
A CURA
Capítulo 2
NARRAÇÃO LARISSA
ALGUNS DIAS ANTES
Meu despertador começa a tocar e desligo, já me levantando e me esticando toda. Hoje tenho uma sessão de fotos de um bebê e preciso chegar cedo ao parque para ver se arranjo um local calmo e tranquilo. Lavo meu rosto e me sinto extremamente cansada. Meu corpo está dolorido e percebo que faz tempo que estou nesse cansaço excessivo. Coloco minha roupa e percebo alguns hematomas na perna e barriga. Não me lembro de ter batido em nenhum lugar. Coloco minhas sapatilhas e amarro meu cabelo. Observo-me no espelho. Estou abatida e com cara de doente. Isso não é bom. Meu casamento será em 2 meses e meio e não posso adoecer agora. Respiro fundo e sigo para a cozinha, tomar meu café da manhã. Assim que entro na cozinha, vejo minha mãe sentada tomando seu café como sempre. Me aproximo com cuidado e abraço ela, dando um beijo em seu rosto.
- Bom dia, mãe!
- Bom dia, Larissa!
Sorri e me olha.
- Você anda abatida.
- Eu sei.
- Você esteve doente muitas vezes em pouco tempo.
A encaro rindo.
- Foram gripes.
- Você trabalha demais. Acho bom fazer uma bateria de exames antes do casamento.
- Estou bem!
Sento-me e começo a me servir.
- Temos essa semana para à prova final do seu vestido.
- Sim...
Digo empolgada. Estou empolgada e muito feliz com meu casamento com José. Estamos juntos há três anos e acho que seremos muito felizes. Abrimos o Studio de fotografia juntos e estamos planejando fazer um curso em Londres ano que vem. Ficaremos seis meses por lá.
- José já verificou fotógrafo para o casamento?
Começo a rir e sei que ela vai odiar a minha ideia.
- Nós vamos nos fotografar.
Ergue uma sobrancelha me olhando.
- Isso não vai dar certo. E durante a cerimônia?
- Self ?!?!?!?
Ela começa a rir.
- Não vou discutir. O casamento é de vocês.
- O papai já disse quando chega?
Posso vê-la ficar triste. Meus pais se separaram quando eu tinha doze anos, mas ainda é nítido que se amam. Apenas não aceitam as diferenças. Só espero não ser assim com José.
- Ele vai tirar férias e chegará daqui trinta dias.
- Certo!
Me levanto e beijo sua testa.
- Só vai comer isso?
- Estou sem fome.
- Por isso fica doente tantas vezes.
Pego minha mochila e minha mala com os meus equipamentos. Fujo do sermão dela e corro para fora de casa. Coloco minhas coisas no baú da moto e coloco meu capacete. Subo na moto e assim que a ligo, escuto seu ronco. Amo a liberdade sobre duas rodas e como o vento batendo em meu corpo me deixa eufórica. Sigo para o parque, percorrendo sem problema as ruas de Campinas. Assim que chego, observo o local tentando achar algum espaço bonito e calmo. Lucas tem apenas um ano e será seu primeiro ensaio.
Acho em um canto uma árvore perfeita e ao lado algumas flores encantadoras.
Arrumo meu material e coloco as coisas que vou precisar no chão sobre uma toalha. Arrumo minha lente e vejo os pais chegarem com meu pequeno Lucas. Ele está tão lindo e sorridente.
- Bom dia, Larissa!
- Bom dia, Suzana e Nuno.
Me aproximo do meu pequeno modelo.
- Bom dia meu pequeno.
Ele sorri com a mão na boca. Pego ele no colo e sigo para o cantinho que arrumei para a sessão. O coloco no chão e entrego alguns brinquedos.
- Quero esse lindo sorriso para mim, em Lucas. Faça a titia Larissa feliz.
Me afasto e começo tirar fotos. Após duas horas em um momento fofura extremo, Lucas começa a chorar e sei que está cansado, assim como eu.
- Acho que o material que tenho já está bom.
Digo aos pais olhando algumas fotos na máquina.
- Quanto tempo até tudo ficar pronto?
Suzana pergunta abraçando o filho.
- Duas semanas o material estará em suas mãos.
- Maravilha!
Eles vão embora e começo a recolher minhas coisas. Quando coloco minha mala nas costas, tudo começa a rodar e não vejo mais nada.
*************
Escuto um choro angustiante e abro meus olhos assustada.
Estou deitada e sinto uma dor em meu braço. Observo em volta e vejo que estou em um quarto de hospital e tem um acesso em meu braço.
- Larissa...
Minha mãe sai do canto do quarto vindo em minha direção.
Posso ver em seu rosto que estava chorando.
- O que aconteceu?
- Você desmaiou.
Passa a mão em meu rosto.
- Por que esta chorando?
Começa a chorar ainda mais e a porta se abre. Um médico de idade avançada entra.
- Olá, Larissa!
- Olá!
- Sou o Dr. Ferreira.
Se aproxima e me olha com dó. Não gosto quando me olham assim. A última pessoa que me olhou assim foi meu pai, avisando que estava se separando da minha mãe.
- Me diz logo o que tenho.
Minha mãe pega a minha mão e aperta firme.
- Os exames apontaram leucemia.
Encaro seu rosto ainda sem saber se ouvi direito.
- Não pode ser.
- Os exames são 100% seguros.
Fecho meus olhos sentindo meu peito doer. Minhas lágrimas começam a cair pelo meu rosto e minha mãe as limpa com carinho. Não posso estar com leucemia. Vou me casar em pouco tempo e não posso estar doente.
- Os exames que fizemos não apontam o tipo de leucemia e nem como esta o seu quadro clínico.
Abro meus olhos encarando o médico.
- Não sabe então me dizer quanto tempo tenho de vida?
- Não fala assim filha.
Respiro fundo tentando controlar o choro.
- Quando faço os exames?
- Vou encaminhar vocês para o hospital de São Paulo. Eles possuem uma Ala própria para esse tipo de doença.
- Vou precisar de transplante de medula?
- Larissa tudo vai depender dos seus exames e do diagnóstico. Seu médico avaliará seus exames e seguirá para o melhor tratamento.
A porta se abre e vejo José. Ele vem em minha direção e seus olhos preocupados acabam comigo. Como vou dizer a ele que tenho uma doença extremamente dolorosa e que posso não sobreviver?
- Como você esta?
Segura meu rosto me olhando.
- Vou ficar bem.
Sussurro sentindo meu peito apertado. Minha mãe suspira e vem na direção dele.
- Vamos conversar lá fora.
Pega o braço dele e o puxa para fora. O médico tenta explicar como fará meu encaminhamento para o hospital de São Paulo. Não consigo ouvir nada. Só penso em como será meus dias e como vou fazer meu tratamento durante o casamento. Vou perder meu cabelo se for fazer quimioterapia e minha vida vai acabar.
Fecho meus olhos angustiada com meu futuro. O médico vendo meu sofrimento, diz que conversará com a minha mãe e se retira. Alguns segundos depois, escuto passos e permaneço de olhos fechados. O toque em minha mão já me diz que é José. Abro meus olhos e o vejo perdido.
- Como vamos fazer?
Pergunta com a voz baixa, assustado.
- Suspende o casamento.
- Tem certeza?
Confirmo com a cabeça.
- Não quero me casar doente. Não quero carregar esse peso para a nossa vida de casados.
Suspira e imagino que esteja aliviado. Sinto um aperto em meu coração. Não era essa a reação que esperava dele, mas ignoro a sensação de alivio que sentiu.
" O que você queria Larissa? Que ele te abraçasse e dissesse que não importa a doença, que ainda vai te amar e querer se casar. "
Ignoro minha irritação e permaneço em silêncio.
- Vou para o Studio terminar algumas coisas.
- Certo!
Ele beija minha testa e sai me deixando na sensação de abandono.
TEMPO ATUAL
O cansaço aumentou e José se afastou. liga para perguntar como estou e diz que está na correria no Studio. Encaro a janela do meu quarto, sentada em minha cama.
- Você precisa ser forte.
Minha mãe diz entrando em meu quarto. Vejo minha mala em sua mão.
- José vai nos levar para São Paulo.
- Ele resolveu aparecer?
Ela respira fundo e se aproxima.
- Não esta sendo fácil para ele, Larissa.
Minha mãe sempre foi defensora de José. Até em nossas brigas ela o defendia. Não quero brigar. Na verdade minha vontade era de permanecer aqui sentada, esperando tudo isso acabar. Sem querer discutir, me levanto, sigo para fora do meu quarto e minha mãe me segue. Saio de casa e vejo José esperando fora do carro. Me abraça e beija minha testa.
- Vai dar tudo certo.
Sussurra e sem dizer nada, entro no carro.
****************
A viagem foi cansativa e meu corpo todo dói. Dormi uma boa parte da viagem, mas ainda tenho sono. Chegando ao hospital, somos recebidos pela Dra. Lins.
Uma médica loira, um pouco alta e bem conservada. Deve ter entre 45 a 50 anos. Ela faz a minha internação para os exames e diz que dependendo da resposta deles, vai analisar se a internação será definitiva para tratamento aqui ou encaminhado a outro hospital. Sou encaminhada para um quarto e durante o caminho, vejo crianças e adultos em estágios avançados de câncer sofrendo. Meu coração aperta e me imagino aqui como eles, lutando para sobreviver.
Entro em meu quarto e em segundos enfermeiros entram fazendo os exames complementares de sangue.
- Larissa vamos te encaminhar para o exame da medula óssea.
Sem questionar, apenas sigo as orientações e aguardo os procedimentos.
*******************
Estou deitada e esgotada. Meu corpo todo está doendo e não consigo ficar com os olhos abertos.
- Vamos deixar você descansar.
Minha mãe diz, beijando minha testa. Abro um olho e vejo José me encarando.
- Volta pra Campinas. Alguém precisa cuidar do Studio.
Ele suspira e se aproxima.
- Não vai precisar de mim?
- Não. Entregue o material do Lucas que esta na minha casa pronto.
Talvez o pequeno Lucas tenha sido meu último trabalho.
José quer desesperadamente fugir daqui, posso ver em seus olhos. Beija minha testa e sai com a minha mãe. Posso ouvir os dois conversando e cada palavra dita por ele, quebra meu coração em pedaços. Já não aguentando mais a dor do corpo e a dor do coração, me entrego ao cansaço e tento dormir. Sinto alguém me observando.
- Srta. Martins.
Uma voz grossa ecoa em meu ouvido e imagino ser mais um médico. Minha vida será assim agora. Médicos e enfermeiras para todo lado. Tento abrir os olhos, mas a claridade não me deixa mantê-los aberto. Assim que abro ele todo, vejo um jovem médico. Jovem demais para ser tão importante neste hospital. Ele tem cabelos negros, pele branquinha e lindos olhos verdes. Um belo homem. Alto e de porte atlético.
- Oi!
Digo o encarando.
- Oi!
Esta me olhando de um jeito diferente. Não com dó. Parece admiração e carinho. Me pego sorrindo como uma boba por não sentir pena em seus olhos. Isso me deixa feliz.
- Sabe meu nome, mas ainda não sei o seu.
- Enzo... Enzo Aguiar seu médico.
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