suas futilidades.
Por mais que eu saiba que não duraria muito tempo no emprego, saio
cabisbaixa da sala de entrevistas, pois preciso demais de um trabalho. As
coisas lá em casa estão ficando feias, e me sinto na obrigação de ajudar
minha mãe com as despesas domésticas. Ela vem segurando a barra nesse
último ano, e quero dar um descanso para a mulher que sempre lutou sozinha.
Saio da loja e vou caminhando lentamente até me deparar com a praça de
alimentação que, como costume, está lotada e barulhenta. Olho para um lado
e me deparo com um quiosque do McDonald’s, onde os sorvetes parecem
criar vida e me chamam. Fazia tanto tempo que tinha comido essa delícia
gelada que minha boca saliva, e meus olhos brilham, cobiçando os Mcflurry.
Nunca me atrevi a pronunciar esse nome para não pagar um mico e, da vez
que choveu na minha horta e pude me dar ao luxo de saborear um desses, tive
que agradecer ao atendente que entendeu o meu pedido: um Mc de sonho de
valsa, por favor.
Sacudo a cabeça e virou meu pescoço para o outro lado, mas o capeta
atenta, e me pego babando na propaganda de um hambúrguer com carne
dupla, queijo cheddar triplo, camada bônus de bacon, molho barbecue, picles
e alface americana. Tudo entre duas fatias de pão feito com grãos de trigo
exclusivamente escolhidos. Uma frescura, mas uma prova de que, neste
mundo, até o coitado de um grão pode ser rejeitado e descartado.
É, estou na mesma situação do coitado do grão imperfeito.
Respiro fundo, tentando esquecer as injustiças que tem acontecido em
minha vida, mas é uma péssima ideia, porque todos os aromas atiçam as
vermes que habitam o meu estômago e o coitado grita feito louco, em um
ronco que deve ter ecoado por todo o ambiente.
Então, fazendo a egípcia, abaixo a cabeça e saio correndo para o mais
longe possível da praça de alimentação. Não posso perder tempo desejando o
impossível, já estou atrasada para chegar à minha casa. Corro mais rápido e
só paro quando não escuto mais o barulho infernal e nem sinto cheiro de
comida. Só então, fecho meus olhos e tento respirar normalmente.
Recuperada, olho ao redor para tentar me situar. Graças a Deus, vim
parar diante dos elevadores e até me surpreendo que não tenha uma fila
enorme para usá-los. Aciono um e, quando as portas se abrem, pulo para
dentro, apertando o botão no painel rapidamente. A viagem é curta, logo as
portas se abrem novamente e, quando dou um passo para fora, não sei onde
estou. O local iluminado e cheio de carros me dá uma pista de aonde fui
parar, mas não sei como cargas d’agua acabei no estacionamento do
shopping, se eu não estou de carro, e o ponto de ônibus fica na outra
extremidade.
Droga!
Por que tudo de errado tem que acontecer na minha vida? Só posso ter
chutado a cruz de Cristo em outra vida!
Olho para o relógio em meu pulso e percebo que perdi a tarde toda
presa naquela sala. Cacete, agora, com certeza, vou passar mais de uma hora
esperando o ônibus. Chegarei bem mais tarde em casa e não poderei ajudar
minha mãe, sem falar que levarei novamente a notícia ruim de não ter
passado na entrevista de emprego.
Mas o que eu poderia fazer sem experiência e muito menos uma boa
indicação? Nada! Nem chorar, eu podia, pois sabia que minhas lágrimas nada
resolveriam, só me deixariam pior e agravariam ainda mais o estado
angustiado de minha mãe.
Sem opção, respiro fundo e começo a fazer meu caminho de volta.
Contando com o atraso do motorista, torcendo para que ele tenha parado em
todos os sinais vermelhos e acreditando em minha velocidade, eu ainda
poderia pegar o ônibus das 18h, chegar cedo, ajudar nas tarefas de casa e
descansar para amanhã começar mais cedo minha rotina de espalhar
currículos pela cidade.
Como o papa-léguas fugindo do coiote, cruzo o primeiro quarteirão
do estacionamento, mas, quando estou quase alçando o próximo, escuto uma
buzina alta que me ensurdece.
Olho na direção do barulho e vejo um carro prata vim em minha
direção. Não tenho tempo de reação, apenas fecho os olhos, rezando todas as
ave-marias e os pais-nossos, clamando para que Deus possa me livrar da
morte, pois ainda sou muito nova e tenho muito o que fazer neste mundo.
Mas, apesar de todas as orações, sinto o impacto em minhas pernas, e logo
sou jogada ao chão, caindo de bunda e batendo a cabeça no piso liso.
— Está tudo bem? — Uma voz muito polida soa perto de mim, e sinto
um toque suave em meus braços, mais precisamente no pulso. — Está sentido
alguma dor? Você consegue se levantar?
Minha cabeça gira, e tento abrir meus olhos, mas, ao invés das luzes
do teto, enxergo vários vaga-lumes na minha frente.
— O que aconteceu?
— Fique calma — a voz bonita pede. — Vou precisar tocar em sua
perna, mas não se assuste, é apenas para saber se quebrou algo.
Então ele apalpa minhas pernas cobertas pela calça jeans e, mesmo
com o tecido grosso, sou capaz de sentir o calor que emana do seu toque.
— Não quebrou. — É nítido o alívio que ele sente ao falar isso. —
Você deve ter caído pelo susto.
Tento abrir novamente meus olhos que, dessa vez, graças a Deus, não
me deixam na mão. Então, busco o dono da voz cortês, e uma sombra muito
grande e corpulenta surge na minha frente. Levanto minha cabeça e, quando
consigo focar no rosto do homem que me ajudou, já não tenho certeza se
estou viva ou se realmente fui atropelada e morri, pois vislumbro um anjo
muito belo olhando-me de volta.
Jesus, me abane! Que anjo!
Paro meus pensamentos carnais quando concluo que ele só pode ser
meu anjo guardião, embora não use nada daquelas roupas brancas, nem tenha
asas ou caracóis loiros. Ele usa um terno escuro com uma gravata vermelha
sangue e tem cabelo castanho-claro, jogado para cima, formando um topete
leve. A única semelhança com a imagem dos anjos que já vi são os olhos
azuis. Azuis da cor do céu para onde ele vai carregar minha alma.
Analiso demoradamente seu rosto perfeito, coberto por uma barba
escura. A expressão não é das mais calmas, mas eu posso entender. Ele deve
estar cansando de cuidar de mim, pois sei que não sou uma das criaturas mais
fáceis de proteger, já que vivo entrando em confusões. Então, com certeza,
ele já não aguenta mais interceder por mim.
Ele movimenta seus belos lábios vermelhos, e não consigo
compreender bem suas palavras, mas posso chutar que ele está fazendo uma
oração para que minha alma vá em paz, e eu não vire uma pagã sem rumo,
por isso, fecho os olhos para receber minha bênção e partir em paz.
— Vou chamar um médico. — A voz bonita soa novamente. — Só
por precaução.
— O quê? — pergunto, confusa, tentando me situar. — Se já tô
morta, para que preciso de um hospital? Por que não faz logo seu trabalho
direito e me leva para o paraíso? Prometo que vou me redimir junto a Deus e
interceder para que sua próxima protegida não seja tão difícil quanto eu.
— Do que está falando? — Ele franze o cenho.
— Você não é meu anjo guardião?
— Você está bêbada? — pergunta. Imediatamente abro meus olhos de
novo, e então o vejo encarando-me com atenção. — Você não pode ser tão
imprudente, garota — ele dita, e agora sua voz está firme. — Venha, vou
levá-la para um hospital.
— Não precisa — digo, fraca. — Eu quero me levantar, estou
apressada, tenho que chegar à minha casa logo.
— Venha, me deixe te ajudar.
Sinto seu toque suave em meus braços, e então, como se eu não
pesasse nada, ele me põe de pé e encostada na lataria do seu carro. Deixo
meu corpo descansar no capô do automóvel, sentindo-me lerda, como se
estivesse bêbada. Respiro fundo para tentar aliviar a sensação de peso na
cabeça e, depois de cinco expirações fortes, já me sinto melhor. Mexo minhas
pernas, até mesmo dou alguns passos, e realmente não tenho nenhuma dor.
Em seguida, mexo os braços e eles também respondem normalmente.
Ufa! A única exceção é minha bunda que dói quando volto a me
encostar no carro. Bem, dos males os menores.
— Está vendo o que causou? Uma confusão desnecessária. — Ele
aponta seu dedo para mim. — Mas também pudera, não teve noção do perigo
ao se jogar na frente do meu carro. Sorte sua que consegui frear a tempo.
Só então encarro o homem com as sobrancelhas franzidas e, como
uma fita sendo desfeita em minha mente, a situação se esclarece.
— Espere — emito, sacudindo a cabeça. — Você não é meu anjo
coisa nenhuma. Você tentou me matar — acuso. — Você quis passar por
cima de mim com seu carro. Tenho certeza de que estava andando rápido
demais e não percebeu que eu tinha a preferência por ser pedestre.
— O quê? — ele rosna, duro. — Foi você quem entrou na frente do
carro de uma vez. Eu até mesmo buzinei, mas você continuou.
— Então era seu dever ter parado e me deixado passar. E não agir
feito um imbecil, tentando tirar minha vida.
— Olhe. — Ele aponta para um sinal. — Eu estava na minha vez,
então era você quem deveria parar. Sem mencionar que não pode ser tão cega
que não consiga ver um carro vindo em sua direção. Além disso, você estava
correndo em um lugar inapropriado — fala e aponta para o estacionamento,
como se isso explicasse alguma coisa.
— Agora vai colocar a culpa em mim?
— Por acaso você é louca? — questiona, sua voz grossa começa a
denotar irritação, e vejo seus olhos azuis escurecerem. — Pelo estado insano
em que corria, devo considerar que sim. Isso sem falar do jeito como quase se
matou, com certeza, você é uma burra maluca.
Quem esse idiota pensa que é?
— Alto lá, seu cavalgadura — reclamo, em desafio às suas
grosserias. — Eu não sou nenhuma louca. Foi você que veio do nada e deve
ter sido devolvido por alguma nave espacial, ou então acha que isso aqui é
uma pista de Fórmula 1.
— Além de suicida, é doida. Era só o que me faltava — ele resmunga,
retorcendo a boca em contrariedade. — Eu não queria te matar. Deveria
reconhecer seu erro. E teve sorte por não ter arranhado ou amassado meu
carro, do contrário, teria que arcar com o prejuízo.
Ele se afasta e fica me encarando com fúria, sem piscar os olhos
azuis, enquanto me queima viva. Então ele bufa, parecendo um cavalo
selvagem prestes a sair dando coices em quem estiver por perto. Mas, com
certeza, deve me faltar um parafuso a menos, pois me aproximo ainda mais
do desconhecido, erguendo uma sobrancelha e encarando-o sem medo:
— Você só pode estar de brincadeira — exclamo, sacudindo a cabeça.
— Isso é inacreditável! Você quase me atropela e ainda quer colocar a culpa
em mim por andar dirigindo feito um louco? Tá se achando o Ayrton Senna?
Sinto muito te informar, mas estamos bem longe de Interlagos.
— Escute, menina, você não vai me fazer sentir culpa pela sua falta
de atenção e maluquice. Da próxima vez que decidir sair por aí correndo,
certifique-se de que está em um local seguro ou então em um parque livre. —
Sua voz até mesmo ecoa em todo ambiente, parecendo um trovão. — Exijo
que se retrate agora mesmo de suas acusações sem cabimento — ele dita,
cruzando os braços na frente do peito.
— Quê?
Ele respira profundamente, enquanto também cruzo meus braços na
frente dos seios. Bem, se ele acha que vou assumir uma culpa que não é
minha ou aguentar suas grosserias calada, ele está completamente enganado.
— Peça desculpas, garota abusada!
— Nem quando chover canivetes. Você que deveria pedir desculpas
por dirigir em alta velocidade e querer me matar.
— Sou estou perdendo meu tempo. Não vou mais discutir, pelo visto,
não sofreu nada com a queda. Com certeza, é maluca de nascença — fala
rudemente. — Agora, vou entrar no meu carro e, dessa vez, tente não se jogar
na frente.
Seu corpo elegante dá meia volta e, após poucos passos, ele abre a
porta do motorista. Nem tinha reparado no modelo do seu carro. Ok, não é
como se conhecesse todos, mas podia apostar que esse não é um dos mais
baratos. Ele bate a porta com força e sai cantando os pneus pelo
estacionamento.
Imbecil!
— Tomara que seus quatro pneus furem numa estrada vazia e chuvosa
— grito minha maldição para o nada.
Então volto a fazer meu caminho novamente, agora com a certeza de
que só vou chegar à minha casa depois das 9h da noite.
Bufo. Tudo culpa daquele cego idiota!
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