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Capa do romance A Esposa Que Ele Deixou Morrer Afogada

A Esposa Que Ele Deixou Morrer Afogada

Alessandra sempre foi o escudo de Cristiano, chegando a levar um tiro por ele. No entanto, sua lealdade é paga com desprezo quando ele escolhe salvar Giselle de um iate prestes a explodir, abandonando a esposa à própria sorte. Após perder um filho em segredo e anos de sacrifícios silenciados, ela recebe a ordem de desarmar a bomba. Exausta de ser descartável, Alessandra decide não obedecer. Ela forja sua morte no mar para finalmente se libertar e recomeçar sua vida.
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Capítulo 1

Levei um tiro pelo meu marido, Cristiano. Como seu escudo leal, era meu dever, mas sua única preocupação, enquanto eu sangrava, era com sua frágil "irmãzinha", Giselle.

Dias depois, fomos sequestradas e presas em um iate com uma bomba. Os sequestradores deram a Cristiano uma escolha: ele só poderia salvar uma de nós.

Ele não hesitou.

"Salvem a Giselle primeiro!", ele gritou através da água.

Com ela a salvo, ele teve a audácia de me ordenar, a esposa que ele acabara de condenar à morte, que salvasse a todos nós.

"Alessandra, a bomba! Desarme! Agora!"

Depois de anos levando golpes por ele, depois de perder nosso filho em segredo enquanto protegia seus interesses, era esse o meu valor? Uma ferramenta descartável, para ser usada e jogada fora.

Eu encarei a luz vermelha piscando, os segundos passando. Desta vez, eu não o salvaria. Eu deixaria o mundo acreditar que eu estava morta e, finalmente, começaria a viver por mim mesma.

Capítulo 1

Ponto de Vista de Alessandra Mattos:

O mundo ao meu redor ficou em silêncio, aquele tipo de silêncio ensurdecedor que acontece logo após um tiro. Uma quietude estranha e pesada engoliu o baile de caridade, densa e sufocante. Meu corpo parecia uma boneca de pano rasgada, o sangue quente encharcando a seda do meu vestido, pintando o tecido caro de um carmesim grotesco. A pressão aumentava no meu peito, uma dor surda e insistente.

Cristiano estava lá, suas mãos me alcançando. Não com gentileza, não com a preocupação terna que eu ansiava, mas com uma urgência frenética, quase rude. Ele não me levantou; ele me ergueu, meu braço jogado sobre seu ombro largo. Seus movimentos eram muito bruscos, muito rápidos. Era menos um resgate e mais uma extração, como se eu fosse uma propriedade danificada que ele precisava proteger. Minha cabeça balançou contra ele, o cheiro de seu perfume caro e do meu próprio sangue enchendo minhas narinas.

"Leve-a para o carro, agora!", ele latiu, sua voz tensa como um fio de aço.

Enquanto ele ajeitava meu peso, meus olhos vislumbraram o caos ao nosso redor. Lustres de cristal ainda brilhavam, refletindo o pânico nos rostos da alta sociedade. Pouco antes de Cristiano bloquear completamente minha visão, meu olhar se fixou em uma figura familiar sendo levada por outro segurança. Giselle. Frágil, pálida Giselle, parecendo absolutamente aterrorizada. Meu estômago se contraiu, não de dor, mas de uma premonição doentia.

A adrenalina, uma companheira leal em inúmeras ameaças à segurança, pulsava em minhas veias. Ela me impediu de desmaiar completamente. O aperto de Cristiano se intensificou, seu foco totalmente em me mover, em me tirar de vista. Ele não estava olhando para o meu rosto. Ele não estava checando meu pulso. Ele estava apenas se movendo.

No breve momento em que ele parou para gritar ordens a um atendente perplexo, sua mão ainda apertando minha cintura, eu peguei meu celular da minha bolsa. Meus dedos, surpreendentemente firmes apesar dos tremores que percorriam meu corpo, voaram pela tela. Um nome. André. Eu disquei. Não tive tempo para uma conversa completa. Apenas uma mensagem rápida e desesperada.

"Iate. Mendonça. Preciso de reforços. Agora." Minha voz era um sussurro áspero, quase inaudível até para mim mesma.

A linha estalou. Uma voz familiar e calma, uma voz que sempre fora minha âncora, respondeu instantaneamente. "A caminho. Fique firme, Ale."

Um tremor minúsculo, quase imperceptível, percorreu meu corpo. Alívio, puro e potente. André. Sempre André.

Assim que uma maca apareceu, Cristiano reapareceu, seu rosto uma máscara de eficiência sombria. Seus olhos, geralmente tão afiados e calculistas, me avaliaram com uma análise desapegada. Ele não notou o celular que eu acabara de guardar na mão. A equipe médica, um borrão de jalecos brancos, me cercou, suas perguntas um zumbido abafado.

"O-negativo", disse uma delas, com uma nota de alarme na voz. "Ela é O-negativo. Isso é raro."

Um murmúrio baixo ondulou pelo pequeno grupo. Eu podia sentir o olhar de Cristiano em mim agora, um brilho de algo indecifrável. Preocupação? Irritação? Sempre foi difícil dizer com Cristiano.

"Graças a Deus o Sr. Mendonça sempre mantém um estoque à mão", outra médica interveio, sua voz tingida de admiração. "Tão proativo."

Uma risada estranha e oca borbulhou em minha garganta. Não era uma risada de verdade, mais como ar escapando de um pulmão perfurado. Cristiano mantinha um estoque. Para mim. O pensamento, uma faísca minúscula e frágil de esperança, acendeu em meu peito. Talvez, apenas talvez, ele se importasse. No fundo.

Meu olhar se desviou para onde Giselle estivera. Ela já tinha ido, levada embora, presumivelmente para um lugar seguro. Os olhos de Cristiano, notei, não estavam em mim. Eles estavam varrendo o espaço que Giselle havia ocupado, uma tensão ao redor de sua boca que falava de preocupação.

Então ele falou, sua voz extraordinariamente suave, um contraste gritante com os comandos secos que ele geralmente dava. "É para a Giselle. O tipo sanguíneo dela."

As palavras me atingiram com mais força do que a bala. A frágil faísca de esperança em meu peito vacilou e morreu, deixando para trás apenas um vazio gélido e desolador. Não era para mim. Nunca foi para mim. Meu corpo enrijeceu, um rigor mortis de emoção em todo o corpo. Forcei meu pescoço, uma dor excruciante atravessando meu ombro, para vislumbrar onde Giselle havia desaparecido. Provavelmente enrolada em caxemira, tomando chá quente, com os braços de Cristiano ao seu redor. Protegida. Sempre protegida.

A memória da voz de Cristiano, afiada e exigente, ecoou em minha mente. "Alessandra, você precisa ser mais forte. Mais resiliente. A Giselle, ela é delicada. Você entende." E eu sempre entendi. Eu era o escudo, aquela que levava os golpes. Giselle era a antiguidade premiada e frágil.

Uma enfermeira, com o rosto preocupado, iniciou um soro intravenoso. O líquido frio serpenteou em minhas veias, um eco arrepiante da frieza que acabara de se instalar em meu coração. O desespero, denso e sufocante, me envolveu.

Cristiano, para seu crédito, ficou ao meu lado por um tempo. Uma ocorrência rara, uma concessão. Ele até segurou minha mão, embora seu toque fosse distante, profissional. Ele olhava para o relógio a cada poucos minutos, sua mandíbula tensa.

"Você precisa descansar, Alessandra", aconselhou a médica, sua voz gentil, mas firme. "Repouso absoluto por pelo menos uma semana. Essa bala raspou uma artéria importante. Você tem sorte de estar viva."

Cristiano a ignorou. Ele se inclinou para mais perto, seu hálito um sussurro frio contra minha orelha. "A Giselle está... angustiada. Ela precisa se sentir segura. Sua presença, na cobertura, no jantar de hoje à noite, mostrará solidariedade. Tranquilizará a imprensa."

Meu olhar, que estava fixo no teto, lentamente se voltou para o rosto dele. "Solidariedade?", minha voz era um coaxar rouco. "Depois de tudo?"

Seus olhos, frios e inabaláveis, encontraram os meus. "A reputação dela é primordial. Mais importante do que seu... desconforto temporário."

Uma risada amarga me escapou. "Meu desconforto temporário? Cristiano, eu acabei de levar um tiro por você. E por ela." As palavras eram ácido na minha língua. "Minha vida é menos importante que a imagem pública da Giselle?"

Ele não vacilou. "Você sabe o seu papel, Alessandra."

Meu coração, já um pedaço congelado, se estilhaçou em um milhão de fragmentos de gelo. "Eu quero o divórcio." As palavras, sussurradas, carregavam o peso de anos de dor não dita.

Sua mandíbula se contraiu, um músculo saltando em sua bochecha. "Não seja ridícula. Não é hora para dramas." Sua voz era baixa, tingida de um aviso perigoso. "A Giselle precisa de você. Agora. Espero que você esteja pronta."

Eu o observei, minha visão embaçando. Ele ainda era o mesmo Cristiano. Tão implacável, tão frio. Tão alheio à profundidade da minha dor.

Uma enfermeira se aproximou com um pequeno copo de água e um comprimido. "Apenas algo para ajudar com a dor, Sra. Mattos. E, por favor, sem álcool."

Eu afastei a mão dela, meus olhos ainda fixos nos de Cristiano. "Está tudo bem", eu grasnei, minha voz soando impossivelmente cansada. Respirei fundo, um suspiro trêmulo. "Eu estarei pronta."

Um fantasma de sorriso, frio e zombeteiro, tocou meus lábios. Eu levantei a mão, tremendo levemente, e ajeitei a lapela de seu smoking impecavelmente cortado. Meu toque demorou por um momento, uma promessa silenciosa. "Mas Cristiano", eu disse, minha voz mal um sussurro, mas afiada o suficiente para cortar, "você não deveria confiar em ninguém que se diz tão frágil."

Com isso, me levantei da cama, ignorando a nova onda de dor que rasgou meu ombro. O quarto girou por um momento, mas me forcei a ficar de pé. Eu balancei, mas não caí. Eu não cairia. Não na frente dele. Virei as costas para Cristiano, meu vestido de seda grudando desconfortavelmente na minha ferida, e saí do quarto, deixando-o parado ali, em meio ao branco estéril. O baile, o tiroteio, o quarto do hospital – tudo era um borrão. Meu único foco agora era a tempestade se formando dentro de mim, uma tempestade que eu estava prestes a liberar.

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