
A Esposa Moribunda e a Farsa
Capítulo 2
Larissa POV:
Minha mãe sorriu para Silvana, os olhos brilhando. "Veja, Silvana, eu sempre disse que Larissa te amava. Ela só precisava de um empurrãozinho para mostrar o quão generosa ela é."
Silvana sorriu de volta, um sorriso doce que não alcançava seus olhos. "Sim, tia Lourdes. Larissa é a melhor."
A palavra "generosa" parecia uma facada. Eu não estava sendo generosa. Eu estava apenas cumprindo o que parecia ser o meu destino, o destino que eles haviam traçado para mim.
Meu pai, já mais calmo, pegou um documento de dentro da pasta. Era o contrato de transferência da MedeirosTech. Ele já estava pronto. Eles já esperavam por isso.
A caneta pesava na minha mão. Minhas digitais mancharam o papel. Cada traço da minha assinatura parecia levar um pedaço da minha alma.
Silvana observou cada movimento, um brilho nos olhos, um sorriso discreto. Quando o documento foi assinado e entregue nas mãos de meu pai, Silvana me olhou. Havia um triunfo inegável em seu olhar. Um brilho de satisfação cruel. Como se ela tivesse vencido um jogo, e eu fosse o prêmio.
Eu senti um vazio imenso. Não era apenas a perda da empresa, era a perda de um propósito, de uma identidade. Eu era Larissa Medeiros, fundadora da MedeirosTech. Agora, eu era apenas Larissa. Uma mulher moribunda, despojada de tudo.
"Filha," minha mãe disse de repente, a voz suave, quase acolhedora. Ela se aproximou, segurando um copo d'água. "Você parece pálida. Beba um pouco."
Eu a encarei. Aquela gentileza repentina era tão rara, tão desinteressada. Ou talvez não. Era interesse. Interesse em garantir que eu estivesse bem o suficiente para não causar mais problemas.
Será que eles iriam se arrepender quando eu não estivesse mais aqui? Quando o veneno terminasse seu trabalho e eu fosse apenas uma memória distante? Será que a culpa os consumiria, ou eles simplesmente me esqueceriam, ocupados com a nova vida que eu lhes havia dado?
Eu peguei o copo. A água estava fria. Refrescante. Mas não conseguia apagar a queimação dentro de mim.
Saí do escritório e, sem rumo, fui para casa. A casa que eu havia construído com Tomás, o lugar que deveria ser meu refúgio.
Aproximei-me da sala e ouvi risadas. Risadas alegres, despreocupadas. Lucas, meu filho, e Tomás. Eles estavam brincando no chão, rodeados de brinquedos. O som me atingiu como um murro no estômago.
Havia uma intimidade, um calor entre eles, que há muito tempo não se estendia a mim. Era uma cena perfeita de família feliz, exceto pela minha ausência.
Quando me viram, as risadas cessaram. O sorriso de Tomás desapareceu, substituído por uma expressão de leve irritação. Lucas, que estava prestes a correr para mim, hesitou, e depois se agarrou à perna do pai.
"O que você está fazendo em casa, Larissa?" a voz de Tomás era fria, quase acusatória. "Pensei que estivesse no escritório. É importante para a recuperação da Silvana que você esteja focada."
Silvana. Sempre Silvana. Ela era a desculpa para tudo.
Olhei para ele, para o meu marido. Ele estava preparando o jantar. O cheiro de alho e ervas flutuava no ar. Um guisado, eu reconheci. O favorito de Lucas.
Ele nunca cozinhava para mim. Sempre fui eu a preparar suas refeições, a cuidar da casa, a equilibrar a carreira e o lar. Mas agora, ele cozinhava. Para Lucas. Para si mesmo.
Especialmente para Silvana nas vezes em que ela vinha em nossa casa alegar que não estava bem.
"Eu sou sua esposa, Tomás," eu disse, a voz quase um sussurro. "Eu moro aqui."
Ele revirou os olhos. "Não seja dramática, Larissa. Você sabe o que eu quero dizer. Você deveria estar cuidando dos assuntos da empresa."
Eu me lembrei de todas as noites que passei trabalhando até tarde, dos sacrifícios que fiz pela nossa família. De como ele nunca me elogiava, nunca me agradecia. Apenas cobrava.
Eu não tinha mais forças para discutir. Não tinha mais nada para lutar.
"Tomás," eu disse, a voz suave, "Eu assinei a transferência da MedeirosTech para Silvana."
Ele piscou, a surpresa em seu rosto era evidente. "Você... você fez o quê?"
"Eu transferi a empresa para ela," repeti. "Para que ela tenha segurança financeira e um propósito." As palavras de meus pais ecoavam na minha cabeça.
Um sorriso lento e predatório se espalhou pelo rosto de Tomás. Não era um sorriso de felicidade por mim, mas de alívio. Alívio de que a "dramática" Larissa finalmente tinha cedido.
Ele se aproximou, e por um momento, pensei que ele me abraçaria. Me beijaria. Me diria que me amava.
Mas não. Ele pegou minhas mãos, seus olhos fixos nos meus, mas sem me ver. "Larissa," ele disse, a voz cheia de uma doçura forçada. "Eu sei que isso foi difícil para você. Mas é o certo a fazer. Para todos nós."
Ele apertou minhas mãos, e eu senti como as dele estavam frias em contraste com as minhas, que pareciam queimar por dentro.
"E pensando no que é certo para todos nós," ele continuou, "eu preciso te pedir uma coisa."
Meu coração afundou. Eu sabia o que viria. Eu sempre soube.
"Eu preciso me dedicar integralmente a apoiar Silvana em sua recuperação. Ela precisa de mim, Larissa. E eu não posso fazer isso enquanto estivermos... casados."
Ele soltou minhas mãos. O cheiro do guisado, antes reconfortante, agora me dava náuseas.
"Eu quero o divórcio," ele disse. "É temporário, claro. Apenas até Silvana se reerguer. Você entende, não é?"
Eu entendi. Eu entendia perfeitamente. Ele queria que eu me afastasse, para que ele pudesse brincar de herói para Silvana, sem o incômodo da esposa moribunda.
Lucas, que estava quieto até então, correu até Tomás e o abraçou. "Papai, a tia Silvana vai ficar boa agora, não vai?"
Tomás sorriu para Lucas. "Sim, meu filho. Ela vai. E nós vamos cuidar dela, não é?"
Lucas balançou a cabeça vigorosamente. Então, ele olhou para mim, seus olhos grandes e inocentes. "Mamãe, você vai para longe? Vai ser como a tia Silvana? Papai disse que ela está deprimida porque ninguém a ama."
As palavras de meu filho me atingiram com a força de um tsunami. Eles tinham envenenado não apenas meu corpo, mas a mente do meu próprio filho. Eles tinham me transformado na vilã da história, na que não amava, na que não se importava.
Minha visão embaçou. Eu não tinha mais lágrimas. Apenas um vazio doloroso, e um plano que se concretizava, em minha mente.
Eu não disse nada. Eu apenas assenti, um movimento quase imperceptível. Eles não precisavam de uma resposta verbal. Minha ausência bastaria.
"Ótimo," Tomás disse, o alívio claro em seu rosto. "Eu sabia que você entenderia. Eu marquei com a advogada para amanhã. Podemos resolver tudo rapidamente."
Ele não esperou por minha resposta. Virou-se para Lucas, com um sorriso forçado. "Lucas, por que você não vai ligar para a tia Silvana e contar as novidades? Tenho certeza que ela vai adorar."
Meu filho correu para o telefone, gritando empolgado: "Tia Silvana, a mamãe vai embora! Agora você pode ser a minha mamãe!"
Eu senti meu corpo vacilar. A dor física e a dor emocional se misturavam, tornando difícil distinguir uma da outra. Parecia que o veneno estava agindo mais rápido agora.
Tomás me segurou pelo braço, a expressão séria. "Larissa, você precisa concordar em assinar um documento final. É um ritual que a família da Silvana acredita que vai acelerar sua recuperação. É apenas algo simbólico, é claro. Para mostrar que você a apoia totalmente."
Um ritual. Para Silvana. Às minhas custas, como sempre.
"É apenas temporário," ele disse, seus olhos procurando os meus, buscando alguma confirmação, alguma aprovação. "Apenas até ela se sentir melhor."
Eu sabia que não seria temporário. Eu sabia que, para mim, nada seria temporário.
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