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A CURA

Em um cenário de profunda angústia, um sentimento inesperado floresce, provando que o amor pode surgir nos momentos mais difíceis. Esta obra narra a jornada de quem enfrenta a batalha pela sobrevivência enquanto busca proteger um romance essencial. Cada instante é valorizado com intensidade máxima, ignorando as incertezas do futuro. Mesmo quando a esperança vacila, a presença divina se manifesta para guiar os corações durante essa provação emocional.
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Capítulo 3

NARRAÇÃO ENZO

A jovem Larissa tenta se levantar e me posiciono ao seu lado, pegando seu braço e ajudando. Sua pele esta fria, mas ainda sim sinto um calor em meus dedos quando a toco.

- Você esta bem fria.

- Estou cansada. Aliás, vivo cansada.

Resmunga me parecendo sem vontade, desanimada.

- Você está se hidratando?

Seus olhos azuis me encaram.

- Água é a única coisa que meu corpo tolera no momento.

Sua voz é rouca. Seus lábios estão levemente abertos e vejo pequenas rachaduras. Me aproximo e toco seus lábios. Ela fecha os olhos apreciando meu toque e isso automaticamente mexe em um certo lugar do meu corpo, que não deveria se manifestar agora. Sua boca é macia, apesar de ressecada e deve ser maravilhosa para beijar. Respiro fundo e retiro meu dedo.

- Sua boca esta seca. Ainda não esta bebendo água suficiente.

- Vou beber mais água então.

Sorri de forma agradável.

- Seus exames ainda não chegaram, então ainda não pude avaliar sua real condição.

Uma batida na porta nos interrompe. Fátima da recepção surge sorrindo.

- Sra. Martins.

A mãe de Larissa se afasta até a porta. As duas conversam e não parece nada bom.

- Larissa, vou sair um pouquinho e já volto.

- Certo!

Jéssica me olha e sorri.

- Preciso levar essas pastas até o balcão da enfermagem.

- Vou ficar mais um pouco. Acho que a Srta. Martins tem algumas dúvidas.

Larissa sorri me olhando. Jéssica sai, nos deixando a sós.

- Como consegue?

Encaro-a sem entender a pergunta.

- Desde que soube da minha doença todos me olham com pena. Como consegue me olhar e não ter o mesmo olhar que os outros?

Me sento na beira da cama, mantendo meus olhos nela.

- Por que eu teria pena de você?

- Porque provavelmente vou morrer.

Suspiro e em um ato um pouco íntimo seguro sua mão.

- Quem disse?

- Seja sincero, Dr. Aguiar! Quais as minhas chances de cura?

- Comigo sendo seu médico é de 100%.

Ela ri e gosto do som da sua risada.

- Um médico convencido.

- Um pouco.

Pisco para ela e me levanto.

- Acho que somente pessoas fortes são escolhidas por Deus para suportar uma doença assim.

Ela me observa atenta e gosto disso.

- Como posso sentir pena de pessoas guerreiras que suportam tanto? Como posso sentir pena de guerreiros que mesmo no fim da batalha, quase perdendo, sorriem para mim agradecendo por tudo?

Seus olhos brilham.

- Não me vejo forte assim. Talvez Deus tenha me dado essa doença não por ser forte, mas por ser fraca e querer me levar logo.

- Larissa, você não pode pensar assim. Se começar com esse tipo de pensamento, seu tratamento não vai adiantar.

Suspiro vendo a mulher frágil a minha frente.

- O seu tratamento é uma união da sua força, da sua vontade de vencer e dos medicamentos.

- Não sei se vou querer tratamento. Estou pensando seriamente em desistir de tudo, voltar para casa e deixar tudo acabar.

Não acredito no que ela acabou de dizer. Olho a cadeira de rodas no canto da sala. Ela fez alguns procedimentos que deixaram seu corpo cansado, mas preciso mostrar a ela um lugar.

- Consegue sair da cama um pouco?

Me olha e suspira.

- Meu corpo dói.

Ando até a cadeira de rodas e a empurro até perto de Larissa. Me aproximo dela e respiro fundo.

- Posso te pegar no colo?

Ela esta sorrindo.

- O que vai fazer?

- Te mostrar um mundo além do que esta vendo.

Ela ergue os braços.

- Pode.

Envolvo meus braços em torno dela, que me abraça no pescoço. Meu nariz se enfia em seu cabelo e sinto seu doce cheiro. Fecho meus olhos tentando acalmar meu corpo.

Levanto-a da cama e coloco na cadeira. Ela se acomoda e pego um lençol cobrindo suas pernas.

- Pronta?

- Sim...

Empurro sua cadeira para fora do quarto.

Ando com ela pelo corredor e Jéssica me olha assustada.

- Aonde vai?

- Dar uma volta.

Ela sabe para onde vou. Sempre passo lá depois das visitas nos quartos. Pego o elevador e subo dois andares. Larissa me olha pelo canto dos olhos.

- Costuma sequestrar suas pacientes?

- Só as com tendências suicidas.

Ela ri e me pego rindo também. As portas do elevador se abrem e ela sorri.

- É a ala infantil.

A parede toda tem desenhos de bichos.

- Sim...

- O que pretende me trazendo aqui?

Empurro sua cadeira até o salão principal.

- É a hora do jantar. E hoje é quarta-feira.

Assim que entramos no salão ela abre um enorme sorriso.

As crianças estão rindo e sentadas em uma enorme toalha no chão.

- Tio Enzo!

Melissa diz correndo em minha direção. Abaixo e a pego no colo.

- Vim ver vocês e saber se estão se comportando.

Ela olha para Larissa e depois para mim.

- É sua namorada?

- Não...

Respondo rindo e a desço do meu colo. Melissa tem seis anos e foi diagnosticada com tumor no cérebro. Perdeu seu cabelo durante as quimioterapias e usa tiara de princesa.

- Você é muito bonita. Seus olhos são incríveis.

Diz se aproximando de Larissa.

- Obrigada! Você também é muito bonita.

Larissa observa os acesos no bracinho da pequena e seus olhos se enchem de lágrimas.

- Você também está doente, né?

- Sim...

Larissa sussurra com a voz embargada. Melissa pula em seu colo, na cadeira de rodas.

- Não tenha medo. Vai passar e você vai sorrir muito depois de tudo isso.

- Jura?

Melissa abre um enorme sorriso.

- Tem dias que você vai ficar muito triste e vai sentir muita dor.

A pequena toca o rosto delicadamente da minha paciente negativa.

- Quando isso acontecer vem me ver. Prometo te fazer sorrir.

Larissa beija a cabeça de Melissa.

- Posso mesmo correr para você?

- Sim. Seremos melhores amigas para sempre.

Tenta sair do colo de Larissa, mas é agarrada.

- Fica mais um pouquinho comigo.

Larissa pede e abraça Melissa.

- Acho que consigo empurrar as duas.

Empurro a cadeira para perto da toalha.

- Você quer comer alguma coisa?

Srta. Martins observa tudo.

- Estou sem fome.

- Come meu bolo. Ele está tão gostoso.

Melissa pula da cadeira e segue para uma forma cheia de bolo de chocolate.

- Um pedaço pequeno.

Pede e a pequena pega o menor, voltando com cuidado e entregando o bolo.

Larissa começa a comer em pequenos pedaços. Ando em volta das crianças vendo se estão bem. Aparentemente Gilberto não cagou em tudo, fez o dia ser legal. Normalmente ele evita esses dias. Me aproximo da enfermeira.

- Onde está Gilberto?

- Não veio hoje. Paula esta de plantão em seu lugar.

- Está explicado o dia feliz deles.

A enfermeira não aguenta e ri. Vejo Melissa agarrada ao cabelo de Larissa. Ela tenta trançar e as duas estão rindo. A maioria das crianças aqui estão em tratamento pesado.

Algumas aguardam transplante e outras estão sofrendo na quimioterapia, mas o incrível é que ainda estão sorrindo como crianças felizes. Larissa me olha e sorri. Ela é linda. Acho que a mulher mais linda que já vi. Sei que vai passar por momentos difíceis, vai pensar em desistir diversas vezes, mas... Meu coração aperta. Ela merece ser feliz. Merece um homem ao seu lado que a ame independente disso tudo. Aquele merda não merece essa linda garota. Ela merece mais. Merece alguém que a trate bem. Que esteja ao seu lado em todos os momentos. Que a faça pensar em um futuro lindo. Casar, filhos e um amor para a vida toda. Por um momento me imagino ao seu lado nisso tudo. Aguiar isso é errado e nunca vai acontecer. Respiro fundo e volto para perto das menina. Beijo a cabeça de Melissa.

- Preciso levar Larissa de volta.

Melissa beija o rosto da Srta. Martins.

- Boa noite, amiga! Durma bem.

Larissa a puxa para seus braços e a aperta.

- Boa noite, Melissa!

Sigo com ela para fora da ala infantil. Entramos no elevador e seu silêncio é preocupante. Voltamos para o seu quarto e com cuidado pego-a no colo. Quando seus braços envolvem meu pescoço ela começa a chorar. Seu choro é angustiante e cheio de dor. Não consigo soltá-la. Me sento na cama com ela, que se encolhe toda em meu colo. Aliso suas costas sem saber o que fazer.

- É tão injusto essas crianças passarem por isso.

Sussurra em meu peito.

- Já disse... Somente pessoas fortes passam por isso tudo.

Seus olhos azuis se erguem e me olham perdidos.

- Não vou ter forças para tudo isso.

Minha mão toca seu rosto molhado pelas lágrimas.

- Vai sim. Vou estar aqui ao seu lado sempre. Vamos passar por isso juntos.

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