
A Esposa Que Ele Deixou Morrer Afogada
Capítulo 3
Ponto de Vista de Alessandra Mattos:
Eu rapidamente afastei meu celular, meu coração martelando no peito. O olhar de Cristiano, afiado e questionador, me perfurou. Ele deu um passo mais perto, sua mão ainda estendida.
"Não é nada", eu disse, minha voz cuidadosamente neutra. Eu precisava distraí-lo, rápido. Olhei para a porta do escritório. "Escute", murmurei, um toque de algo em minha voz que o fez virar a cabeça em direção ao corredor, "Giselle."
Sua atenção se desviou do meu celular para a porta, sua postura mudando instantaneamente, todos os sentidos em alerta. Nesse momento, Giselle apareceu, envolta em um roupão de seda, seu cabelo uma bagunça cuidadosamente desarrumada. Seus olhos estavam arregalados, cheios de lágrimas não derramadas.
"Cristiano", ela choramingou, sua voz mal um sussurro. "Minha cabeça dói. E minha perna... está doendo tanto." Ela se apoiou pesadamente no batente da porta, fingindo um desequilíbrio.
Cristiano estava instantaneamente ao seu lado, sua suspeita anterior sobre mim completamente esquecida. "O que há de errado, querida? Você está bem?" Sua voz, tantas vezes fria e imponente, agora estava tingida de terna preocupação. Ele a envolveu com um braço, apoiando sua estrutura frágil.
Eu observei, um gosto amargo na boca. Então era por isso que ele muitas vezes estava "indisponível", por que às vezes desaparecia por dias sem dizer uma palavra. Ele estava bancando o cavaleiro sempre protetor para a donzela em perigo de Giselle. A percepção foi um baque surdo no meu peito. Ele passava as noites acalmando as dores imaginárias dela, enquanto eu...
Minha mente voltou para uma noite, anos atrás. Uma chuva torrencial. Eu liguei para ele, minha voz tremendo. "Cristiano, preciso de você. Estou ferida." Eu estava sangrando, sozinha, em uma vala na beira da estrada após uma operação de segurança mal sucedida. Sua voz tinha sido seca. "Alessandra, estou ocupado. Resolva. Você é forte." Fiquei lá por horas, encharcada e com dor, até que um dos meus próprios homens me encontrou.
Ainda mais para trás, para a pior noite da minha vida. A noite em que perdi nosso filho. Eu estava correndo para um local, um falso sequestro projetado para prender um de seus rivais. Eu estava grávida na época, uma alegria secreta que ainda não havia compartilhado com ele. A dor me atingiu como um golpe físico, lancinante e súbita. Eu liguei para ele, ofegante. "Cristiano, eu... algo está errado. Preciso ir para o hospital." Ele estava com Giselle na época, confortando-a após algum pequeno desprezo social. "Alessandra, você sabe o quão importante é esta operação. Não seja dramática. Preciso que você se concentre." No dia seguinte, acordei em um quarto branco e estéril, nosso filho se fora. Ele nem notou minha ausência até muito mais tarde. E eu, machucada e de coração partido, nunca lhe contei. Qual era o sentido? Ele não teria se importado então, e certamente não se importaria agora.
Uma sensação perversa de alívio me invadiu. Graças a Deus eu nunca contei a ele sobre o bebê. Teria sido apenas mais uma arma para ele desconsiderar, mais um pedaço da minha vulnerabilidade que ele poderia explorar.
A visão do toque gentil de Cristiano em Giselle, seus sussurros tranquilizadores, era mais do que eu podia suportar. Meu estômago se revirou. Eu precisava sair. Virei-me para sair, mas antes que pudesse dar um passo, Giselle soltou um suspiro teatral.
"Ah, não!", ela gritou, sua voz tingida de pânico. Ela tropeçou, suas pernas cedendo sob ela. Com um floreio dramático, ela desabou no chão bem na minha frente, agarrando o joelho. "Minha perna! Cristiano, minha perna!"
Cristiano, seu rosto uma máscara de fúria primitiva, me empurrou para o lado com força brutal. Meu ombro ferido gritou em protesto, uma dor fresca e lancinante rasgando os pontos. Eu engasguei, caindo de joelhos enquanto a ferida se abria, o sangue quente encharcando meu vestido novamente.
"Alessandra!", Cristiano rugiu, seus olhos brilhando com uma luz perigosa. "O que você fez?! Como ousa tocar nela?!" Ele nem me lançou um olhar, seu foco inteiro em Giselle, que agora chorava dramaticamente.
"Eu não toquei nela", eu engasguei, minha voz crua de dor e indignação. "Ela caiu de propósito! Verifique as câmeras de segurança, Cristiano!"
Giselle, ainda no chão, conseguiu um sorriso fraco e açucarado por entre as lágrimas. "Oh, Cristiano, está tudo bem. Alessandra provavelmente não quis. Ela está apenas... chateada." Suas palavras, pingando falsa magnanimidade, torceram a faca mais fundo.
"Chateada?!", a voz de Cristiano era afiada. "Você acha que chutar a perna dela é estar 'chateada', Giselle?" Ele voltou seu olhar ardente para mim. "Eu vi o que você fez, Alessandra. Não negue."
Meus ombros caíram. O esgotamento era avassalador. Qual era o sentido? Ele nunca acreditaria em mim. Ele já havia se decidido. Olhei para a mancha escura florescendo em meu vestido, um lembrete gritante de sua indiferença.
Ele então pegou Giselle nos braços, carregando-a como se fosse feita de vidro soprado. Ao passar por mim, ainda ajoelhada no chão, seus olhos encontraram os meus. Eram frios, duros e totalmente desprovidos de qualquer coisa que se assemelhasse ao homem que eu um dia amei.
"Nem pense em sair desta casa, Alessandra", ele rosnou, sua voz um sussurro baixo e perigoso. "Não até eu dizer. Eu não terminei com você."
O som de seus passos desapareceu pelo corredor, deixando-me sozinha no opulento e vazio escritório. A dor em meu ombro era um rugido surdo agora, mas a dor em meu peito era muito pior.
"Sra. Mattos!", a Sra. Guedes, a gentil governanta, entrou correndo, seu rosto marcado pela preocupação. "Seu ombro! Você está sangrando de novo! Precisamos levá-la ao hospital!"
Nesse momento, meu celular tocou. Eu o peguei, meus dedos desajeitados de dor. Era um número restrito. Atendi, meu coração afundando ainda mais.
"Sra. Mattos, é sobre seu pai. Os médicos dizem que a condição dele é... instável. Ele está perguntando por você." A voz clínica do outro lado da linha deu a notícia com um distanciamento arrepiante.
Meu pai. O homem que me vendeu, metaforicamente e quase literalmente, para Cristiano. O homem que foi a fonte de tanto do meu trauma de infância. Justo quando eu pensei que as coisas não poderiam piorar. "Eu estarei aí", eu disse, minha voz plana. Meus planos de fuga, para André, teriam que esperar.
A viagem para a clínica de repouso foi um borrão de dor e raiva fervente. As paredes brancas e estéreis de seu quarto espelhavam a frieza do meu coração. Ele estava lá, uma sombra pálida e murcha do homem que um dia me aterrorizou.
"Alessandra", ele ofegou, seus olhos se abrindo. "Você veio." Uma lágrima manipuladora rolou por sua bochecha. "Minha filha. Minha única família."
"Não", eu retruquei, minha voz desprovida de calor. "Não finja, pai. Você nunca se importou."
"Mas eu me importei! Eu sempre me importei!", ele insistiu, estendendo uma mão trêmula. "Sua mãe... ela teria querido que fôssemos uma família."
"Não se atreva a mencionar o nome dela", eu sibilei, meu corpo tremendo com uma raiva súbita e violenta. "Você não merece falar dela."
Ele pareceu assustado, então seus olhos se estreitaram. "Você é igual a ela. Teimosa. Ingrata." Ele avançou, uma explosão surpreendente de força em sua estrutura frágil. Meus olhos se arregalaram em choque quando um brilho de metal reluziu em sua mão. Um pequeno e ornamentado abridor de cartas. Ele o balançou descontroladamente, um ataque desesperado e patético.
Eu reagi por instinto, anos de treinamento entrando em ação. Desviei seu braço, mas a lâmina afiada ainda cortou meu pulso, uma nova linha de dor se juntando à dor latejante em meu ombro.
"Peguem-no!", gritei, enquanto os enfermeiros entravam correndo, subjugando-o com eficiência praticada. Uma enfermeira rapidamente administrou um sedativo, e ele caiu de volta na cama, seus olhos revirando na cabeça.
Minha mão pingava sangue no chão branco e imaculado. O corte era superficial, mas o choque de sua traição, de sua tentativa desesperada de me machucar, me abalou profundamente. O enfermeiro, vendo minha mão trêmula, confundiu com medo. "Você está bem, Sra. Mattos? Ele não a machucou muito, não é?"
Meu olhar caiu para o chão, onde o abridor de cartas estava. Era de prata, primorosamente esculpido. Eu já o tinha visto antes. Na mesa de Cristiano. Foi um presente meu, anos atrás, um símbolo do meu afeto tolo. Um presente que eu lhe dera.
Uma risada oca me escapou. As pessoas mais próximas de você. Elas sempre sabem como te machucar mais.
Você pode gostar





