
A Criança Que Carreguei em Segredo
Capítulo 2
Ponto de Vista de Helena Freitas:
Entrei em nossa cobertura meticulosamente decorada nos Jardins, cada passo parecendo mais pesado que o anterior. Bruno já estava lá, largado no sofá, seu cabelo geralmente impecável, desgrenhado. Ele parecia completamente exausto, o tipo de fadiga profunda que vem de viver uma vida dupla. Ou apenas uma longa noite fora, eu disse a mim mesma, a mentira com gosto de cinzas.
Ele resmungou algo sobre uma reunião tardia, depois tropeçou para o banheiro principal, deixando seu celular e smartwatch descuidadamente na mesa de centro. A tela do celular dele acendeu com uma nova mensagem, uma prévia piscando na tela de bloqueio. *Pensando em você, papi. Já com saudades.*
Minha mão, como se guiada por uma força invisível, alcançou o aparelho. Meu coração martelava contra minhas costelas, um pássaro frenético preso em uma gaiola. *Não faça isso, Helena. Não vá procurar o que você não quer encontrar.* Mas uma parte perversa de mim, a parte que ansiava pela verdade brutal, se recusou a ouvir.
Eu sabia a senha dele. Era nosso aniversário, a mesma data em que nos conhecemos na faculdade. Uma risada amarga ficou presa na minha garganta. Com que facilidade ele entregou as chaves de seu engano.
Meus dedos voaram pela tela, encontrando seus aplicativos de mensagens. Minha respiração falhou. Lá estava. A foto de perfil familiar. O avatar do SegredosAnônimos. Meu estômago se revirou.
Um pavor frio se infiltrou em meus ossos, me gelando até a alma. Parecia que uma mão invisível havia agarrado meu coração, espremendo a vida dele. Isso era real. Isso não era uma coincidência.
Mas uma parte de mim, a parte que construiu um império do nada, se recusou a ficar satisfeita com a mera confirmação. Eu tinha que saber tudo. Rolei para outro aplicativo de mensagens, um que ele raramente usava, um que eu não tinha pensado em verificar antes.
Lá, fixada no topo, estava uma conversa com um contato chamado "Meu Docinho". Minha visão embaçou. Meu Docinho. O apelido era infantilizante, enjoativamente doce.
Eu conhecia aquele nome. Minha mente correu, juntando fragmentos de memória que eu havia descartado como inocentes. Jéssica. Jéssica Ramos. A estagiária ambiciosa e expert em redes sociais. Ela havia se juntado à nossa empresa há um ano, recém-saída da faculdade, toda inocência de olhos arregalados e elogios efusivos a Bruno.
Lembrei-me de Bruno cantando seus louvores: "Ela me lembra de você, Helena, quando começamos. Tão determinada." Agora eu sabia o que ele realmente queria dizer. *Ela me lembra de você, Helena, antes de você se tornar bem-sucedida, antes de você se tornar minha igual.*
Lembrei-me da noite em que ela o trouxe para casa, bêbado, depois de um "jantar com cliente". Ela se desmanchou em elogios sobre como estava preocupada, como se certificou de que ele estava seguro. Eu a agradeci, genuinamente comovida. Tola.
Depois, havia as pequenas coisas. Jéssica sabendo o pedido de café favorito de Bruno, a marca de suas meias, a temperatura exata que ele gostava no termostato do escritório. Eu havia ignorado isso como o entusiasmo de uma estagiária, um desejo de impressionar o CEO. Agora, cada detalhe era uma punhalada.
Meu eu do passado, confiante e ingênuo, parecia um fantasma me assombrando. Como pude ser tão cega? Eu, Helena Freitas, a mulher que conseguia identificar uma tendência de mercado a quilômetros de distância, que conseguia dissecar a estratégia de um concorrente com precisão cirúrgica, estava totalmente alheia à podridão que se alastrava em minha própria casa. Minha base, o amor sobre o qual construí toda a minha vida, estava desmoronando.
Abri o chat. As mensagens me atingiram como um golpe físico. Bruno planejando o aniversário de Jéssica, um fim de semana luxuoso em uma cabana isolada. "Qualquer coisa pelo Meu Docinho", ele havia escrito. O mesmo Bruno que havia esquecido meus dois últimos aniversários, citando "responsabilidades corporativas".
As respostas de Jéssica estavam cheias de emojis possessivos e exigências. "Você é meu, Bruno. Nunca se esqueça disso." E a resposta dele? "Nunca, amor."
Nunca? Lembrei-me de uma conversa que tivemos há apenas alguns meses, um raro momento de vulnerabilidade quando perguntei se ele ainda me achava atraente, se ainda me amava. Ele zombou: "Helena, somos parceiros. Estamos além de toda essa baboseira romântica. Temos uma empresa para administrar." Baboseira.
Então vieram as mensagens sobre o nosso futuro, aquele que estávamos construindo. Jéssica reclamou que ele estava "preso". A resposta de Bruno foi arrepiante. "Em breve, querida. Só mais um pouco de tempo. Eu nunca quis me casar de qualquer maneira."
*Nunca quis me casar de qualquer maneira.* As palavras ecoaram na minha cabeça, zombando dos votos que trocamos, dos sonhos que construímos, dos sacrifícios que fiz.
Meus olhos pousaram em uma foto, um close do pulso de Jéssica. Ela estava usando a pulseira de esmeraldas da minha avó, aquela que eu dei a Bruno para guardar em segurança, uma herança de família, um símbolo do nosso vínculo. Ela havia sumido da cômoda dele. Sumido.
Uma onda de dor, tão imensa que ameaçava me afogar, me invadiu. Não era apenas traição; era profanação. Tudo o que eu considerava sagrado, tudo em que acreditava, havia sido profanado. O ar saiu dos meus pulmões em um suspiro irregular. Meu mundo, antes tão claramente definido, se estilhaçou em um milhão de pedaços irreparáveis.
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