
A Crueldade Retorcida do Meu Irmão
Capítulo 2
Ponto de Vista de Bianca Moraes:
A escuridão era uma amiga bem-vinda, me puxando mais fundo em seu abraço. Senti a pulsação fraca do meu pulso, ficando mais fraca, as bordas dos meus sentidos se turvando. Mas então, um gosto metálico e forte encheu minha boca. Uma mão apertou rudemente meu nariz e boca, forçando algo pela minha garganta. Meu corpo convulsionou, lutando contra a intrusão, mas eu estava fraca demais. Minha consciência piscou, depois se apagou.
Acordei com o cheiro estéril de desinfetante e o bipe rítmico das máquinas. Minha garganta ardia e minha cabeça latejava. Pisquei, tentando focar nas figuras embaçadas pairando sobre mim. Apenas enfermeiras e um soro intravenoso eram meus companheiros no quarto de hospital branco e austero.
Dr. Cordeiro, um homem de rosto gentil cujos olhos continham um cansaço familiar, inclinou-se sobre minha cama. "Bianca", disse ele, sua voz suave, mas firme. "De novo? O que aconteceu desta vez?"
Ele verificou meu pulso, seus dedos gentis em meu pulso. "Você quase não conseguiu, Bianca. Tivemos que fazer uma lavagem estomacal. Você teve sorte que um vizinho a encontrou."
Meu corpo doía, mas minha mente parecia estranhamente vazia. "Eles... eles mentiram para mim", murmurei, as palavras arranhando minha garganta crua. "Tudo era uma mentira."
Ele ficou em silêncio por um momento, seu olhar compassivo. "Eu sei que as coisas estão difíceis, Bianca", ele finalmente disse, sua voz carregada de uma exaustão que eu reconhecia em mim mesma. "Mas você não pode continuar fazendo isso. A vida é preciosa, não importa o quão escura pareça. Não deixe ninguém ditar o seu valor."
Eu sabia que ele estava cansado de mim. Todos estavam. Esta era a quarta vez que eu acabava aqui em cinco anos.
A primeira vez foi depois que Arthur supostamente foi para a cadeia. Eu fiquei na beirada da nossa cobertura nos Jardins, o horizonte de São Paulo zombando do meu desespero. Eu me culpei então, por sua "prisão", pela "ruína" da nossa família. Eu estava prestes a pular quando o pensamento dele, sozinho em uma cela, sem mim, me parou. Eu não podia abandoná-lo. Não podia.
Na segunda vez, eu estava morando em um quitinete apertado e infestado de baratas, mal conseguindo sobreviver. A fome, o assédio constante, era demais. Eu cortei meus pulsos, observando o carmesim florescer na minha pele pálida. Mas então imaginei o proprietário encontrando meu corpo, o aviso de despejo, a vergonha. Mesmo na morte, eu estava preocupada com questões práticas. Eu mesma enfaixei os ferimentos, sangrando através de bandagens baratas.
A terceira vez foi há apenas alguns meses, depois que uma onda particularmente brutal de cyberbullying levou à divulgação do meu endereço. Engolindo um punhado de pílulas para dormir, eu esperava por uma fuga permanente. Mas o universo, ou talvez apenas uma cruel reviravolta do destino, tinha outros planos. Um vizinho ouviu meus gritos fracos e pediu ajuda.
Dr. Cordeiro terminou seu exame, sua expressão sombria. "Quando você receber alta, vou garantir que não receba mais nenhuma receita de sedativos, Bianca. Precisamos encontrar um caminho diferente para você."
Minha voz era um sussurro seco. "Dr. Cordeiro, o senhor... o senhor já conheceu um homem que se parece comigo? Meu irmão. Ele... ele deveria estar aqui."
Ele balançou a cabeça, um sorriso triste tocando seus lábios. "Não, Bianca. Não desde que comecei a tratá-la. Sinto muito." Ele fez uma pausa. "Foi uma jovem que a trouxe desta vez. Ela disse que era sua vizinha."
Quando o Dr. Cordeiro saiu, uma súbita onda de adrenalina percorreu meu corpo. Não. Desta vez, eu não os deixaria vencer. Arranquei o soro do meu braço, uma picada aguda. O sangue brotou, mas eu o ignorei, me levantando da cama.
Tropecei para o corredor. Uma jovem estava perto do posto de enfermagem, de costas para mim. Ela se virou, e um pavor gelado se enrolou no meu estômago. Era Késia. Seus olhos, geralmente tão calculistas, agora continham um brilho de satisfação maliciosa ao encontrarem os meus.
"Nem pra morrer você serve, não é, Bianca?", ela zombou, sua voz baixa o suficiente para que apenas eu pudesse ouvir. "Típico. Sempre fazendo bagunça e deixando para os outros limparem."
Minha voz era plana, desprovida de emoção. "Quando exatamente você se tornou minha vizinha, Késia?"
Seus olhos se arregalaram por uma fração de segundo, um lampejo de surpresa, antes que ela se recuperasse. "Ah, o Arthur me pediu para ficar de olho em você enquanto ele está... fora. Sabe, para garantir que você não faça nenhuma besteira." Seu sorriso era doentiamente doce. "Ele se importa com você, Bianca, apesar de tudo."
Ela se virou para sair, seus saltos estalando no chão polido. Então, ela parou, olhando para trás. "Da próxima vez, tente ser um pouco mais discreta. As contas do hospital estão se acumulando, e é um grande inconveniente." Ela piscou, um gesto de pura maldade.
Eu a observei ir, meu rosto inexpressivo. A camisola do hospital esvoaçava ao meu redor enquanto eu saía, passando pelo posto de enfermagem, pelos olhares de pena, e para a rua. O ar cortante de São Paulo me atingiu, um choque para o meu sistema. Meu apartamento ficava a apenas alguns quarteirões de distância.
Quando cheguei ao meu prédio, o fedor de fezes de cachorro havia sumido. A pichação vermelha e feia na parede, a palavra "VADIA" que me assombrou por semanas, estava limpa. Alguém esteve aqui. Alguém limpou as evidências de seu tormento.
Minhas mãos tremiam enquanto eu destrancava a porta. Lá dentro, o pequeno e miserável apartamento estava impecável. O vidro quebrado da minha última tentativa de suicídio havia sumido. Os móveis virados estavam no lugar. Mas então, meus olhos pousaram na janela. Atrás da cortina esfarrapada, uma lente de câmera minúscula, quase invisível, brilhava. Arthur estava me observando. Todo esse tempo. Ele não estava na cadeia. Ele estava apenas assistindo sua irmã morrer lentamente.
Ele até limpou a bagunça da minha tentativa de suicídio, não para me ajudar, mas para apagar a prova de seu jogo monstruoso. Meu peito se apertou até que eu mal conseguia respirar.
Entrei no banheiro, o cenário do meu último fracasso. Os cacos de cerâmica da caixa de porcelana favorita da minha mãe, aquela que guardava suas cinzas, haviam sumido. A foto rasgada e emoldurada dos meus pais e de Arthur, uma relíquia de uma vida agora morta, não estava em lugar nenhum. Késia deve tê-la encontrado. Ela deve ter me visto ali, quebrada, ensanguentada, agarrando os únicos resquícios do meu passado.
A imagem daquela noite, meu grito cru e primal ecoando no pequeno banheiro, voltou com força. Eu era uma bagunça patética, esparramada no chão frio, cercada pelo meu próprio sangue e pelos pedaços estilhaçados das minhas memórias.
Késia queria que eu morresse, mas não daquele jeito. Não de uma forma que deixasse um rastro para Arthur encontrar. Ela queria controlar até mesmo a minha morte, para esconder a verdade dele.
Uma risada amarga e histérica tentou escapar da minha garganta, mas se dissolveu em um soluço engasgado. Caí no chão, minhas pernas cedendo. O chão frio pressionava minha pele, espelhando o frio em minha alma. Eles tinham feito isso comigo. Tudo isso. Por cinco anos. E era tudo um jogo.
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