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Capa do romance A Corte Dos Desejos Velados

A Corte Dos Desejos Velados

Entre bailes e segredos, a corte observa o enigmático Conde Roberto de Alvarenga, um homem de presença avassaladora e mistérios profundos. Sua vida colide com a de uma jovem perspicaz, capaz de enxergar além das máscaras sociais. O encontro gera uma conexão inevitável e perigosa, selando um destino entrelaçado por desejos proibidos. Em um cenário de intrigas, essa paixão latente ameaça consumir tudo ao redor, transformando para sempre o mundo silencioso do conde.
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Capítulo 3

Amélia não era mulher de se impressionar com facilidade. Não depois de tudo que já havia enfrentado — a infância simples nas colinas do interior, a educação improvisada que ela mesma buscou nas sombras de bibliotecas esquecidas, e a ascensão improvável para um mundo que, embora a observasse com curiosidade, raramente a merecia.

Ainda assim, naquela manhã fria da Áustria, quando a névoa começava a se erguer dos jardins da mansão do tio, ela sentiu um arrepio incomum percorrer-lhe a espinha.

Uma carruagem negra aproximava-se pelo caminho principal.

Uma carruagem marcada por um brasão que ela jamais confundiria.

O brasão dos Von Steinburg.

Dourado. Imponente. Esculpido com precisão quase cruel.

Duas serpentes entrelaçadas formando um círculo perfeito — símbolo antigo das famílias mais tradicionais do norte austríaco. Um emblema tão velho quanto as primeiras cortes secretas que comandavam, das sombras, os rumos do Império.

Diziam que apenas os mais influentes carregavam aquele símbolo.

E diziam também que o Conde raramente saía de suas próprias terras para visitar alguém pessoalmente.

Então…

Por que ele viria até ela?

Por que agora?

Por que depois daquele baile em que, diante de todos, ele a olhara como se o resto do salão tivesse desaparecido?

Amélia apoiou as pontas dos dedos no vidro frio da janela. A carruagem parou diante da entrada principal com precisão militar. Dois cocheiros vestidos de negro desceram em perfeito sincronismo. Um deles abriu a porta.

E ele surgiu.

Roberto Von Steinburg.

Desceu com a elegância de um homem que nascera para comandar a atenção — não, para exigi-la. A luz da manhã iluminou seus cabelos escuros, arrumados com um cuidado impecável. O casaco de veludo negro cintilou suavemente, e o vento levantou apenas o suficiente da gola alta para revelar o contorno de seu pescoço forte.

Não caminhava.

Deslizava.

E cada passo parecia calculado, profundo, uma ameaça mansa.

Quando ergueu os olhos, viu Amélia.

Diretamente.

Como se soubesse onde ela estaria.

Como se tivesse sentido sua presença antes mesmo de a carruagem se aproximar.

Um sorriso leve — quase imperceptível — desenhou-se nos lábios dele. Não era um cumprimento. Não era gentileza. Era… uma provocação.

“Eu sei que você me sente.”

Era o que aquele sorriso dizia.

Amélia respirou fundo, mas não conseguiu impedir o tremor que subiu por sua espinha.

— Senhorita Amélia? — a governanta apareceu no corredor, ofegante. — O Conde Von Steinburg solicita sua presença na sala de visitas.

Solicita.

Como se um homem como ele pedisse alguma coisa.

Amélia ajeitou a gola de seu vestido simples, porém refinado. Há muito havia aprendido a não se submeter ao medo. Seu olhar refletiu determinação.

Ela tinha mérito. Ela tinha valor. Ela tinha inteligência.

E nenhum conde — por mais magnético que fosse — tiraria isso dela.

Ergueu o queixo e caminhou até a sala de visitas.

---

A sala parecia diferente naquela manhã — menor, mais silenciosa, mais quente. Mas talvez fosse apenas a presença dele que moldava o espaço ao redor.

Roberto estava de costas, observando a grande pintura acima da lareira. Ombros largos. Postura impecável. As mãos cruzadas atrás das costas revelavam controle absoluto — não apenas do próprio corpo, mas de qualquer ambiente que ocupasse.

— Conde Roberto — disse Amélia, mantendo a voz firme.

Ele se virou lentamente.

Devagar demais.

Como se saboreasse o momento.

Como se ansiasse ver o que aquele instante arrancaria dela.

Quando seus olhos encontraram os dela, algo dentro de Amélia se dobrou. Não de fraqueza — de reconhecimento.

Aquela escuridão silenciosa… atraía.

— Senhorita Amélia — respondeu ele, inclinando a cabeça. — Ainda guarda o hábito de observar o mundo antes que o mundo a observe. Admirável.

Ela franziu o cenho.

— Não sabia que pretendia vir pessoalmente.

Um sorriso ladeou seus lábios.

— Eu não venho. Eu escolho onde estar.

O calor subiu pelo pescoço dela — raiva, talvez; desejo, certamente. Ele se aproximou com passos lentos, medidos. O som leve das botas sobre o mármore parecia fundir-se ao ritmo acelerado do coração dela.

Parou perto demais.

O perfume dele — notas de madeira quente, tabaco suave, algo profundo e proibido — envolveu-a. Era quase um toque.

— Vim lhe entregar isto — ele disse.

Tirou do bolso interno um envelope vermelho. Selado com cera. O símbolo das serpentes brilhava.

— O que é? — ela perguntou.

Roberto inclinou-se ligeiramente, de modo que sua respiração roçasse a pele sensível da orelha dela.

— Um convite — murmurou. — Para algo que não se envia por mensageiros. Algo que exige minha presença. E a sua.

Amélia engoliu um nó quente.

— E o que exige de mim?

Ele ergueu o rosto até encontrá-la com os olhos. A intensidade daquele olhar quase a fez recuar.

— Coragem. — Ele deu um meio sorriso. — E inteligência. Ambas raras.

— Está me testando? — ela rebateu.

— Naturalmente.

Ela respirou fundo, sem desviar.

— O que há neste convite?

A resposta veio como um golpe suave.

— A primeira porta.

— Porta para quê?

Os olhos dele brilharam perigosamente.

— Para o que a corte não mostra.

Para o que ela esconde.

Um arrepio percorreu Amélia.

A corte velada.

A verdadeira corte.

Aquela que regia pactos silenciosos, alianças obscuras e desejos que jamais poderiam ser mencionados em público.

A corte dos desejos velados.

Amélia sabia que ele falava dessa.

E ele sabia que ela compreendia.

— Por que eu? — ela perguntou, baixando a voz.

Roberto aproximou-se mais uma vez, devagar, como se o próprio ar entre eles fosse algo que ele pudesse manipular.

— Porque você vê. — Seus olhos escureceram. — E porque você sente.

O coração dela falhou um batimento.

— Sinto o quê?

— Sente tudo.

A frase atravessou o ar como um toque.

Ela estremeceu.

Ele ergueu a mão — não para tocá-la, mas para desenhar, no espaço entre eles, um contorno invisível de seu rosto.

— Abra quando estiver sozinha — murmurou. — E venha… se tiver coragem.

Ela o encarou com firmeza ardente.

— E se eu não tiver?

O sorriso mais perigoso que ele já lhe deu surgiu então.

— Então eu irei buscá-la.

Ela perdeu o fôlego.

Roberto deu um passo atrás, virando-se lentamente. Ao chegar à porta, parou.

— Amélia…

— Sim? — sua voz saiu baixa.

— Quando voltar a estar diante de mim… esteja pronta para perder mais do que a fala.

E ele se foi.

A sala mergulhou em silêncio, como se respirasse em nome dela.

Amélia olhou para o envelope vermelho entre os dedos.

Ainda não o abrira.

Mas já sabia.

Se atravessasse aquela porta…

Não haveria retorno.

— Eu vou — sussurrou.

E o destino sorriu.

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