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Capa do romance A Corte Dos Desejos Velados

A Corte Dos Desejos Velados

Entre bailes e segredos, a corte observa o enigmático Conde Roberto de Alvarenga, um homem de presença avassaladora e mistérios profundos. Sua vida colide com a de uma jovem perspicaz, capaz de enxergar além das máscaras sociais. O encontro gera uma conexão inevitável e perigosa, selando um destino entrelaçado por desejos proibidos. Em um cenário de intrigas, essa paixão latente ameaça consumir tudo ao redor, transformando para sempre o mundo silencioso do conde.
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Capítulo 2

A música da valsa se espalhava pelo salão como perfume, suave e envolvente, mas para Amélia o mundo já não possuía sons definíveis. Tudo havia sido substituído pelo toque quente — devastador — dos lábios do conde sobre sua mão. Aquele toque não desaparecia. Apenas se aprofundava, como se a pele tivesse memorizado a pressão, o calor, a audácia.

Ela respirou fundo, tentando reunir dignidade, mas Roberto não parecia disposto a permitir-lhe qualquer refúgio. Ele ainda segurava sua mão. Não com brutalidade, mas com uma firmeza estudada, como quem segura o fio de um pensamento que deseja prolongar.

— Vejo que não está habituada a tantos olhares — murmurou ele, aproximando-se devagar, tão perto que sua voz parecia tocar o ar que cercava o rosto dela.

Amélia lutou para recuperar o controle.

— Não estou habituada a estes salões, senhor. Muito menos… — Ela hesitou, procurando palavras que não soassem presunçosas. — …a estar tão próxima de alguém como o senhor.

Os olhos do conde brilharam — um brilho sombrio, curioso, perigoso, como o lampejo de um lobo observando sua presa sob a neve.

— Alguém como eu? — repetiu ele, num tom que pedia mais do que uma resposta.

— Alguém importante — corrigiu ela. — Alguém cuja presença altera o ambiente.

Roberto soltou um som baixo — não exatamente um riso, mas uma nota breve de reconhecimento. Não era o riso de um homem divertido, e sim de alguém que sabe muito bem o peso da própria influência.

— A importância não me interessa — murmurou ele. — O tédio, sim. E devo admitir… — Ele inclinou-se o suficiente para que o perfume dele envolvesse o pescoço de Amélia. — …você está muito longe de ser entediante.

Um arrepio percorreu-lhe a espinha.

— Eu sequer falei, senhor — sussurrou ela.

— Não preciso de palavras para me interessar — respondeu ele, tão próximo que sua respiração misturou-se à dela.

Amélia afastou-se apenas o necessário para recuperar espaço — um espaço que ele permitiu, e isso tornava tudo ainda mais inquietante.

— Sou apenas consultora da condessa Helena — disse ela, tentando sustentar uma formalidade. — Apenas isso.

— Você insiste nessa palavra — murmurou Roberto. — Mas ela não lhe cabe. Nunca coube.

Amélia ergueu a sobrancelha.

— E por que não?

Ele inclinou-se, mas desta vez o gesto era menos predatório e mais estudado — como se estivesse observando a reação dela com precisão absoluta.

— Porque nada em você é simples ou pequeno — respondeu. — Nem sua postura. Nem seu silêncio. Nem a forma como tenta se esconder… e falha.

As palavras tocaram Amélia com mais força do que qualquer contato físico.

Ela abriu a boca para responder — mas ele já havia a deixado sem fala.

---

Roberto recuou um leve passo, mas seus olhos não a deixaram. Ele a examinava não como um homem observa uma mulher bonita, mas como um estrategista avalia uma adversária digna — uma que poderia surpreendê-lo.

— Não a vi em eventos anteriores — disse o conde, a voz carregando calma e domínio. — É nova no círculo vienense?

— Sou nova… no mundo deles — disse Amélia, olhando discretamente para as damas adornadas como vitrines. — Não pertenço à aristocracia.

— Talvez esse seja seu maior triunfo — respondeu ele, com suavidade perigosa.

— Triunfo? — ela repetiu, surpresa.

— Claro. — O olhar dele desceu lentamente até os lábios dela. — Não há nada mais atraente do que alguém que não tenta impressionar… e, mesmo assim, impressiona.

O estômago de Amélia se contorceu.

Ele era perigoso.

Mas não por poder social.

Não por ser um nobre influente.

Ele era perigoso porque parecia enxergar camadas que ninguém jamais havia notado nela.

---

— Vejo que já fez uma vítima — anunciou a condessa Helena, surgindo ao lado deles com um balanço decidido de veludos e perfume de rosas secas.

Amélia quase suspirou de alívio.

Quase.

Porque o sorriso que a condessa lançou ao conde era uma provocação calculada.

— Condessa — disse Roberto, inclinando a cabeça com um respeito impecável. — Sempre magnífica.

— Sempre vigilante — corrigiu ela, abanando o leque devagar. — E, ao que parece, hoje preciso redobrar a atenção.

Amélia ficou corada.

— Protegida? — Roberto repetiu, com interesse genuíno.

— Sim — disse a condessa, pousando a mão em seu ombro. — Esta jovem é mais valiosa do que aparenta.

O olhar do conde escureceu.

Não de raiva.

De reconhecimento.

Como se confirmasse uma suspeita.

— Imagino que seja — murmurou ele. — E isso torna esta conversa ainda mais interessante.

— Interessante demais — replicou Helena.

— Incomoda-a? — perguntou Roberto.

— Ainda não — disse ela, com um sorriso enigmático. — Mas dê tempo.

Ele sorriu — um sorriso lento, perigoso, prometendo problemas deliciosos.

— Por enquanto, peço licença — disse ele. — Não por falta de desejo, mas porque a música requer minha presença.

Então fixou os olhos em Amélia.

— Voltarei para você ainda esta noite.

E se afastou como quem leva consigo a própria gravidade do ambiente.

---

O salão continuou vivo, cintilante, vibrante.

Mas Amélia já não via nada da mesma forma.

As conversas com diplomatas, os cumprimentos, os olhares curiosos… tudo parecia distante. Como se ela estivesse vivendo em dois mundos ao mesmo tempo: o real, cheio de regras e protocolos, e o outro — o que existia apenas entre ela e o conde — feito de tensão silenciosa e desejo proibido.

E, em todos os momentos, ela sentia o olhar dele.

Mesmo quando não o via. Sentia.

Como se seu corpo tivesse desenvolvido uma sensibilidade nova — uma bússola interna apontada para a presença dele.

---

Pouco antes da meia-noite, incapaz de suportar o calor do salão, Amélia escapou para o jardim lateral. O ar frio tocou seu rosto com a delicadeza da neve prestes a cair.

Ela fechou os olhos, permitindo-se respirar.

— Fugindo do baile? — perguntou uma voz baixa atrás dela.

Amélia virou-se.

Roberto estava ali.

Como se tivesse sido convocado pelos pensamentos dela.

Ou como se estivesse esperando exatamente aquele momento.

— Não estou fugindo, senhor — disse ela. — Só precisava de ar.

— Ar é algo precioso dentro daquele salão — murmurou ele. — Mas não foi por isso que veio.

— E por que viria, então?

Ele se aproximou devagar.

Devagar demais.

— Talvez — disse ele, parando tão perto que o calor do corpo dele era palpável — porque fui o único que fez seu coração falhar uma batida.

O ar desapareceu dos pulmões dela.

— Como pode saber disso? — sussurrou.

— Porque o meu também falhou — respondeu ele.

Aquela simples frase valeu mais do que qualquer confissão.

O silêncio que seguiu era denso.

Carregado de tensão, desejo e uma promessa que nenhum dos dois ousaria nomear.

— Eu não sei como lidar com alguém como o senhor — confessou Amélia.

Roberto inclinou o rosto para o dela.

— Não tente lidar — murmurou. — Apenas sinta.

Ela deveria ter recuado.

Mas não recuou.

Quando ele tocou suas mãos, não o fez com força — mas com uma lentidão que desfazia qualquer defesa.

E Amélia… permitiu.

— Eu não deveria querer você — sussurrou ela.

— Nem eu deveria querer você — respondeu ele.

Os olhos dele escureceram ainda mais.

— Então estamos igualmente perdidos.

Ele tomou a mão dela e a levou até o próprio peito.

O coração dele batia rápido.

Forte.

Como se algo dentro dele estivesse despertando.

— Isso nunca acontece comigo — murmurou.

Amélia tentou responder.

Mas ele se inclinou — devagar, consciente, decidido — e roçou os lábios nos dela.

Não foi um beijo.

Foi pior.

Ou melhor.

Foi um quase-beijo que queimava mais do que qualquer toque real.

E, naquele instante, Amélia soube:

Não havia retorno.

Aquele homem — perigoso, magnético, inacessível — acabara de reivindicar algo dentro dela.

E ela não queria fugir.

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