
A Esposa Que Ele Deixou Morrer Afogada
Capítulo 2
Ponto de Vista de Cristiano Mendonça:
Um medo primitivo, frio e agudo, tomou conta de mim no momento em que Alessandra saiu. Suas palavras, seus olhos, sua calma arrepiante – tudo estava errado. Eu achava que a conhecia, que sabia como ela reagiria. Não era isso. Ela estava quieta demais, composta demais. Perigosa demais.
"Alessandra!", chamei, passando pela equipe médica atônita. "Espere!"
Eu a alcancei quando ela chegou à entrada principal do hospital. Suas costas estavam retas como uma vara, sua cabeça erguida. Ela se movia com uma graça estranha e antinatural, como uma boneca de porcelana com a corda muito apertada. Ela estava indo direto para Giselle, que estava sendo levada em uma cadeira de rodas por uma enfermeira, seu rosto pálido e manchado de lágrimas. Giselle viu Alessandra, e um gemido escapou de seus lábios.
Meu sangue gelou. Proteger Giselle. Esse era o único pensamento em minha cabeça.
"Alessandra, não se atreva", eu rosnei, minha voz crua de aviso. Minha mão disparou, agarrando seu braço, mas ela se livrou com uma força surpreendente, estremecendo apenas levemente com o contato em seu ombro ferido.
"Volte para dentro!", ordenei, meu tom não admitindo discussão.
Minha equipe de segurança pessoal, sentindo a mudança em meu comportamento, imediatamente se moveu para cercar Giselle, formando uma barreira protetora. O treinamento deles entrou em ação, uma máquina silenciosa e eficiente. Mas Alessandra não era uma ameaça que eles entendiam. Ela era uma de nós. Ou tinha sido.
Eu observei, meu coração batendo um ritmo frenético contra minhas costelas, enquanto Alessandra, em vez de atacar ou gritar, simplesmente estendeu a mão e pegou a taça de champanhe da mão trêmula de Giselle. Ela nem sequer olhou para Giselle. Seus olhos, desprovidos de qualquer emoção que eu pudesse decifrar, estavam em mim. Um sorriso fraco, quase imperceptível, brincava em seus lábios.
Uma onda de fúria impotente me invadiu. Ela estava zombando de mim. Ela estava jogando um jogo que eu não entendia. Eu a subestimei. De novo.
Ela viu, o brilho do instinto protetor e cru em meus olhos. O instinto protetor que sempre fora reservado para Giselle. Alessandra riu então, um som baixo e gutural que me deu arrepios. Não era uma risada de diversão, mas de puro e absoluto desprezo.
Ela entende, uma voz sussurrou em minha cabeça. Ela sabe que você sempre vai escolher a Giselle. Sempre.
Eu a observei, um nó de pavor se apertando em meu estômago. Ela era uma mulher diferente agora. A mulher que sempre fora minha rocha, minha sombra, minha protetora leal... ela se fora. Em seu lugar havia algo afiado, desconhecido e aterrorizante. Ela finalmente tinha visto através da minha fachada, talvez até através do meu próprio autoengano. Quando levado ao limite, eu sempre deixava a máscara cair. Minhas verdadeiras prioridades, minhas verdadeiras lealdades, estavam expostas.
Ela tomou um gole longo e lento do champanhe, seu olhar ainda fixo no meu. O líquido borbulhante pareceu queimar sua garganta. Ela tossiu, um som pequeno e engasgado, mas não quebrou o contato visual.
Então, ela se virou para a multidão de paparazzi e socialites reunidos. Sua voz, embora ainda um pouco rouca, era clara e cortante. "Senhoras e senhores", ela anunciou, um sorriso largo e perturbador dividindo seu rosto. "Permitam-me apresentar Giselle. Minha querida... irmã." A palavra pairou no ar, pingando sarcasmo. "O presentinho do Cristiano para mim, por todo o meu trabalho duro."
Uma onda de choque percorreu a multidão. Murmúrios surgiram, sussurros de escândalo e especulação. As pessoas trocaram olhares desconfortáveis, seus olhos indo de mim para Giselle, e depois de volta para Alessandra. Eu podia sentir o calor subindo em meu rosto. Os sussurros ficaram mais altos, mais ousados.
"Lembra quando ela o salvou daquela tentativa de sequestro em Mônaco?", ouvi uma socialite sussurrar. "E o acidente de carro em Campos do Jordão? Ela sempre esteve lá para o Cristiano."
"É um assunto de família", outra interveio rapidamente, puxando a amiga para longe. "Melhor não se envolver."
Mas era tarde demais. O estrago estava feito. Alessandra, aparentemente alheia aos rumores que circulavam, caminhou lentamente em direção a Giselle. Giselle, com o rosto uma máscara de confusão e medo, agarrou o braço da enfermeira. Alessandra enfiou a mão no próprio bolso, tirando uma pequena caixa de veludo.
"Aqui, Giselle, querida", disse Alessandra, sua voz enjoativamente doce. Ela abriu a caixa, revelando o grande anel de diamante com lapidação esmeralda que eu lhe dera em nosso "noivado" – aquele que ela pensava simbolizar nosso futuro. Uma joia da família Mendonça. "Um presentinho para você se lembrar deste dia. Um símbolo do... seu lugar aqui."
Os olhos de Giselle se arregalaram, um brilho de desejo ganancioso substituindo seu medo. Ela estendeu a mão, seus dedos tremendo enquanto pegava o anel. Ela o encarou, hipnotizada.
"Alessandra! O que você está fazendo?!", minha voz era um rugido, cheia de uma mistura de raiva e humilhação. Aquele anel... era meu. Era para solidificar minha posição.
Ela se virou para mim, seus olhos brilhando. "Ora, Cristiano, você não deveria estar orgulhoso? Estou compartilhando! Não estou sendo uma boa esposinha?" Ela piscou os cílios, uma paródia grotesca do charme inocente de Giselle. Então, seus olhos se estreitaram. "Ou talvez você não goste quando eu decido o que dar?"
A dor em meu ombro, intensificada pelo movimento inesperado, enviou uma nova onda de náusea através de mim. Minha visão turvou. Eu tropecei para trás, agarrando-me à parede para me apoiar.
A mão de Cristiano disparou, agarrando meu braço novamente. Seu aperto era firme, quase desesperado. "Alessandra, vamos. Você precisa comer." Um brilho de preocupação genuína, ou talvez apenas um desejo de controlar a narrativa, cruzou seu rosto.
Eu puxei meu braço. "Você ainda está bancando essa farsa, Cristiano?", minha voz era plana, desprovida de emoção. "É exaustivo."
Nesse momento, um grito agudo de Giselle quebrou o silêncio tenso. "Cristiano! Minha mão! Está sangrando!"
Minha cabeça se virou para Giselle. Ela apontava para um arranhão minúsculo em seu dedo, seu rosto contorcido em dor exagerada. Toda a preocupação com Alessandra, com a cena que ela estava criando, desapareceu. "Giselle! O que aconteceu?" Corri para o lado dela, examinando a ferida minúscula como se fosse um ferimento mortal.
Eu peguei sua mão gentilmente, meu polegar fazendo círculos suaves em sua palma. "É só um arranhão, querida. Não se preocupe." Então, notei o elaborado coquetel de camarão na bandeja ao lado dela. "Você não comeu, não é? Aqui, deixe-me descascar isso para você." Comecei a descascar cuidadosamente um camarão, meu foco inteiramente nela.
Uma memória, nítida e indesejada, perfurou minha concentração. Anos atrás, depois que eu saí do hospital com um braço quebrado após uma tentativa de assassinato fracassada, Alessandra me pediu para descascar um camarão para ela. "Cristiano, minha mão ainda está um pouco fraca", ela dissera, um raro pedido de ternura. Eu olhei para ela, depois para o camarão, e de volta para ela. "Você é uma especialista em segurança, Alessandra. Consegue lidar com um camarão." As palavras, frias e desdenhosas, ecoaram em minha mente.
Agora, um nó se formou em minha garganta. Meu ombro latejava, uma dor surda e insistente que espelhava o vazio dentro de mim.
Mais tarde naquela noite, a cobertura estava sufocantemente silenciosa. Eu estava sentado no escritório escuro, um cigarro entre os dedos, a brasa um pequeno e feroz farol na penumbra. A fumaça, acre e picante, encheu meus pulmões, um conforto perverso. Ouvi a porta se abrir.
"Alessandra." A voz de Cristiano, surpreendentemente próxima, cortou o silêncio. Ele entrou, seus olhos se estreitando para a fumaça que se enrolava ao meu redor. "O que você está fazendo?" Ele arrancou o cigarro da minha mão, esmagando-o em um cinzeiro de cristal.
Eu simplesmente levantei uma sobrancelha. "Fumando, Cristiano. É o que as pessoas fazem quando estão... contemplando."
Ele estendeu um prato, cheio de comida. "Você precisa comer."
Meus olhos se arregalaram ligeiramente. Isso era inesperado. Um brilho de algo, curiosidade talvez, acendeu dentro de mim. "Para mim?"
Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos escuros. "A Giselle não conseguiu terminar. Muita coisa para o estômago delicado dela." Ele jogou o coquetel de camarão meio comido na mesa com um baque.
Meu estômago, que roncara de fome momentos antes, se contraiu. A comida, antes uma potencial oferta de paz, agora parecia um insulto. Meu apetite desapareceu.
Ele então pegou meu maço de cigarros da mesa, junto com meu isqueiro. "Vamos parar juntos", ele declarou, sua voz firme. Ele foi até a janela, abriu-a e jogou ambos na noite dos Jardins sem pensar duas vezes.
"Parar?", perguntei, um sorriso amargo brincando em meus lábios. "Por que essa preocupação repentina com a minha saúde, Cristiano?"
Ele se virou para mim, seus olhos se suavizando quase imperceptivelmente. "É pela Giselle. Ela é sensível à fumaça. Afeta a respiração dela."
Uma nova onda de dor, mais aguda do que qualquer ferida, me atravessou. Meus olhos arderam, mas me recusei a deixar as lágrimas caírem. Lembrei-me de anos atrás, depois de uma missão particularmente brutal, eu comecei a fumar muito. Cristiano notou. "Alessandra, pare com isso", ele ordenara. "É um mau hábito." Ele não se importou com minha saúde então. Ele simplesmente não gostava do cheiro. Não houve preocupação gentil, nenhum "vamos parar juntos". Apenas uma ordem.
Meu celular, sobre a mesa, vibrou. Uma nova mensagem. Uma confirmação de voo. Minha fuga.
Eu rapidamente o alcancei, com a intenção de esconder a tela. Tarde demais. Os olhos de Cristiano já haviam se voltado para o celular. "O que é isso?", ele perguntou, sua voz tingida de suspeita. Sua mão se estendeu.
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