
A Doce Fuga Dela do Caos
Capítulo 3
A música parou. Todas as conversas morreram. Todos os olhos estavam nelas.
Heitor se desvencilhou de sua conversa e correu para frente, o rosto uma máscara de fúria.
Ele passou por Adriana e se ajoelhou ao lado de Joyce, que agora estava caída no chão, soluçando dramaticamente. "Você está bem? Joyce, você se machucou?"
Ele a amparou protetoramente, fuzilando Adriana com o olhar como se ela fosse um monstro.
Adriana, no entanto, estava perfeitamente calma. Sentiu uma estranha sensação de clareza. Ela ajeitou o vestido, seus movimentos graciosos e deliberados.
Seus olhos pousaram no colar de diamantes no pescoço de Joyce. Era uma peça única que Heitor lhe dera no primeiro aniversário de casamento.
Ela se abaixou e, com um movimento rápido e limpo, abriu o fecho do colar. Joyce ofegou, mas estava atordoada demais para resistir.
Adriana ergueu o colar cintilante para que todos vissem.
"Obrigada a todos por virem celebrar comigo", ela anunciou, sua voz ressoando pelo salão silencioso. "Como lembrancinha da festa..."
Ela caminhou até a jovem e impressionada esposa de um sócio júnior. A mulher a encarava, hipnotizada. Adriana sorriu calorosamente e prendeu o colar de valor inestimável no pescoço da mulher.
"Feliz aniversário para mim", disse Adriana. "Fica melhor em você."
A mulher gaguejou, sem palavras de choque e gratidão.
Adriana se virou de volta para a multidão. "A festa acabou. Por favor, saiam."
Seu tom era educado, mas firme. Ninguém discutiu. Os convidados começaram a sair, sussurrando entre si, seus olhos dardejando entre a esposa composta, o marido furioso e a amante chorosa.
Assim que o último convidado partiu, o silêncio no grande salão era pesado e sufocante.
Heitor ajudou Joyce a se levantar e a acomodou em um sofá antes de se virar para Adriana.
"Você enlouqueceu?", ele rugiu.
Adriana olhou para ele, olhou de verdade, e sentiu uma tristeza profunda e oca. Este era o homem que ela amara, o homem por quem mudara toda a sua vida.
"Ela me insultou, Heitor. Na nossa casa. Na minha festa."
"Então você bate nela? Você me humilha na frente de todo mundo?"
Adriana se sentia cansada demais para discutir. Ela se virou para longe dele. "Vou para a cama."
Heitor agarrou seu braço. "Nós não terminamos."
Seu rosto estava contorcido por uma mistura de raiva e exaustão. "Estou cansado disso, Adriana."
Ela simplesmente olhou para a mão dele em seu braço até que ele a soltou. Ela caminhou até a grande escadaria, de costas retas.
Ele suspirou, a raiva se esvaindo, substituída por uma frustração cansada. "Olha", disse ele, com a voz mais suave. "Eu sei que isso é difícil. Mas eu tenho uma responsabilidade com a Joyce. A mãe dela salvou a vida da minha avó anos atrás. Eu devo a elas."
"Eu vou falar com ela", ele prometeu, como se fosse uma grande concessão. "Vou ensiná-la a ter modos."
Adriana parou na escada e olhou para trás. Sentiu uma risada amarga escapar de seus lábios. "Você vai ensiná-la? Você, que a deixou entrar em nossa casa para destruir nosso casamento?"
"Você vai ensiná-la a não dormir com o marido de outra mulher? Ou isso faz parte do plano de aula?"
O rosto de Heitor ficou vermelho. "Já chega!", ele gritou, batendo com o punho em uma mesa próxima. O som ecoou na sala cavernosa.
"Ela é da minha família! Assim como você!"
Família. A palavra parecia uma mentira. Lágrimas brotaram nos olhos de Adriana, mas ela se recusou a deixá-las cair. Não na frente dele.
"Você quebrou cada uma das suas preciosas regras por ela, Heitor", disse ela, a voz tremendo ligeiramente. "As regras que você me ensinou por anos."
Ela começou a listá-las, sua voz ficando mais forte a cada palavra. "Sem trajes casuais em público. Sem comer com as mãos. Sem explosões emocionais. Sem comportamento que pudesse manchar o nome Alcântara."
"Você fez tudo isso. Por ela. Em uma tarde."
O rosto de Heitor passou por uma dúzia de emoções: raiva, culpa, vergonha. Ele ficou ali, sem palavras.
Adriana respirou fundo. Pegou o telefone e ligou para o chefe da equipe da casa.
"Por favor, prepare a suíte de hóspedes da ala norte para a Srta. Guedes", disse ela, com a voz nítida e autoritária. "E certifique-se de que nenhum de seus pertences permaneça na casa principal."
A voz hesitante do mordomo veio pelo telefone. "Mas, senhora, o Sr. Alcântara disse..."
Adriana não o deixou terminar. "Eu sou a Sra. Alcântara. Faça o que eu mandei."
Ela desligou.
Heitor a encarou, o rosto pálido. "Adriana, acalme-se. Vamos conversar sobre isso de manhã."
"Não há nada para conversar", disse ela.
Ele a encarou por um longo momento, depois se virou e saiu da casa, batendo a porta da frente atrás de si.
O som ecoou pelo salão vazio.
Sozinha, Adriana finalmente se permitiu desabar no primeiro degrau da escadaria. As lágrimas que ela segurara por tanto tempo finalmente vieram, silenciosas e quentes, escorrendo por seu rosto.
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