
A Dor do Renascimento
Capítulo 2
A dor aguda de uma contração me atravessou o corpo, fazendo-me agarrar os lençóis da cama do hospital. O suor frio escorria pela minha testa. Eu estava em trabalho de parto, um momento que deveria ser de alegria, mas que se transformava no meu inferno pessoal.
A porta do quarto se abriu com força.
Não era a enfermeira. Era Rodrigo, meu marido, o homem que eu amava mais do que a minha própria vida.
Seu rosto, normalmente bonito e acadêmico, estava contorcido por uma impaciência cruel. Ele não estava sozinho. Atrás dele, parada no corredor, estava Isabella, sua aluna, com uma mão possessiva sobre a barriga levemente saliente.
Rodrigo nem olhou para o meu estado. Ele caminhou até a cama e jogou uma pasta de documentos sobre minhas pernas.
"Assina."
A voz dele era fria, sem qualquer traço da gentileza que um dia me fez apaixonar.
Eu olhei para os papéis. Na parte superior, em letras grandes e pretas, estava escrito: "ACORDO DE DIVÓRCIO" .
Meu coração parou. O ar me faltou.
"Rodrigo, o que é isso? Nosso bebê está para nascer."
"Isabella está grávida," ele disse, sem rodeios, como se estivesse falando do tempo. "Ela ameaçou fazer uma loucura se eu não resolvesse nossa situação. Assina logo, Sofia. Não complique as coisas."
Na minha vida passada, eu chorei. Eu implorei. Eu me agarrei a ele, perguntando sobre os nossos anos de amor, sobre as promessas, sobre a família que estávamos construindo. Naquela vida, minha súplica só serviu para aumentar o desprezo dele. Minha agonia emocional causou uma complicação no parto, uma hemorragia que os médicos não conseguiram controlar. Eu morri naquela mesa de cirurgia, ouvindo ao longe a risada vitoriosa de Isabella.
Mas, por um milagre inexplicável, eu acordei novamente. No mesmo dia, na mesma cama de hospital, com as mesmas dores do parto.
Desta vez, seria diferente.
Eu olhei para o rosto dele, o rosto que eu um dia adorei, e não senti nada além de um frio cortante. A dor da traição era uma brasa antiga, agora solidificada em determinação.
"Tudo bem," eu disse, com uma calma que o surpreendeu.
Rodrigo franziu a testa, confuso com a minha falta de reação. Ele esperava lágrimas, gritos, um escândalo.
"O quê?"
"Eu disse, tudo bem. Eu assino," repeti, estendendo a mão. "Me dá a caneta."
Ele me observou, desconfiado, mas me entregou a caneta.
Minha mão tremia, não de tristeza, mas de raiva contida e da dor física das contrações cada vez mais próximas.
Lembrei-me de todos os meus sacrifícios. Lembrei-me das noites em que passei revisando os artigos acadêmicos dele, ajudando-o a preparar suas palestras, abrindo mão da minha própria carreira de pesquisadora para que a dele pudesse florescer. Lembrei-me de como vendi as joias que minha falecida mãe me deixou para ajudá-lo a publicar seu primeiro livro, o livro que o tornou um famoso professor universitário.
E o retorno era este: abandono no momento mais vulnerável da minha vida.
Com um movimento firme, assinei meu nome em todas as páginas necessárias. Minha caligrafia estava impecável, apesar da dor.
"Pronto," eu disse, empurrando a pasta de volta para ele.
Outra contração me atingiu, mais forte que as outras. Eu gemi, dobrando-me sobre a cama.
"A enfermeira!" eu gritei, a dor se tornando insuportável. "Chame a enfermeira!"
Rodrigo pegou os papéis, seu objetivo cumprido. Ele olhou para mim com indiferença, como se eu fosse uma estranha.
"Cuide-se," ele disse, virando-se para sair.
Naquele momento, a bolsa estourou. A urgência era real. Meu bebê estava vindo.
Minha filha.
Na minha vida passada, ela nasceu órfã de mãe. Nesta vida, eu viveria por ela. Eu a protegeria. E eu faria com que cada pessoa que nos causou dor pagasse, centavo por centavo.
Aquele pensamento me deu força. Olhando para a porta por onde Rodrigo desapareceu, a determinação se cravou no meu coração. A vingança seria meu combustível. E eu não descansaria até ver Rodrigo e Isabella na ruína que eles mereciam.
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