
A Dor de um Pai Enganado
Capítulo 3
O plano de João Carlos era simples: evitar a criança a todo custo. Se ele não tocasse nela, não poderiam culpá-lo. Ele passaria o dia trancado no escritório de casa, fingindo trabalhar, longe do berço, longe daquela armadilha mortal.
Ele tomou um banho rápido, a água quente ajudando a clarear um pouco a dor de cabeça da ressaca. Enquanto se vestia, ouvia os sons da casa. A voz de sua mãe cantarolando na cozinha. Os passos de Ana Paula, que já havia retornado de sua "caminhada" . A normalidade da cena era doentia. Eles agiam como uma família feliz, enquanto orquestravam sua destruição.
"João, você não vem tomar café?" Ana Paula chamou da porta.
Ele se virou. Ela estava ali, com seu sorriso doce e seus olhos preocupados. Uma atriz talentosa.
"Estou com muita dor de cabeça. E tenho uma chamada importante de trabalho. Vou ficar no escritório," ele respondeu, a voz neutra.
"Mas e a Isabella? Você nem deu um beijo de bom dia nela."
"Eu a vejo mais tarde."
Ele passou por ela, evitando seu toque, e se trancou no escritório. Sentou-se em sua cadeira de couro, mas não conseguiu se concentrar em nada. Sua mente repassava os eventos da "primeira vida" . A morte da bebê, a acusação, a execução. A imagem de sua família o traindo. Cada detalhe era uma faca afiada em sua memória.
Ele tentou se acalmar. Pensar logicamente. O que eles queriam? Dinheiro, obviamente. A fortuna do seu avô. Para conseguir, precisavam tirá-lo do caminho. E a melhor maneira de fazer isso era transformá-lo em um monstro, um assassino de crianças. E o que aconteceu com Lucas? Onde estava seu verdadeiro filho? Essa pergunta o torturava mais do que qualquer outra coisa.
As horas se arrastaram. Ele ouvia os sons da casa através da porta fechada. O riso de Ana Paula, o balbuciar da bebê, as conversas de sua mãe e seu pai. Parecia tão normal. Tão terrivelmente normal.
Por volta do meio-dia, o cansaço e a tensão o venceram. Ele reclinou a cadeira e fechou os olhos, apenas por um momento. A exaustão era imensa, um peso sobre seus ombros. Ele adormeceu, um sono agitado e cheio de sombras.
Foi acordado por um som que gelou seu sangue.
Um grito.
O mesmo grito agudo e desesperado de Ana Paula.
João Carlos saltou da cadeira, o coração disparado contra as costelas. Ele abriu a porta do escritório e correu em direção ao som, que vinha do quarto principal.
A cena era quase idêntica à de sua primeira vida. Ana Paula estava ao lado do berço, o rosto contorcido em pânico.
"Ela não está respirando! João, ela não está respirando!"
O pânico o atingiu como um soco no estômago. Como? Ele nem tinha chegado perto. Ele se aproximou do berço, o medo o dominando. A bebê estava imóvel, o mesmo tom azulado começando a tomar conta de seus lábios.
Seu cérebro gritava para ele fugir, para não tocar nela. Mas o instinto, a visão de uma criança morrendo, foi mais forte.
"Chame uma ambulância!" ele gritou, pegando a bebê nos braços.
O corpinho estava mole, sem vida. Ele a virou, deu tapinhas nas costas, tentou alguma manobra primitiva de primeiros socorros que tinha visto em filmes. Nada.
E então, o horror se repetiu.
No momento em que ele a segurava, tentando desesperadamente reanimá-la, ela deu um último, pequeno suspiro, e seu corpo ficou completamente inerte. Ela morreu. De novo. Em seus braços.
"Não, não, não..." ele murmurou, o desespero o engolindo.
Era uma armadilha. Não importava o que ele fizesse. O destino estava selado. Ele estava destinado a ser o assassino.
Ana Paula não gritou "assassino" desta vez. Em vez disso, ela olhou para ele com uma frieza calculada, e então seu rosto se desfez em uma máscara de dor.
"O que você fez?" ela sussurrou, a voz carregada de uma acusação silenciosa e mortal.
Seus pais entraram correndo no quarto, atraídos pelo barulho. Vendo a cena – João Carlos com a bebê morta nos braços, Ana Paula em choque – eles reagiram instantaneamente.
"Meu Deus, de novo não!" gritou sua mãe, mas havia um tom de triunfo em sua voz que o enojou.
Desta vez, João Carlos não ficou parado. O terror da primeira vez foi substituído por uma fúria selvagem e um instinto de sobrevivência. Ele não seria o bode expiatório novamente.
Ele olhou para o pequeno corpo em seus braços. A prova de sua culpa. A arma do crime. Num impulso de pânico e repulsa, ele a jogou para longe, como se estivesse segurando algo venenoso.
O corpo da bebê voou pelo ar e aterrissou com um baque surdo no tapete felpudo, a poucos metros de distância.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Todos olharam para o corpo no chão, e depois para ele. Os rostos de seus pais e de Ana Paula se contorceram em expressões de horror genuíno – ou talvez, de horror ensaiado.
"Você... você a jogou?" gaguejou seu pai, Roberto, o rosto pálido.
"Ele é um monstro!" gritou Ana Paula, desta vez para a plateia que começava a se formar na porta. O vizinho, Sr. Antunes, estava lá, o celular na mão, gravando tudo. Exatamente como da primeira vez.
Mas desta vez, algo dentro de João Carlos mudou. A repetição do evento não o quebrou, mas o forjou. A visão do corpo no chão, a acusação em seus rostos, a câmera gravando... tudo se encaixou.
Isso não era destino. Era um roteiro. E eles estavam todos atuando.
A adrenalina da fúria substituiu o medo. Ele olhou para seus acusadores, um por um. Ana Paula, a viúva de luto. Sua mãe, a avó em choque. Seu pai, o homem fraco e horrorizado. Mentira. Tudo mentira.
"Chamem a polícia," disse João Carlos, a voz surpreendentemente firme e fria. "Chamem todo mundo. Eu quero que todos vejam isso."
Ele não iria para a cadeira elétrica desta vez. Ele iria lutar. E ele iria destruir cada um deles.
A multidão na porta murmurava, os celulares apontados para ele. O ódio e o medo nos olhos deles eram palpáveis. Ele era o vilão da história, o pai que matou sua filha e profanou seu corpo. Para eles, a imagem era clara.
Mas para João Carlos, a imagem era outra. Era a imagem de sua própria inocência, e ele estava determinado a prová-la, não importasse o quão impossível parecesse. A segunda morte não foi uma repetição de sua tragédia. Foi o início de sua vingança.
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