
A Criança Que Carreguei em Segredo
Capítulo 3
Ponto de Vista de Helena Freitas:
A porta do banheiro se abriu com um rangido. Bruno saiu, uma toalha enrolada na cintura, o vapor grudado em sua pele. Ele me viu, com o celular ainda na mão, e seu rosto perdeu a cor. Seus olhos se fixaram na tela iluminada, depois piscaram descontroladamente para o meu rosto.
"Helena? O que você está fazendo?" Sua voz era um sussurro áspero, tingido de pânico. Ele se lançou para pegar o celular, mas eu o segurei com força.
"Me dá isso! Você está mexendo nas minhas coisas? Isso é invasão de privacidade!" Ele gaguejou, tentando recuperar o controle, tentando virar o jogo. Meu olhar se desviou para sua garganta. As marcas vermelhas fracas, quase imperceptíveis em seu pescoço, haviam sumido, esfregadas até ficarem limpas.
"Eu só peguei para colocar no carregador, Bruno", eu disse, minha voz estranhamente calma. "Estava tocando." A mentira tinha um gosto amargo, mas eu precisava de tempo. Eu precisava ver a reação dele, vê-lo se contorcer.
Ele relaxou visivelmente, um suspiro de alívio escapando de seus lábios. "Ah, certo. Desculpe. Eu só... você sabe como sou sensível com minhas coisas de trabalho." Ele até conseguiu um sorriso fraco. Sensível? Ou culpado?
Lembrei-me de suas grandes declarações sobre transparência, sobre como éramos parceiros em tudo, sem segredos entre nós. Que piada.
"Então", comecei, minha voz ainda perigosamente suave, "como foi aquele 'jantar de trabalho' ontem à noite? Você fechou o negócio?"
Ele hesitou, seus olhos percorrendo o quarto. "Uh, sim, bem... fizemos algum progresso. É um cliente difícil, sabe. Muita bajulação." Suas palavras eram uma bagunça emaranhada, uma tapeçaria de evasivas.
Uma lágrima, sem ser convidada, escorreu pela minha bochecha, depois outra, até meu travesseiro ficar úmido. Eu não conseguia mais segurar. A represa se rompeu.
Bruno congelou, seus olhos arregalados. "Helena? O que há de errado? Por que você está chorando?" Ele correu para o meu lado, envolvendo-me em um abraço que mais parecia uma jaula. "Oh, amor, me desculpe. Eu sei que tenho estado distante ultimamente. O trabalho, sabe. Tem sido uma loucura." Ele acariciou meu cabelo, seu toque enviando arrepios de repulsa pela minha espinha.
"Dói, Bruno", eu disse com a voz embargada, uma nova onda de soluços sacudindo meu corpo. "Tudo dói. Meu estômago, minha cabeça... tudo."
"Eu sei, eu sei." Ele murmurou, afastando-se o suficiente para olhar nos meus olhos. Seu rosto era uma máscara de preocupação, seus olhos brilhando com o que parecia ser uma tristeza genuína. "Sinto muito por não estar aqui para você ontem. Eu deveria ter estado. Eu realmente sou o pior." Ele encontrou a bolsa de água quente, encheu-a e a colocou gentilmente no meu estômago, suas mãos esfregando minhas costas em círculos lentos e reconfortantes.
Eu o observei, minhas lágrimas embaçando seu rosto. Ele me olhava com uma intensidade que revirava meu estômago. Havia uma tristeza terna em seus olhos, um anseio desesperado. Poderia ser real? Ele poderia realmente me amar, mesmo depois de tudo?
Mas o amor, percebi, era uma coisa complicada. Especialmente depois de uma década de luta compartilhada, sonhos compartilhados, tudo compartilhado. Não era apenas um sentimento; era uma teia emaranhada de hábito, dependência e conveniência. Ele podia sentir algo por mim, lá no fundo, um vestígio do homem que eu conheci, mas estava manchado, envenenado por suas ações.
Eu não era uma personagem de algum romance dramático que poderia simplesmente ir embora, livre e sem amarras. Nossas vidas estavam muito entrelaçadas, nossa empresa, nossas finanças, todo o nosso futuro. Ele era meu parceiro, meu marido, meu co-fundador. Desembaraçar-nos seria um massacre.
"Bruno", eu disse, minha voz rouca, mas firmando-se com uma nova resolução. "A Jéssica tem que ir embora."
Suas mãos pararam nas minhas costas. Ele olhou para cima, o rosto marcado pela surpresa. "Jéssica? Do que você está falando? Ela é só uma estagiária, uma garota." Ele tentou soar indiferente, mas um lampejo de medo dançou em seus olhos.
Eu apenas o encarei, meu silêncio mais potente do que qualquer acusação. Meu olhar era frio, inflexível.
Ele se contorceu sob meu olhar, depois suspirou, um som longo e arrastado de derrota. "Tudo bem. Tudo bem, Helena. O que você quiser. Eu vou... eu vou demiti-la. Você está certa. Ela é muito jovem, muito... distrativa." Ele fez uma pausa, depois olhou para mim, seus olhos suplicantes. "Apenas me diga o que você precisa, Helena. Qualquer coisa. Eu farei qualquer coisa para consertar isso."
Qualquer coisa? Pensei. Veremos.
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