
A Escolha de Ana Beatriz
Capítulo 2
Para provar a si mesma que não era fraca e dependente, Ana Beatriz dedicou cinco anos de sua vida a se tornar a melhor chef de confeitaria de São Paulo. Ela trabalhou incansavelmente, dia e noite, sacrificando feriados e fins de semana. Finalmente, seu esforço foi recompensado. A crítica a aclamou, e ela conseguiu o investimento para abrir seu próprio bistrô, um sonho que parecia impossível.
A inauguração estava marcada para a semana seguinte. O letreiro elegante com o nome "Doce Beatriz" já brilhava na fachada. Dentro, as mesas estavam postas, a cozinha impecável, e o cheiro de baunilha e chocolate pairava no ar, uma promessa de sucesso. Ana sentia uma felicidade que mal cabia no peito. Ela finalmente tinha conseguido. Sozinha.
Naquela noite, ela foi buscar seu noivo, Pedro, um renomado e influente crítico gastronômico, em um bar onde ele se encontrava com um amigo. Ao se aproximar da mesa, escondida pela penumbra e pelo barulho do ambiente, ela ouviu uma conversa que congelou seu sangue.
O amigo de Pedro perguntou, com um tom de zombaria: "Pedro, você vai mesmo se casar com a Ana Beatriz? Sério?"
A resposta de Pedro foi um balde de água fria, dita com um desdém que ela nunca tinha ouvido em sua voz.
"Claro que vou. Minha ex-namorada, a Clara, aquela influencer famosa, precisa de um chef para o novo reality show de gastronomia dela. O avô dela, um magnata da mídia, está me pressionando para reatar com ela. Casar com a Ana Beatriz é a desculpa perfeita para acalmar as coisas por um tempo. O velho vai me deixar em paz."
O amigo riu. "Você não tem medo que a Ana Beatriz descubra seu caso com a Clara e crie problemas? A mulher vai fazer um escândalo."
Pedro soltou uma gargalhada fria e arrogante. "De jeito nenhum. Aquela ali me ama demais, é uma idiota ingênua. Ela vai guardar meu segredo, pode apostar. E com aquela personalidade submissa dela, a Clara vai ficar segura. Ana Beatriz nunca faria nada para me prejudicar."
As palavras a atingiram com a força de um soco. Chocada, com o coração partido em mil pedaços, Ana Beatriz deu as costas e saiu do bar, cambaleando. A dor era tão intensa que ela mal conseguia respirar. Ela entrou no carro, desorientada, com as palavras cruéis de Pedro ecoando em sua mente. "Ingênua", "submissa", "idiota". As lágrimas embaçavam sua visão. Em um cruzamento, ela não viu o sinal vermelho. O som de uma buzina alta foi a última coisa que ouviu antes do impacto violento e da escuridão.
Quando acordou, o cheiro forte de hospital invadiu suas narinas. Sua cabeça doía. Ela se lembrava de seus pais, de sua amiga Isabela, de sua paixão pela confeitaria. Lembrava-se de tudo, exceto de um rosto, de um nome: Pedro. Havia um branco completo em sua memória sobre ele.
Enquanto se recuperava, seus pais ligaram. A voz de sua mãe era suave, mas firme. Eles haviam arranjado um casamento para ela em Minas Gerais, com o filho de um velho amigo da família. Um bom rapaz, de boa família. Era hora de voltar para casa, para longe da cidade que quase a matou.
Sem hesitar, Ana Beatriz pegou o celular. A decisão foi instantânea, uma certeza que brotou do fundo de sua alma confusa. Ela abriu o aplicativo da companhia aérea e reservou uma passagem só de ida para Minas Gerais. Para dali a sete dias.
De volta ao seu apartamento, com um curativo na cabeça e dores pelo corpo, ela começou a arrumar suas malas. Caixas vazias se espalhavam pelo chão da sala. Ela se movia de forma metódica, quase robótica, colocando suas roupas e pertences nas caixas.
Era um ato de libertação. A cada peça de roupa dobrada, a cada livro guardado, ela sentia um peso saindo de seus ombros. Ela estava deixando para trás uma vida que, mesmo sem se lembrar completamente, sentia que a havia machucado profundamente. Aquele apartamento, antes um símbolo de sua independência e sucesso, agora parecia uma gaiola. E ela mal podia esperar para voar para longe.
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