
A Esposa, Sua Sentença de Morte
Capítulo 3
Dirigi até uma UPA 24 horas. As luzes fluorescentes eram duras, fazendo o mundo parecer cru e feio. A queimadura no meu braço era feia, uma mancha vermelha desagradável já formando bolhas.
A enfermeira que me atendeu foi gentil. Ela estalou a língua enquanto limpava a ferida.
"Essa foi feia", disse ela. "Sua esposa deve estar morrendo de preocupação."
"Ela tinha uma reunião cedo", menti, as palavras com gosto de cinzas. "Ela não pôde vir."
A enfermeira me deu um olhar simpático. Ela não acreditou em mim, mas era profissional demais para dizer algo.
Enquanto ela enfaixava meu braço com gaze, eu os ouvi. Suas vozes vinham do corredor. Eleonora e Henrique. Devem tê-lo trazido aqui por causa de sua "terrível queimadura".
"É só uma marquinha vermelha, Henrique", dizia Eleonora, seu tom uma mistura de exasperação e afeto. "Você é um bebê chorão."
"Mas dói, Lili", ele choramingou. "Dá um beijinho pra sarar."
Lili. Um apelido. Em dez anos, ela nunca me chamou de nada além de Júlio. Nunca um termo de carinho. Nenhuma vez.
A queimadura no meu braço não era nada comparada à dor excruciante que me atravessou então. Eu era um tolo. Um completo e absoluto tolo. Eu havia construído minha vida sobre a fundação da gratidão de uma mulher, confundindo-a com um palácio de amor. Era apenas uma cabana, e as paredes estavam desmoronando.
Eu não merecia o amor dela. Essa era a verdade fria e dura. Eu não era do mundo dela. Não era feito do mesmo material.
Não consegui encará-los. Murmurei meus agradecimentos à enfermeira, paguei em dinheiro e fugi da clínica, meu braço latejando, meu coração em pedaços.
Quando cheguei em casa, Eleonora estava me esperando, de braços cruzados, o rosto uma máscara de raiva.
"Onde você esteve?", ela exigiu.
"Na UPA", eu disse, levantando meu braço enfaixado.
Seus olhos piscaram para a gaze, e por uma fração de segundo, eu vi algo - um lampejo de culpa, talvez. Desapareceu tão rápido quanto apareceu.
"O braço do Henrique mal estava vermelho", eu disse, a amargura afiada na minha voz. "Mas você correu com ele para o hospital."
"Pare com isso, Júlio!", ela retrucou. "Você está só fazendo birra. Henrique é sensível! Ele não é como você. Ele é importante para mim, e é importante para a minha carreira. Você precisa entender isso e ser gentil."
Ela estava me dizendo para aceitar o caso dela. Para ser um marido bom e compreensivo enquanto ela dormia com outro homem. Para colocar as necessidades dela, a carreira dela, o amante dela, antes da minha própria dignidade.
Meus olhos arderam, mas me recusei a chorar na frente dela.
Eu estava olhando para a mulher que amava, a mulher para quem eu havia dado tudo, e finalmente a estava vendo. Fria. Calculista. Egoísta. Ela não era o anjo que eu havia imaginado. Era apenas uma política.
"Em breve", sussurrei, tão baixo que não tinha certeza se havia dito em voz alta. "Em breve, estarei livre."
"O que foi que você disse?", ela perguntou, distraída.
"Nada."
Ela suspirou, a raiva se esvaindo, substituída por um cansaço performático. "Olha, me desculpe. Vamos para a casa de praia amanhã. Só nós dois. Podemos relaxar."
No dia seguinte, na casa de praia em Angra dos Reis, o "nós dois" incluía Henrique.
Ele e Eleonora estavam brincando nas ondas, rindo, agindo como um casal em lua de mel. Eu sentei na areia, um livro no colo que não conseguia ler. Eu não sabia nadar, um fato que Eleonora conhecia bem. Era outra maneira de me excluir, de me deixar à margem da vida perfeita deles.
Eles eram um par perfeito. Dourados, lindos e cruéis.
Eleonora recebeu uma ligação e subiu a praia para atendê-la, me deixando sozinho com ele. Henrique saiu da água, a água escorrendo de seu corpo perfeitamente esculpido.
"Se sentindo excluído, Barros?", ele zombou, sentando-se na areia ao meu lado. "Não se preocupe. Eu te ensino a nadar."
Antes que eu pudesse reagir, ele me agarrou. Ele era surpreendentemente forte. Ele me arrastou para a água, ignorando minhas tentativas de me soltar.
"Relaxa", ele sibilou no meu ouvido. "É fácil."
Então ele afundou minha cabeça na água.
O pânico me dominou. A água encheu meu nariz, minha boca. Meus pulmões ardiam. Eu me debati descontroladamente, mas sua mão era como um torno na parte de trás do meu pescoço. O mundo ficou escuro e silencioso.
Justo quando pensei que ia morrer, ele me puxou para cima. Eu tossi e engasguei, ofegando por ar.
Ele estava rindo. "Viu? Não é tão difícil."
Ele me afundou de novo. A queimação, o pânico, a escuridão. Ele estava brincando comigo. Me afogando lentamente.
Ele me puxou para cima novamente, seu rosto a centímetros do meu. "Você realmente acha que ela se importa se você vive ou morre?", ele sussurrou, sua voz cheia de veneno. "Ela está aliviada. Você é um fardo do qual ela pode finalmente se livrar."
Uma parte de mim, uma parte estúpida e teimosa, se recusou a acreditar nele. Ela não podia ser tão cruel. Não podia.
"Vamos descobrir", disse Henrique, como se lesse minha mente. Ele sorriu, um sorriso verdadeiramente maligno. "Vamos apenas esperar e ver."
Ele me segurou ali, minha cabeça logo acima da água agitada, enquanto esperávamos Eleonora terminar sua ligação.
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