
A Esposa Que Nunca Amou
Capítulo 2
Nos dias que se seguiram, continuei a desempenhar o papel de esposa e mãe perfeita. Eu cozinhava, limpava, sorria. Mas o olhar de Heitor ficava mais frio a cada dia que passava. Era inquietante, como se ele estivesse calculando algo.
Uma noite, depois de colocar Luísa na cama, ele me chamou em seu escritório. O cômodo estava escuro, o ar pesado com o cheiro de charutos e livros velhos. Ele estava perto da janela, várias bitucas de cigarro já empilhadas no cinzeiro ao lado dele. Ele olhava para as luzes da cidade, de costas para mim.
Quando se virou, sua expressão era inesperadamente suave, quase gentil.
— Cristal — disse ele, com a voz baixa. — Acho que é hora de eu te dar sua liberdade.
Minha respiração falhou. Minhas mãos, apoiadas nas costas de uma poltrona de couro, tremeram involuntariamente. Eu ouvi direito?
Ele sorriu, uma curva lenta e deliberada de seus lábios. Ele caminhou em minha direção, seus movimentos sem pressa, e gentilmente afastou uma mecha de cabelo do meu rosto.
— Alana está grávida — ele confirmou, seu toque estranhamente terno. — E o filho é meu.
Meu coração era uma tempestade furiosa, mas mantive a cabeça baixa, o olhar fixo no assoalho polido. Eu não podia mostrar a ele a onda de esperança inesperada que ameaçava me dominar. Não podia deixar que um único brilho de alegria me traísse.
Lembrei-me dos primeiros dias do nosso casamento, minhas tentativas fúteis de escapar. Eu havia fugido inúmeras vezes, apenas para ser arrastada de volta por ele. Cada vez, seus olhos estavam injetados de sangue, aterrorizantes.
— Ainda planejando fugir, Cristal? — ele sussurrava, sua voz tingida de uma diversão cruel.
Sua mão sempre encontrava meu pescoço, pousando ali levemente, uma ameaça silenciosa. — Fique ao meu lado, e talvez, só talvez, um dia eu te deixe ir.
Essas memórias passaram pela minha mente, um rolo sombrio de medo e submissão. Eu não podia confiar em suas palavras. Não completamente.
Mas o pensamento de deixá-lo, a simples possibilidade disso, era como um broto frágil rompendo a terra árida. Era uma esperança minúscula e hesitante.
— Você... você pode mesmo me deixar ir? — ousei perguntar, minha voz mal um sussurro.
Seu sorriso permaneceu, mas o calor sumiu de seus olhos. Eles se tornaram frios, duros. Eu não sabia o que tinha dito para irritá-lo.
Ele bateu a mão na mesa, o som ecoando pela sala silenciosa. Meu corpo se encolheu. Ele agarrou meu braço, arrastando-me bruscamente em direção à mesa. Sua voz, um rosnado baixo, era um sussurro demoníaco em meu ouvido.
— Eu não posso te deixar ir, Cristal. Nunca. — Seu aperto se intensificou, uma manifestação física de seu controle sufocante sobre mim.
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