
A Dor do Renascimento
Capítulo 3
As enfermeiras entraram correndo no quarto, e tudo virou um borrão de atividade frenética. Fui levada às pressas para a sala de parto. Horas depois, exausta, mas viva, eu segurava minha filha nos braços. Ela era pequena, perfeita. Seus olhinhos se abriram e me encararam. Naquele instante, uma força que eu não sabia que possuía inundou meu ser.
Eu estava de volta ao quarto, a adrenalina diminuindo, a dor do parto e dos pontos começando a pulsar. Minha filha dormia tranquilamente no berço ao lado da minha cama.
Era madrugada. O silêncio do hospital era pesado.
A porta do quarto se abriu sem aviso.
Isabella entrou, sorrateira como uma sombra. Ela não usava seu disfarce de aluna inocente. Seus olhos brilhavam com malícia e triunfo.
"Então, a aberração nasceu," ela sussurrou, aproximando-se do berço.
Um alarme soou na minha cabeça. O instinto materno, primitivo e feroz, tomou conta de mim.
"Fique longe dela," eu disse, minha voz rouca, mas firme.
Isabella riu, um som baixo e desagradável. "Não se preocupe. Eu não sujaria minhas mãos. Só vim ver a cara da derrotada. Rodrigo agora é meu. A casa é minha. A vida que era sua, agora é minha."
Ela esticou a mão em direção ao rosto da minha filha.
Eu me movi mais rápido do que pensei ser possível. Ignorando a dor lancinante no meu abdômen, eu pulei da cama e me coloquei entre Isabella e o berço.
"Eu disse para ficar longe," repeti, empurrando-a com toda a força que consegui reunir.
Isabella tropeçou para trás, surpresa com a minha reação. Seu rosto se contorceu de raiva.
"Sua vadia! Como ousa me tocar?"
Antes que eu pudesse reagir, a porta se abriu novamente. Rodrigo entrou. Ele viu Isabella cambaleando e a mim, de pé, com o pijama do hospital manchado de sangue nos pontos que haviam se rompido com o esforço.
"Sofia! O que você está fazendo?" ele gritou, correndo para amparar Isabella.
"Ela estava ameaçando nossa filha!" eu disse, apontando para a mulher que se encolhia nos braços dele.
Isabella começou a chorar, um espetáculo de lágrimas falsas e soluços. "Rodrigo, eu só vim ver o bebê... parabenizá-la. E ela me atacou! Ela disse que ia me matar e matar nosso filho!"
Era uma mentira tão descarada, tão cruel, que me deixou sem palavras.
Rodrigo olhou para mim com puro ódio. Ele não duvidou dela por um segundo.
"Você está louca?" ele sibilou, avançando em minha direção. Ele agarrou meu braço com força, seus dedos cravando na minha pele. "Você assinou o divórcio. Não tem mais direito a nada. Essa criança nem deveria ter nascido para atrapalhar minha vida."
Suas palavras me atingiram como um soco. Ele me empurrou com violência. Eu perdi o equilíbrio e caí no chão duro e frio do hospital. A dor na minha barriga explodiu, e eu senti um calor úmido se espalhar pelo pijama. O sangue.
"Saia daqui," ele ordenou, sua voz cheia de nojo. "Pegue essa criança e suma da minha vista. O diretor do hospital é meu amigo. Ele já sabe que você não tem mais convênio, já que não é mais minha esposa. Você tem uma hora para desocupar este quarto."
Ele se virou, abraçando Isabella protetoramente, e a levou para fora do quarto, fechando a porta atrás de si.
Fiquei ali, caída no chão, o corpo doendo, o coração sangrando não por amor perdido, mas por uma humilhação profunda. O choro baixo da minha filha no berço me trouxe de volta à realidade.
Com dificuldade, rastejando, eu me levantei. Cada movimento era uma agonia. Olhei para a mancha de sangue no chão, para o meu reflexo pálido no vidro da janela. Eu estava destruída, mas não derrotada.
Peguei meu celular. Havia apenas duas pessoas para quem eu poderia ligar. Minha tia e meu irmão.
Disquei o número do meu irmão mais velho.
"Leo? Sou eu, Sofia. Preciso de ajuda."
Enquanto explicava a situação em poucas palavras, vesti uma roupa limpa, peguei minha filha nos braços e a envolvi em um cobertor. Não peguei mais nada. Apenas minha bolsa e a minha dignidade ferida.
Eu não ia esperar ser expulsa. Eu ia sair de cabeça erguida.
Caminhei pelos corredores silenciosos do hospital, cada passo um esforço de vontade. O vento frio da madrugada me atingiu quando passei pelas portas automáticas.
Meu irmão chegou minutos depois, seu rosto uma máscara de preocupação e fúria. Ele me abraçou com cuidado.
"Vamos para casa, Sofia. Vamos cuidar de vocês."
Dentro do carro, olhando para a cidade que um dia chamei de lar, uma decisão se formou na minha mente. Eu não ficaria aqui para ser uma vítima. Eu tinha que ir embora. Para longe.
Meu antigo mentor, Dr. Mendes, um renomado cientista que sempre acreditou no meu potencial, tinha me oferecido uma posição de pesquisa em seu laboratório na Suíça meses atrás. Eu recusei por causa de Rodrigo.
Agora, essa era a minha única saída.
Eu iria para a Suíça. Eu reconstruiria minha carreira, me tornaria mais forte, mais bem-sucedida do que Rodrigo jamais sonhou ser. E um dia, eu voltaria.
E quando eu voltasse, eu destruiria o mundo que ele construiu sobre as minhas ruínas.
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