
A Esposa Indesejada Dele, Minha Nova Aurora
Capítulo 3
PONTO DE VISTA DE LAURA ALMEIDA:
Meus passos eram pesados, cada um um ato de desafio contra a dor no meu tornozelo e a dor mais pesada em minha alma. Agarrei os documentos legais, os papéis do divórcio, como um escudo. Meu destino era o escritório de Theo, seu santuário, um lugar que eu sempre tratei com uma deferência nascida do medo e de uma esperança desesperada por aceitação. Agora, era apenas mais um cômodo.
Ao me aproximar da porta fechada, um murmúrio baixo de vozes, depois uma risadinha suave, flutuou para fora. Isabela. Meu estômago se revirou. Eles estavam lá, ainda envoltos em sua bolha inconsciente de afeto equivocado. Um momento de hesitação. Uma parte pequena e tola de mim queria voltar, evitar este confronto final. Mas a lembrança do nojo de Theo, suas palavras cruéis, o sorriso triunfante de Isabela, solidificou minha resolução. Não. Isso acabava agora.
Levantei a mão para bater, mas antes que meus nós dos dedos pudessem se conectar, a porta se abriu. Theo estava lá, o rosto tenso, um músculo pulsando em sua mandíbula. Ele não se dera ao trabalho de se limpar da noite anterior, um raro lapso em sua meticulosidade habitual. Seus olhos, escuros e tempestuosos, varreram-me, demorando-se no leve tremor em minha perna machucada. Seu olhar não continha preocupação, apenas aborrecimento.
— O que você quer, Laura? — ele exigiu, a voz seca. Ele nem tentou esconder sua impaciência. — Você estava espionando?
— Não — eu disse, minha voz firme apesar do tremor em minhas mãos. Estendi os papéis. — Vim te entregar isso.
Ele olhou para a pilha de documentos, depois de volta para o meu rosto, um sorriso de escárnio torcendo seus lábios.
— Estou ocupado. Seja o que for, pode esperar. — Ele passou por mim, seu ombro batendo intencionalmente no meu, um claro sinal de desprezo.
— Não pode esperar, Theo — insisti, virando-me para encarar suas costas em retirada. — É importante.
Ele nem sequer parou. Seus passos recuaram pelo corredor, deixando-me parada sozinha, segurando o peso pesado de nosso casamento fracassado em minhas mãos.
Então, Isabela emergiu do escritório, seus olhos brilhando com alegria maliciosa. Ela usava uma das camisas brancas impecáveis de Theo, as mangas arregaçadas, suas pernas nuas aparecendo sob a bainha. Ela parecia a dona do lugar e, naquele momento, provavelmente sentia que era.
— Oh, o que é isso? — ela ronronou, arrancando os papéis de meus dedos dormentes. Ela examinou a primeira página, seus olhos se arregalando teatralmente. — Papéis de divórcio? Oh, Laura, coitadinha. Que dramática. Você realmente achou que o Theo se importaria? — Ela riu, um som agudo e tilintante que irritou meus nervos. — Ele já seguiu em frente. Você é apenas... um peso morto.
Minhas mãos se fecharam em punhos.
— Esses são documentos particulares, Isabela. Você não tem o direito de tocá-los.
Ela me ignorou, pegando uma caneta da mesa. Com um floreio, ela assinou seu nome, Isabela Ferraz, bem na linha de assinatura em branco destinada a Theo.
— Pronto — ela declarou, segurando os papéis. — Considere feito. Estou te fazendo um favor, na verdade. Theo só ia te manter por perto por aparências. Agora que estou aqui, ele não precisa mais de você.
Raiva, fria e pura, surgiu dentro de mim.
— Você acha que isso é um jogo?
Ela sorriu, jogando a cabeça para trás.
— Oh, é um jogo muito sério, querida. E eu estou ganhando. Vê esta casa? Esta vida? É tudo meu agora. Theo me ama. Ele faria qualquer coisa por mim. O que você já conseguiu dele? Migalhas? Frieza? — Ela se aproximou, sua voz baixando para um sussurro venenoso. — Você era apenas a substituta, Laura. A esposa conveniente. Eu sou a verdadeira.
— Você é uma fraude manipuladora — cuspi, minha voz tremendo de fúria contida. — Você o enganou.
Ela riu, um som áspero e feio.
— E o que você fez, Laura? Ficou se lamentando? Fez o papel de vítima? Você não conseguiu nem segurar seu próprio marido. Você é a verdadeira intrusa aqui, atrapalhando nossa história de amor.
Suas palavras me atingiram em cheio. Eu queria revidar, rasgar sua fachada cuidadosamente construída em pedaços. Mas antes que eu pudesse, Isabela balançou dramaticamente, seus olhos revirando.
— Oh! Sinto-me fraca! — ela gritou, agarrando o peito.
Meus instintos, ainda teimosamente enraizados na compaixão apesar de tudo, reagiram antes do meu cérebro. Estendi a mão para firmá-la. Mas era uma armadilha. O pé dela enganchou no meu, e ela caiu, me puxando junto. Rolamos pelo pequeno lance de escadas que levava do escritório ao corredor principal, um emaranhado de membros e tecido farfalhante. O impacto enviou uma dor lancinante através do meu tornozelo já machucado.
Isabela, com um suspiro teatral, caiu pesadamente sobre minha perna, seu peso moendo contra a articulação torcida. Um grito agudo escapou dos meus lábios.
Nesse momento, Theo irrompeu de volta no corredor, alertado pela comoção. Seus olhos se fixaram imediatamente em Isabela, que agora segurava a cabeça, soltando gemidos suaves. Ele nem sequer olhou para mim, amassada debaixo dela, meu rosto pálido de agonia.
— Isabela! Meu amor! Você está bem? — ele gritou, a voz cheia de terror. Ele a levantou gentilmente em seus braços, embalando-a como se fosse feita de vidro. Ele me lançou um olhar furioso, ainda deitada no chão. — Laura, o que você fez com ela? Sua tola ciumenta!
Ele passou correndo por mim, Isabela segura em seus braços, a cabeça aninhada em seu ombro. Ele não me dedicou um segundo olhar, um gemido fraco, quase imperceptível, escapando dos meus lábios. A equipe da casa, alertada pelo barulho, espiou de vários cômodos, seus rostos uma mistura de curiosidade e desprezo mal disfarçado. Ninguém se moveu para me ajudar. Eu era apenas a esposa descartada, o problema a ser ignorado.
Uma nova onda de dor me invadiu, suor frio brotando em minha testa. Meu tornozelo latejava, um martelo implacável contra o osso. Minha cabeça girava.
Momentos depois, Theo reapareceu na porta do escritório, o rosto ainda marcado pela preocupação, mas não por mim. Ele se abaixou, pegando cuidadosamente um delicado lenço que Isabela havia deixado cair. Ele o segurou com um toque quase reverente, dobrando-o com precisão.
A voz de Isabela, agora um pouco mais forte, veio do topo da escada.
— Theo, meu amor, você vem? Minha cabeça ainda dói, e eu preciso de você.
— Já vou, meu anjo — ele respondeu, o tom instantaneamente suave e terno. Ele olhou para mim, ainda no chão, seus olhos desprovidos de emoção. — Nem pense em tocar nisso. É da Isabela. — Ele ergueu o lenço, um símbolo de sua devoção equivocada, depois se virou e subiu as escadas, sua atenção totalmente na mulher que o esperava.
Deitada ali, uma mulher quebrada em um chão frio, eu entendi. Eu era menos que o lenço, menos que um item descartado. Eu era nada. Uma dor oca, mais fria que qualquer inverno, instalou-se em meu peito. Minhas mãos alcançaram meu telefone, a tela rachada pela queda. Com os dedos trêmulos, disquei o único número que sabia que atenderia, a única pessoa que realmente se importou. O advogado da minha avó.
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