
A Cura de Eva: Encontrando o Amor Depois da Tempestade
Capítulo 3
A sala de espera do hospital estava fria e impessoal. Eu sentei-me sozinha, a preencher os formulários para a cirurgia. A minha mão tremia ligeiramente, mas a minha mente estava clara.
O Pedro não estava em lado nenhum. Provavelmente estava a "consolar" a Sofia ou a receber consolo da sua mãe.
O meu telemóvel vibrou com uma mensagem de um número desconhecido.
"Sra. Lima, aqui é o Tiago Costa. Fui eu que chamei a ambulância para si ontem na ponte. Só queria saber se está tudo bem consigo e com o bebé."
Uma onda de calor percorreu-me. Um estranho. Um completo estranho mostrou mais preocupação do que o meu próprio marido.
Respondi, as palavras a parecerem estranhas nos meus dedos. "Obrigada, Tiago. Eu estou bem. Mas o bebé... não sobreviveu."
A resposta foi quase imediata. "Sinto muito, muito mesmo. Não consigo imaginar o que está a passar. Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, por favor, não hesite em pedir."
Eu olhei para a mensagem dele, e depois para o espaço vazio ao meu lado onde o Pedro deveria estar. A diferença era gritante.
Guardei o seu número. "Obrigada. Significa muito."
Uma enfermeira chamou o meu nome. Era a hora.
Quando acordei da anestesia, a primeira coisa que senti foi um vazio. Um vazio físico, profundo, que ecoava o vazio no meu coração.
A minha sogra, a Dona Isabel, estava sentada ao lado da minha cama. A sua expressão não era de simpatia, mas de desaprovação severa.
"Finalmente acordada," ela disse, a sua voz cortante. "O Pedro teve de ir. A coitadinha da Sofia teve outra crise de ansiedade. Ele sentiu-se tão culpado por te deixar, mas ela precisa mesmo dele."
Ela não perguntou como eu estava. Ela não mencionou a minha perda.
"Ele ama-te muito, sabes," ela continuou, como se estivesse a recitar um facto de um livro. "Mas tu tornas as coisas tão difíceis. A exigir o divórcio num momento como este. É egoísmo puro."
Eu olhei para ela, a névoa da anestesia a dissipar-se. "Egoísmo? O seu filho deixou-me a sangrar no meio de uma ponte para ir ter com a ex-namorada dele. O nosso filho morreu, e ele ainda está com ela. E eu sou a egoísta?"
A Dona Isabel bufou. "Tu não entendes a ligação que eles têm. É profunda. A Sofia é frágil. Tu... tu és mais forte."
Era essa a minha maldição, então. Ser forte. Ser a que aguenta tudo, a que compreende, a que perdoa.
"Não mais," eu disse, a minha voz a ganhar força. "Acabou. Eu quero o divórcio, e vou tê-lo."
"Não sejas tola," ela retorquiu. "Vais deitar fora um bom casamento por causa de um pequeno deslize? O Pedro é um bom partido. Tem um bom emprego, uma boa família. O que é que tu tens?"
"Eu tenho a mim mesma," respondi. "E isso, a partir de agora, é suficiente."
A sua cara contorceu-se de raiva. "Tu vais arrepender-te disto. Vais acabar sozinha e infeliz. O Pedro vai seguir em frente. Ele vai encontrar alguém que o aprecie. Alguém que lhe possa dar filhos."
Cada palavra era calculada para magoar, para me diminuir. Mas não funcionou. As suas ameaças pareciam vazias.
A porta do quarto abriu-se e o Pedro entrou. Ele parecia cansado, os seus olhos vermelhos. Por um momento fugaz, pensei que talvez ele tivesse estado a chorar por nós.
Mas depois ele falou. "Mãe, a Sofia adormeceu. O médico deu-lhe um sedativo. Acho que devemos ir para casa para que ela possa descansar em paz."
Ele nem sequer olhou na minha direção. Eu era uma peça de mobiliário no quarto.
"Claro, meu querido," a Dona Isabel levantou-se, a alisar a sua saia. Ela lançou-me um último olhar de desdém. "Lembra-te do que eu disse, Eva."
Eles saíram juntos, mãe e filho, unidos na sua missão de proteger a frágil Sofia.
Eu fiquei sozinha no quarto silencioso, o vazio a consumir-me. Mas por baixo da dor, uma nova sensação começava a surgir.
Era liberdade.
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