
A Dívida do Pai
Capítulo 3
Miguel mudou-se para a mansão Ribeiro no dia seguinte. Cada corredor de mármore, cada obra de arte na parede, parecia zombar de sua origem humilde. Ele era um prisioneiro numa gaiola de ouro, mas agora, a gaiola era seu campo de batalha.
Seu primeiro confronto direto com o Sr. Ribeiro como "genro" aconteceu no café da manhã. A mesa de jantar era absurdamente longa, e eles se sentaram em extremidades opostas, um rei e um peão em seu tabuleiro particular.
"Espero que esteja se acomodando bem", disse o Sr. Ribeiro, a voz desprovida de qualquer calor. Seus olhos eram como lascas de gelo, analisando Miguel, medindo seu valor, sua submissão.
"A casa é... impressionante", respondeu Miguel, escolhendo as palavras com cuidado. Ele precisava parecer dócil, grato. Um cãozinho que tinha sido resgatado da chuva.
"É apenas o que minha filha merece. E agora, por associação, o que você desfruta. Não se esqueça disso." A ameaça era sutil, mas clara.
Miguel apenas sorriu, um sorriso vazio. "Como eu poderia esquecer? Sou eternamente grato."
Seu plano começou a tomar forma. Ele precisava de aliados, ou pelo menos, de peças para mover. O primeiro foi o Doutor Elias, o médico de Clara, que agora também supervisionava os cuidados de Sofia. Miguel passou a visitá-lo todos os dias, sob o pretexto de se preocupar com a saúde de sua "esposa".
"Você parece genuinamente preocupado, Miguel", disse o Dr. Elias, um homem gentil de meia-idade, durante uma de suas conversas.
"Ela é minha esposa. E... ela me lembra minha irmã." Miguel usou a verdade como isca. Ele falou sobre Clara, sobre a doença dela, sobre sua luta. O médico, sem saber, tornou-se uma fonte de informações sobre a rotina da casa, sobre a saúde de Sofia, e sobre o próprio Sr. Ribeiro.
A primeira grande prova de Miguel veio uma semana depois. Haveria um jantar de negócios na mansão. "Você estará ao meu lado", ordenou o Sr. Ribeiro. "Aja como parte da família."
Na noite do jantar, a casa estava cheia de pessoas ricas e poderosas. Miguel, num terno que custava mais do que ele ganhara em toda a sua vida, sentia-se um impostor. Foi então que ele o viu.
Leonardo.
Ele era alto, classicamente bonito, com a confiança fácil de quem nasceu em berço de ouro. Ana, a melhor amiga de Sofia, o apresentou. "Miguel, este é Leonardo, um amigo da família de longa data."
Leonardo apertou a mão de Miguel, mas seu olhar era desdenhoso. "Ah, então você é o... marido." A pausa foi intencional, carregada de insulto.
Durante todo o jantar, Miguel foi forçado a assistir a uma performance. O Sr. Ribeiro tratava Leonardo como um filho. Riam de piadas internas, falavam de negócios dos quais Miguel não entendia nada. Ana e outros convidados orbitavam ao redor de Leonardo, enquanto Miguel era deixado de lado, uma peça decorativa e silenciosa.
O momento mais doloroso foi quando o Sr. Ribeiro fez um brinde. "Aos futuros negócios... e à família. Leonardo, você sempre será parte da nossa." Ele nem sequer olhou na direção de Miguel.
A exclusão foi um tapa na cara, público e humilhante. A mensagem era clara: você pode ter assinado o papel, mas nunca fará parte disso. Você é um substituto temporário. O verdadeiro príncipe é ele.
Miguel engoliu o vinho, o gosto amargo misturando-se com a bile da raiva em sua garganta. Ele observou a dinâmica, a forma como Ana olhava para Leonardo com admiração, a forma como o Sr. Ribeiro colocava a mão em seu ombro. Eles eram um círculo fechado, e ele estava do lado de fora, olhando para dentro.
Mais tarde naquela noite, de pé no quarto que agora era seu, olhando para a figura imóvel de Sofia na cama, a raiva de Miguel se transformou em uma determinação fria e cortante.
Ele não queria mais apenas a vingança pelo que aconteceu com Clara. Agora, era pessoal de uma forma diferente. Ele não ia apenas destruir o império deles. Ele ia tomar tudo. O respeito, o poder, a lealdade.
Ele se aproximou da cama e, pela primeira vez, tocou o rosto de Sofia. A pele era macia, quente.
"Você vai acordar, Sofia", ele sussurrou no silêncio do quarto. "E quando você acordar, você será minha. Não deles. Minha."
O plano mudou. A vingança não seria suficiente. Ele queria o coração do império. E o coração era ela.
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