
A Esposa, Sua Sentença de Morte
Capítulo 2
Os analgésicos finalmente fizeram efeito, me arrastando para um sono pesado e sem sonhos na superfície grudenta do bar. Quando cambaleei para casa horas depois, a casa estava escura. Desabei no sofá, exausto demais para chegar ao quarto.
Eleonora chegou por volta das 2 da manhã. Ela se moveu silenciosamente, uma sombra na luz da lua que se filtrava pelas grandes janelas. Ela me viu no sofá e se aproximou, puxando gentilmente um cobertor sobre mim.
"Júlio, você deveria ter ido para a cama", ela sussurrou, sua mão afastando o cabelo da minha testa.
Por um momento, o gesto pareceu real. Foi um eco doloroso de como ela costumava ser, de como eu pensei que ela era. Um lampejo de calor, rapidamente extinto pela verdade fria.
Ela sempre fora uma esposa perfeita na superfície. Lembrava-se das minhas comidas favoritas, comprava-me materiais de arte caros que eu não usava mais e sempre, sempre apresentava uma frente unida em público.
Ela era atenciosa. Ela era gentil. Ela era uma atriz brilhante.
Eu costumava pensar que esses pequenos gestos eram amor. Eu os valorizava, colecionava-os como tesouros. Agora eu sabia que eram apenas parte de sua performance. Pagamentos pela dívida que ela sentia que me devia.
A chegada de Henrique em nossas vidas havia estilhaçado a ilusão. Sua presença a fez derrubar a máscara, revelando o cálculo frio por baixo.
"Você está se sentindo bem?", ela perguntou, sua voz tingida com uma irritação fraca, quase imperceptível. "Você parece pálido."
Eu não abri os olhos. "Apenas cansado."
"Você não pode estar 'apenas cansado', Júlio", disse ela, seu tom endurecendo. "Temos o brunch com a imprensa amanhã. Você precisa parecer apresentável. Não dificulte as coisas."
Um aviso. Uma ordem. Continue com a farsa.
"Eu tenho seu presente de aniversário", disse ela, sua voz suavizando novamente, tentando soar doce. Ela deixou cair uma pequena caixa de veludo no meu peito. "Espero que goste."
Esperei até ouvir seus passos subindo as escadas antes de abrir os olhos. Peguei a caixa. Dentro, aninhado no veludo, havia um único brinco de diamante. Apenas um. Fiquei confuso por um segundo.
Então a porta da frente se abriu.
Henrique Castilho entrou como se fosse o dono do lugar.
E em seu lóbulo esquerdo, piscando na luz fraca, estava o pino de diamante correspondente.
O ar me faltou. O presente não era para mim. Era algo compartilhado entre eles. Eu estava recebendo a sobra, a peça de segunda mão. Um símbolo do meu lugar na vida dela. Um pensamento tardio.
Lembrei-me do dia do nosso casamento. Uma cerimônia pequena e tranquila no cartório. Ela me prometeu a eternidade. Ela prometeu me proteger. Agora ela estava me dando os restos de seu amante.
Uma onda de náusea me invadiu, e a dor na minha lateral voltou com força total.
"Ora, ora, veja o que temos aqui", disse Henrique, caminhando até o sofá. Ele parou sobre mim, um sorriso presunçoso no rosto. Ele acenou para a cozinha. "Eleonora diz que você faz um omelete fantástico. Estou com um pouco de fome."
Ele estava desempenhando o papel do homem da casa. Da minha casa.
"Não", eu disse, minha voz mal um sussurro.
O sorriso de Henrique se alargou. Ele se virou para Eleonora, que havia descido novamente. "Lili, querida, seu marido está sendo rude. Eu só pedi uma coisinha para comer." Ele fez beicinho, um gesto infantil e manipulador.
O rosto de Eleonora endureceu enquanto ela olhava para mim.
"Júlio, não seja infantil", ela retrucou. "Henrique é nosso convidado. Vá fazer um omelete para ele."
A ordem era absoluta. O olhar em seus olhos me disse que não havia espaço para discussão. Ela havia escolhido. Ela sempre o escolheria.
Senti um cansaço profundo se instalar em meus ossos. Estava cansado de lutar, cansado da dor, cansado da humilhação.
Lentamente, levantei-me do sofá e fui para a cozinha. Minhas mãos tremiam enquanto eu pegava os ovos e a frigideira. Eu me sentia como um servo em minha própria casa.
Enquanto eu cozinhava, minha mão escorregou. A frigideira quente bateu no fogão, espirrando óleo escaldante por todo o meu braço. Eu gritei, um grito agudo de dor.
Eleonora e Henrique entraram correndo.
Mas Eleonora passou por mim. Ela foi direto para Henrique, suas mãos esvoaçando sobre ele.
"Henrique, você está bem? Você se queimou?", ela perguntou, sua voz cheia de pânico.
Henrique, que estava a vários metros de distância e completamente ileso, agarrou o braço dramaticamente. "Acho que um pouco espirrou em mim, Lili. Está ardendo."
Ela nem sequer olhou para mim. Não viu a pele vermelha e empolada no meu braço. Não viu a dor em meus olhos.
Ela se preocupou com Henrique, de costas para mim, mimando e verificando seu braço perfeitamente bem. "Oh, meu pobrezinho. Vamos colocar um pouco de gelo nisso."
Ela o levou para fora da cozinha, o braço em volta da cintura dele, guiando-o como se ele fosse o único que estava realmente ferido.
Fui deixado sozinho, de pé no meio da cozinha, meu braço queimado latejando. O cheiro de ovos queimados enchia o ar.
Lembrei-me de sua promessa, sussurrada em um quarto de hospital anos atrás. *Eu sempre vou te proteger, Júlio. Sempre.*
A memória era apenas mais uma mentira.
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