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A esposa virgem

O magnata da construção Mateus Ávila é um sedutor inveterado, mas seu pai exige que ele abandone a boemia e se case com uma mulher pura e discreta. Em um acordo de conveniência por apenas um ano, ele se une a Isabella Oliveira. No entanto, ela é o oposto do esperado: impetuosa, indelicada e dona de uma língua afiada. Sem nada em comum além do contrato, esses dois mundos colidem, testando os limites de uma união sem paixão entre opostos.
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Capítulo 1

Sthefane Lima ♥

Por livre e espontânea pressão familiar, vai acontecer um casamento.

Isabella e Mateus os convidam para esse momento de insanidade.

Mateus

— Inacreditável! Mais de uma hora de atraso, Mateus. O que eu faço

com você? — papai indaga, forte. — Eu já estava sem desculpas para

explicar a toda a família o porquê de o jantar não ter começado. Espero que

você tenha uma justificativa digna!

Assim que passo pelo umbral, dou de cara com o senhor Damião e

vejo sua expressão fechada e tensa. Os olhos azuis, que herdei, não têm

brilho algum e isso não é um bom sinal. Os cabelos pretos salpicados de fios

brancos estão arrumados no costumeiro penteado contido, nenhum fio fora do

lugar, enquanto a boca está retorcida em contrariedade e os punhos, fechados

em cada lado do corpo.

Sim, papai está irritado.

— Damião.... — mamãe chama baixo, tentando livrar minha pele

como sempre.

— Basta, Marta! — Ele levanta a mão. — Ele precisa aprender que os

compromissos assumidos devem ser cumpridos e que um homem tem que

honrar sua palavra. Essas atitudes de moleque não podem continuar porque

só sujam ainda mais o sobrenome que ele carrega e faz questão de

menosprezar, dia após dia.

— Papai, tive um imprevisto — Interrompo seu sermão. — Eu vou

explicar e me desculpar com todos, se isso o fizer se sentir melhor. Agora

vamos, senão nos atrasaremos ainda mais.

Ele sacode a cabeça, abre e fecha a mão algumas vezes e respira

fundo. É nítido que minhas desculpas não foram aceitas, mas, pela ocasião,

ele vai encerrar a discussão. Conheço-o e sei que esse assunto não será

esquecido, o que é uma pena, pois hoje eu não queria brigar com ele.

Cansando de nossas brigas sem fim, desvio o olhar para a elegante

figura ao lado dele, a senhora Marta Ávila, minha mãe. Ela não está irritada,

mas tem a expressão frustrada e decepcionada. Sei bem que ela estava

segurando a explosão do meu pai e tentando me defender a todo custo. Para

ela, tudo era uma fase e brigas não me fariam mudar. E ela estava mais do

que certa. Eu não mudaria, pois não estava fazendo nada de errado.

Olho mais atentamente para a bela mulher que usa um vestido na cor

bege e sapatos na mesma tonalidade. Ela jamais aparentou a idade que tem, e

quem a ver ao meu lado, pensa que é minha irmã mais velha. Dou um passo,

pego-a em meus braços e beijo seus cabelos castanhos, da mesma cor que os

meus. Ela também me aperta forte, como se fosse uma reprimenda, mas logo

alisa minhas costas, movendo suas mãos de cima a baixo, na linha da minha

coluna. Esse gesto parece irritar ainda mais o senhor Ávila, que branda forte:

— Fui um pai relapso. Não deveria ter fechado meus olhos para suas

criancices. Deixei essa situação durar muito tempo, mas isso acaba hoje

mesmo — o senhor Damião diz, forte.

Olho-o tentando compreender o sentido de suas palavras, mas, antes

que eu possa perguntar o que sua ameaça significa, ele sai a passos duros e

decididos, rumo à sala de jantar.

Nunca o vi tão irritado, mas eu desconfio que isso tudo é por causa da

última fofoca que inventaram sobre mim, porém eu posso provar que é

mentira, uma jogada de uma garota interesseira, daquelas que caçam a

fortuna de homens ricos como eu para tentar ganhar a vida. Mas ela não sairá

ganhando desta vez, pois vou mostrar a ela que comigo não se brinca. Ela vai

aprender a nunca me enganar e, muito menos, me enfrentar.

— Entenda o seu pai, ele só quer o seu bem — mamãe pede, ainda em

meus braços.

Apenas assinto com a cabeça. Sei o que ela quer dizer, afinal passei

minha vida toda sobre essa pressão — uma consequência dura de ser filho

único —, por isso, tenho a obrigação de ser o exemplo perfeito, afinal, sou o

primeiro herdeiro, aquele que carrega sobre os ombros toda responsabilidade

de dar continuidade ao nome da família.

Contudo, sou jovem, e hoje é sábado. Eu poderia estar em uma balada

ou encontrando alguma mulher da lista de excelentes para foda para ter uma

movimentada noite, mas estou aqui, na casa da minha família, porque papai

inventou um jantar de negócios misturado com um encontro familiar — o que

aposto que será um porre. Até poderia ter inventado alguma desculpa, eu era

bom nisso, mas é quase impossível dizer não para o velho Damião, ainda

mais se ele estiver colado no seu pé, como um bom cão que fareja alguma

mentira ou vexame.

E por falar em escândalos, eu sou um colecionador deles. Não faço

por onde, mas não consigo fugir deles Veja meu nome: Mateus (comum)

Ávila (onde a porra pega). A família Ávila, tradicional e famosa em São

Paulo, é dona da mais antiga e bem-sucedida construtora do país, a Classe A,

que foi fundada pelo meu avô e tem passado de geração para geração.

Agora está nas minhas mãos. Assumi a direção do negócio havia três

anos e, durante todo esse tempo, cuidei da empresa como se fosse minha

vida. Não cometi erro algum e ela tem faturado como nunca, recentemente

até fechamos um negócio de bilhões de reais, mas parece que minha vida

profissional não é a parte que faz mais sucesso. O auge das revistas e

programas de fofocas é minha vida pessoal e privada, as saídas rotineiras e o

rodízio de mulheres que me acompanha. Já ameacei processar todas as mídias

que estampavam minha cara para vender ou ter audiência, mas papai sempre

foi contrário. O poderoso Ávila dizia que eu tinha que entrar nos eixos, andar

na linha e construir outra reputação. E que eu não podia continuar

manchando o nome da família assim.

Mas o que eu estava fazendo de errado? Não estava matando

ninguém, muito menos roubando. Só estava curtindo a vida e sendo feliz.

Não é isso que devemos fazer? Buscar nossa própria felicidade sem

prejudicar o próximo?

Ranjo os dentes, contrariado.

Com minha mãe segurando meu braço direito, caminhamos até a sala.

Assim que chegamos, umas dez cabeças se viram em nossa direção. Toda

minha família está com os olhos bem focados em mim. Mamãe logo vai para

seu lugar na mesa, enquanto eu fico de pé, parado feito uma criança

desobediente que precisa pedir desculpas por ter comido o doce antes do

jantar.

Porra! Eu não deveria ser forçado a fazer isso. Sou um homem adulto

que me sustento com meu próprio suor, mas encaro meu pai, e seu olhar é

quase uma ordem.

Inferno!

Respiro fundo, buscado calma para suportar os olhares especulativos

do resto da família e, principalmente, o sorriso ordinário de Eduardo. Peço a

Deus que me dê equilíbrio, pois, se ele abrir a boca para falar alguma de suas

piadas, enfeito seu rosto com a marca de um soco meu.

Arranho a garganta tentando tirar o bolo de ira que me entala, antes de

começar a falar:

— Oi, grande família. Peço perdão pelo atraso, mas tive um

imprevisto que custei a resolver. — As palavras saem com um chiado. —

Mas agora estou aqui e podemos ter nosso momento familiar.

Ninguém fala nada. Melhor assim.

Então, com passos pesados, vou até o meu lugar, à direita de papai.

Mal me sento e já posso escutar a ladainha do meu primo antipático, que, por

um milagre, ainda não comentou sobre o meu atraso ou sobre a última fofoca

em que me meteram.

Pratos e pratos sofisticados são servidos, enquanto conto cada volta

dos ponteiros do meu Rolex, ansioso para levantar minha bunda da cadeira e

correr para um lugar onde eu pudesse gritar.

Quando, finalmente, o jantar termina, e eu acho que vou sair ileso e

sem mais acusações, papai me intima:

— Mateus, venha comigo até o escritório. — Levanta-se rápido e joga

o guardanapo branco em cima da mesa. — Eduardo, também me acompanhe,

pois o assunto a ser discutido é de seu interesse.

Com fúria, me levanto, jogo o guardanapo na mesa e, com as narinas

puxando o ar com força, sigo o ditador Ávila. Eduardo vem ao meu lado,

ajeitando o terno e com o sorriso de imbecil bajulador. O cachorrinho

perfeito, bem adestrado e que ganha todas os biscoitinhos e medalhas na

coleira de ouro.

Sabe aqueles momentos em que você pressente que algo de ruim está

prestes a acontecer? Quando seu peito bate rápido, seu sangue ferve, e todo o

seu corpo gela?

Essas são todas as sensações que me invadem.

Sei que algo terrível vai acontecer dentro desse escritório. E pior, sei

que serei o alvo, por isso, com os punhos cerrados e a expressão dura, sento-

me na cadeira de frente ao meu pai, que parece todo majestoso do outro lado.

— Eu não vou fazer rodeios — papai dita, ajeitando-se melhor em seu

assento de couro. — Estamos aqui reunidos, pois tenho um ultimato para

você, Mateus. Você está ciente de que não aceito o seu modo de viver e nem

a reputação que está criando. O nome da construtora não pode mais estar

atrelado a escândalos e muito menos o sobrenome Ávila pode ser citado

diariamente em revistas baratas ou programas de televisão.

— Ou nas páginas policiais — Eduardo completa fazendo-me virar

para ele imediatamente. — Não me olhe assim, primo. Não sou eu quem está

sendo acusando de forçar sexo com uma mulher.

— Cale a boca! Ordinário e puxa-saco. Não sou esse tipo de canalha e

nunca precisei forçar mulher alguma a se deitar em minha cama. Tenho moral

e caráter, coisa que você nunca vai ter. — Fixo bem meus olhos nos seus e

levanto o dedo indicador longo, apontando-o em sua direção. — Não que isso

seja da sua conta, mas vou lhe dizer mesmo assim: as mulheres matam e

morrem para estar ao meu lado. Se tenho várias, é porque sei seduzir, ou

melhor, sei satisfazê-las.

— Já chega! — Papai esmurra a mesa, fazendo um som seco ecoar

por todo ambiente. — Isso não muda o fato de que você está sendo acusado

de abuso sexual. Muito menos tira nosso nome desse absurdo em que você se

enfiou. A moça que o denunciou disse que tem várias provas e testemunhas.

— Papai, eu não fiz isso. É tudo armação — rosno. — Meus

advogados já estão cuidando do caso. Victor já está em pose de algumas

provas de minha inocência. Vou processar aquela vadia por calúnia.

— Mas preciso lembrar, primo, que você já foi visto duas vezes com

essa mulher — Eduardo fala, a voz coberta de cinismo. — Devo salientar que

ela alega ter lhe dito não, pois não se sujeitaria a ser mais uma na sua cama, e

você não reagiu bem a essa negativa.

Enxergo tudo vermelho, quando me levanto e pego o infeliz pelo

colarinho de sua camisa social.

— Você está insinuando que eu abusei daquela infeliz? — pergunto,

rangendo todos os dentes no processo. — Eu entendi direito?

— Estou somente lembrando o depoimento dela — ele responde, as

palavras soando baixo.

— E como você sabe o conteúdo do depoimento daquela interesseira?

— Desta vez minha pergunta parece ter um tom mortal, pois o som da minha

voz veio do mais profundo canto da minha garganta.

— Solte seu primo. — Sinto papai ao meu lado. — Atitudes de

desiquilibrado não vão provar sua inocência e, muito menos, agredir seu

primo, sangue de seu sangue. Isso só suja ainda mais sua péssima reputação.

Solte-o, Mateus.

Antes de largar o corpo do imbecil na cadeira, puxo ainda mais o

tecido de sua camisa. Ele fica vermelho, mas tenho certeza de que ele

consegue escutar minha ameaça:

— Minha vida não é de seu interesse ou domínio, não se atreva a

querer controlar tudo meu. Deixe sua inveja de lado e vá cuidar da sua

própria vida medíocre.

Então ele cai, desajeitado e fazendo barulho, como um grande saco de

batata sendo jogando no chão do alto de um caminhão. Em seguida, tosse

enquanto volto a ocupar minha cadeira.

Olho para o senhor Damião Ávila, que voltou para seu assento de rei,

e vejo sua expressão ainda mais dura do que quando me recebeu. Agora até

seus fios de cabelos estão fora do lugar, os olhos azuis estão escuros, devido

à fúria que o consome, e a boca é em linha fina, completando sua pose de

dono do mundo.

— Ouça o que vou lhe dizer, Mateus. — Até mesmo as palavras, ele

consegue deixar frias. — A dignidade é uma virtude que requer um alto valor

moral. Quem possui essa virtude, é coberto da coragem necessária para ser

firme e seguro na formação de opiniões. Onde falta dignidade, não há honra.

Sem honra, não somos ninguém diante da sociedade. Para conseguir respeito

e confiança, é preciso trabalhar duro e batalhar todos os dias. Leva-se tempo

para conquistar, mas, para perder, precisa apenas de uma atitude errada. É

como diz o ditado: leva-se oito anos para erguer um prédio, mas basta

apenas 8 segundos para derrubá-lo. Você, meu filho, vem se derrubando dia

após dia. Eu simplesmente não posso deixar que você se destrua assim e nem

vou permitir que acabe com a dignidade conquistada pelos seus avós. Assim,

eu não vejo outra saída a não ser exigir que você limpe sua reputação e o

nome da família, ou deixe a empresa nas mãos de alguém que tenha mais

consideração e respeito pelo nome Ávila.

O silêncio domina toda o escritório por um momento. Então olho na

direção do meu primo, que já exibe um sorriso vitorioso, pois ele bem sabe

que é o próximo na linha de sucessão. Mas não tenho muita chance para

decidir qual dente arrancarei de Eduardo, pois as exigências e condições de

Damião Ávila ainda não tinham acabado.

— E a única alternativa que vejo para você ganhar novamente a

credibilidade da sociedade é ter uma mulher respeitável ao seu lado. Digna,

de boa fama, sem casos amorosos antigos para que a imprensa não encontre

escândalos em seu passado que manchem o relacionamento de vocês. Uma

moça casta, de preferência. Você precisa ter responsabilidade e que criar sua

própria família, por isso, sua única opção é se casar. Você precisa de uma

esposa. Uma esposa virgem.

— O QUÊ?

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