
A Doce Fuga Dela do Caos
Capítulo 2
Heitor pareceu momentaneamente confuso com a pergunta dela. "Como assim, por que hoje?"
Ele começou a repetir sua desculpa anterior. "Eu te disse, ela acabou de voltar..."
"Pare", Adriana o interrompeu, sua voz baixa, mas afiada. "Hoje é o meu aniversário, Heitor. Você escolheu o meu aniversário para fazer isso."
Ela olhou para Joyce, que agora escondia o rosto nas mãos, os ombros tremendo com soluços. Mas Adriana viu o brilho de triunfo em seus olhos antes que ela desviasse o olhar.
"E ela sabe disso, não é? Ela está adorando isso."
Adriana pensou em todos os anos que passou se moldando na esposa perfeita de um Alcântara. Ela abriu mão de sua personalidade forte, seu amor por música alta, suas roupas casuais. Aprendeu sobre belas artes, ópera e as complexidades do direito empresarial, tudo para estar ao lado dele, para ser um crédito para ele. Ela havia desistido de si mesma.
E para quê? Para ele ignorar sua dor, para defender a filha de uma governanta em vez dela, em seu próprio aniversário. A injustiça daquilo era um peso físico em seu peito.
"Você está sendo excessivamente emotiva", disse Heitor, sua voz carregada de desdém.
Esse foi o empurrão final. Adriana arrancou o braço de seu aperto com uma força que surpreendeu a ambos. Ela se virou e caminhou de volta para o carro sem dizer mais uma palavra.
A voz de Joyce a seguiu, um sussurro suave e magoado. "Heitor, talvez eu devesse ir embora... Deixei a Dona Adriana tão infeliz."
Adriana sentiu uma onda de náusea. A atuação da garota era impecável.
Ela entrou em sua Range Rover e dirigiu, sem destino em mente. As luzes da cidade se borraram através de suas lágrimas não derramadas. Ela se lembrou do pedido de casamento de Heitor, tão formal e correto. Ele havia lhe prometido uma vida de respeito, de parceria. Uma mentira. Cada palavra uma mentira. Ela se arrependia de sua escolha tão profundamente que doía respirar.
Seu telefone tocou, assustando-a. Era Alexandre Viana.
"Feliz aniversário, Adri", sua voz alegre ecoou pelos alto-falantes do carro. "Estou com uma saudade louca de você. É só dizer e eu pego um voo de volta agora mesmo."
Adriana conseguiu um sorriso fraco. "Você está em Tóquio, Alex. Não seja ridículo."
"Por você, eu viria a nado", ele disse, e ela sabia que ele estava falando sério. A devoção dele era um contraste gritante e doloroso com a frieza que ela acabara de deixar para trás.
Depois de uma hora dirigindo sem rumo, ela finalmente foi para casa. Era tarde, passava da meia-noite. Ela esperava uma casa escura e silenciosa.
Em vez disso, a mansão estava resplandecente de luzes. Música e risadas se espalhavam pelo gramado bem cuidado.
Ela entrou e parou, petrificada. Sua sala de estar estava cheia de gente. Era uma festa. Uma festa de aniversário surpresa que ela nunca quis.
E no centro de tudo estava Joyce, agindo como anfitriã. Ela cumprimentava os convidados, dirigia a equipe do buffet, um sorriso radiante no rosto.
Então Adriana viu. Joyce estava usando o vestido Chanel vintage que Adriana guardava para uma ocasião especial. A sua ocasião especial.
Adriana se sentiu uma estranha em sua própria casa.
Heitor a viu e correu até ela, um sorriso tenso no rosto. "Adriana! Você voltou. Estávamos preocupados. Pensei que, como a noite começou tão mal, uma pequena celebração poderia..."
Os olhos de Adriana estavam fixos em Joyce. "O que ela está fazendo, Heitor? Sendo a anfitriã da minha festa de aniversário?"
"Ela só estava tentando ajudar", disse ele, com a voz na defensiva. "Ela organizou tudo isso para se desculpar com você."
"E o vestido?" A voz de Adriana era gelo puro. "Você deu permissão para ela usar minhas roupas também?"
"Não seja tão mesquinha, Adriana", ele retrucou. "É só um vestido."
Joyce os observava do outro lado da sala, um pequeno sorriso triunfante brincando em seus lábios. Alguns convidados, amigos da família, começaram a se aproximar, sentindo a tensão.
"Adriana, Heitor, feliz aniversário!", disse um deles, tentando amenizar a situação.
Heitor foi puxado para uma conversa, deixando Adriana sozinha.
Joyce aproveitou a oportunidade. Ela deslizou até Adriana, sua voz um sussurro venenoso que só ela podia ouvir.
"Está vendo? Este é o meu lugar agora."
Ela se inclinou mais perto. "Você teve o que merecia. Você nunca foi boa o suficiente para ele."
"Ele e eu", Joyce ronronou, "nós pertencemos um ao outro. Sempre pertencemos."
Adriana olhou para a mulher mais jovem, para seu rosto presunçoso e vitorioso.
"Você está tentando ser talarica, Joyce?", ela perguntou, sua voz perigosamente suave.
"Nós temos uma história da qual você não sabe nada", Joyce zombou. Ela se inclinou, seus lábios quase tocando a orelha de Adriana. "Ele me disse que você é fria na cama. Como um peixe morto."
As palavras atingiram Adriana com mais força do que um golpe físico. Naquele momento, todas as regras, toda a disciplina, toda a compostura cuidadosamente construída se estilhaçaram.
Sem pensar duas vezes, a mão de Adriana voou e atingiu o rosto de Joyce. O som do tapa ecoou pela sala subitamente silenciosa.
Você pode gostar





