
A Dívida do Pai
Capítulo 2
A ligação do cobrador soou como uma sentença de morte, o telefone tremia na mão de Miguel.
"Sr. Almeida, o prazo final é hoje à noite, se o dinheiro não aparecer, seu filho vai se arrepender de ter nascido."
A voz do outro lado era áspera, sem emoção, o que a tornava ainda mais assustadora. Miguel desligou, o peito apertado, a respiração presa. Ele olhou para o pai, encolhido no sofá velho e rasgado, o cheiro de álcool e derrota pairando no ar.
"Pai, o que você fez?", a voz de Miguel era um sussurro rouco.
O Sr. Almeida não levantou a cabeça, apenas murmurou: "Eu ia ganhar, filho, eu juro, era a aposta certa pra tirar a gente dessa vida."
Miguel sentiu uma onda de raiva e desespero. Sempre a mesma promessa, sempre a mesma mentira. Ele caminhou até a janela do pequeno apartamento, olhando para a cidade que brilhava lá fora, um mundo de riqueza e oportunidades que parecia inalcançável. O seu mundo era aquele quarto, o cheiro de mofo e a doença da sua irmã, Clara.
No quarto ao lado, Clara dormia, sua respiração fraca e superficial. A doença rara consumia a vida dela aos poucos, e cada dia era uma batalha por mais um suspiro. O tratamento era caro, impossível para eles. As dívidas de jogo do pai tinham engolido tudo, até a esperança.
Foi então que a proposta chegou, alguns dias antes, através de um advogado de terno caro que parecia deslocado na vizinhança pobre deles. A proposta era absurda, um insulto, uma salvação.
Casar-se com Sofia Ribeiro, a filha única do magnata da construção, o Sr. Ribeiro.
A pegadinha? Sofia estava em coma há meses, um vegetal bonito deitado numa cama de hospital de luxo. O casamento seria uma farsa, um contrato. Em troca, as dívidas do seu pai seriam quitadas e o tratamento de Clara seria pago, integralmente, pelo tempo que fosse necessário.
Miguel tinha recusado, com nojo. Vender-se daquela forma? Tornar-se o marido de uma mulher em coma por dinheiro? Era o fundo do poço.
Mas agora, com a ameaça do cobrador ecoando em sua mente e a imagem da respiração frágil de Clara, o fundo do poço parecia um lugar aceitável para se estar.
"Eu vou fazer isso", disse Miguel, a voz firme, cortando o silêncio pesado do apartamento.
Seu pai levantou a cabeça, os olhos vermelhos e confusos. "Fazer o quê?"
"O casamento. Eu vou me casar com ela."
A decisão pesava como chumbo em seu estômago. Era uma traição a si mesmo, aos seus princípios. Mas o amor por sua irmã era maior que seu orgulho. Ele faria qualquer coisa por Clara.
Na semana seguinte, a vida de Miguel virou de cabeça para baixo. Ele foi levado para a mansão dos Ribeiro, um palácio de mármore e vidro que o fazia se sentir pequeno e sujo. Lá, ele conheceu o Sr. Ribeiro, um homem de olhos frios e sorriso calculado. Havia um poder nele, uma crueldade velada que fez um arrepio percorrer a espinha de Miguel.
"Você entende os termos, rapaz", disse o Sr. Ribeiro, não como uma pergunta, mas como uma ordem. "Você será o marido da minha filha. Cuidará da imagem dela, da nossa família. Em troca, seus problemas desaparecem."
Miguel apenas assentiu, a garganta seca.
Foi então que o Sr. Ribeiro o levou para conhecer sua noiva. Sofia estava deitada na cama, cercada por aparelhos que apitavam suavemente. Ela era linda, mesmo pálida e imóvel. Cabelos escuros espalhados no travesseiro de seda, cílios longos projetando sombras em seu rosto sereno. Uma beleza trágica, congelada no tempo.
Miguel sentiu um nó na garganta. Pena? Curiosidade? Ele não sabia dizer.
Mais tarde naquela noite, enquanto assinava os papéis que selavam seu destino, Miguel encontrou um antigo recorte de jornal no fundo de uma gaveta da biblioteca. A manchete falava de um terrível acidente de carro. Um motorista imprudente, em alta velocidade, havia atingido outro veículo, causando ferimentos graves em uma criança.
Miguel sentiu o sangue gelar. A data. O local. A descrição da criança.
Era o acidente que tinha deixado Clara doente. A doença dela não era do nada, era uma consequência neurológica rara daquele trauma.
E o motorista imprudente, que fugiu do local mas foi identificado mais tarde por testemunhas, antes que seu poder e dinheiro abafassem o caso?
Sr. Ribeiro.
O mundo de Miguel desabou. A náusea subiu por sua garganta. Não era uma coincidência. Não era uma salvação. Era uma armadilha, uma piada cruel do destino. O homem que estava pagando pelo tratamento de Clara era o mesmo homem que a tinha condenado àquela cama.
Naquele momento, algo dentro de Miguel se quebrou e se refez, mais duro, mais afiado. O casamento não era mais sobre salvar Clara. Era sobre vingança.
Ele olhou para a sua assinatura no contrato de casamento. Aquele papel não era mais uma sentença de humilhação. Era uma arma. Ele estava dentro da fortaleza do inimigo.
Ele destruiria o Sr. Ribeiro. Ele destruiria a família Ribeiro e tudo o que eles representavam. Ele usaria a filha deles, a noiva em coma, como sua principal ferramenta. Consumido por um novo propósito sombrio, Miguel sentiu uma calma gélida tomar conta de si. O jogo tinha acabado de começar.
---
Você pode gostar





