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Capa do romance A Cor do Nosso Reencontro

A Cor do Nosso Reencontro

Em Valverde do Sul, Ísis Buonavitta e Giorgio Cezario tentam superar um amor juvenil interrompido por pressões familiares. Dez anos depois, Giorgio é um CEO pragmático noivo da interesseira Soraya, enquanto Ísis volta como artista para abrir sua galeria. Ao descobrir que o imóvel dos seus sonhos pertence ao ex-namorado, antigos sentimentos ressurgem. Entre o luxo corporativo e a arte, eles testam se o destino pode pintar um novo capítulo para ambos.
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Capítulo 2

Valverde do Sul exibia uma de suas manhãs mais cinzentas quando o táxi parou em frente ao que um dia fora a gloriosa Galeria Buonavitta. Ísis respirou fundo, e o ar úmido e mofado, carregado de lembranças, encheu seus pulmões. O casarão antigo, com suas janelas empoeiradas e a placa torta, era uma sombra do vibrante centro de arte que sua avó, a excêntrica matriarca da família, havia mantido viva por décadas. Agora, a fachada descascada parecia gritar por socorro, refletindo um pouco do que ela mesma sentia.

**

- É aqui que começa tudo de novo, Ísis - murmurou para si mesma, ajustando a alça da sua mochila pesada, que continha mais pincéis e esperanças do que qualquer outra coisa.

Ela tinha acabado de chegar, após anos morando e estudando em capitais cosmopolitas, mas o chamado de suas raízes artísticas e o desejo de reviver o legado da família a trouxeram de volta. Valverde do Sul era sua tela vazia, e ela estava determinada a preenchê-la com as cores que a cidade parecia ter esquecido.

O primeiro passo era encontrar um novo espaço. O casarão da família, infelizmente, estava em condições deploráveis e as reformas seriam caríssimas. Ísis precisava de um lugar que pudesse transformar, que tivesse a alma da arte, mas que também fosse acessível. Foi então que seu amigo e corretor, Leo, mencionou o antigo galpão da Rua das Violetas – um espaço amplo, com ótima iluminação natural, perfeito para uma galeria e ateliê. O único problema, ele avisara, era o proprietário: as Empresas Cezario.

O nome fez um arrepio percorrer a espinha de Ísis. Cezario. Um sobrenome que evocava não apenas poder e dinheiro em Valverde, mas também a sombra de um passado que ela havia tentosamente varrido para debaixo do tapete da memória.

- Boa sorte com o "Doutor Cezario", Ísis - Leo brincou ao telefone, poucas horas antes da reunião. - Dizem que ele é... metódico. E implacável.

"Metódico e implacável", ela pensou. Como o tempo pode mudar uma pessoa. O Giorgio que ela conhecia era um menino com as mãos sujas de tinta e o riso fácil, que sonhava em construir pontes e desenhar arranha-céus imaginários em cadernos rabiscados. O Giorgio de hoje, o CEO, era uma lenda urbana, um fantasma de um futuro que ela havia abandonado.

Ela estava parada diante do imponente edifício de vidro e aço das Empresas Cezario, um arranha-céu que perfurava o céu cinzento de Valverde como um agulha. Lá em cima, no último andar, ela sabia que a reunião aconteceria. A reunião que poderia significar o futuro da sua arte ou o fechar de mais uma porta.

Enquanto subia os degraus de mármore polido, sentiu o peso do seu portfólio na mão, mas também a leveza de uma determinação inabalável. Ela não era mais a garota ingênua que pintava flores no jardim da avó. Era Ísis Buonavitta, artista plástica, e ela não se curvaria. Não para a herança de ninguém, muito menos para a sombra de um amor esquecido.

O elevador social das Empresas Cezario era silencioso e rápido, uma caixa de metal polido que parecia isolar o mundo exterior. Ísis observava seu reflexo no espelho: o vestido de linho leve e os cabelos ondulados um pouco rebeldes destoavam completamente das executivas de tailleur que cruzavam o lobby. Ela se sentia como uma mancha de cor em uma fotografia em preto e branco.

Quando as portas se abriram no 42º andar, o ar condicionado gelado a atingiu. A recepção era minimalista, decorada com móveis de design escandinavo e uma ausência absoluta de alma.

- Pois não? - A secretária, uma mulher cuja postura era tão rígida quanto a mobília, mal desviou os olhos da tela.

- Ísis Buonavitta. Tenho uma reunião com o Sr. Cezario sobre o imóvel da Rua das Violetas.

A secretária arqueou uma sobrancelha. - Ah, sim. A... artista. Aguarde um momento. O Sr. Cezario está terminando uma chamada com a noiva, a Srta. Sousa.

O estômago de Ísis deu um nó. Noiva. Ela sabia que ele teria seguido em frente, é claro. Dez anos é tempo suficiente para construir e destruir impérios, quanto mais para esquecer uma paixão de adolescência. Mas ouvir o título em voz alta, associado a um nome que exalava status, tornava tudo subitamente real.

Minutos depois, a porta de madeira maciça da presidência se abriu. Uma mulher jovem saiu de lá, saltos altos estalando no chão de granito. Vestia um conjunto rosa choque que gritava "caro" e ostentava um anel de diamante que poderia cegar alguém. Era Soraya Sousa. Ela lançou um olhar avaliador e nitidamente desdenhoso para Ísis, medindo-a da cabeça aos pés antes de seguir para o elevador sem dizer uma palavra.

- O Sr. Cezario a receberá agora - anunciou a secretária.

Ísis ajeitou o portfólio sob o braço, empertigou os ombros e entrou.

A sala era ampla, com janelas do chão ao teto que mostravam Valverde do Sul como um tabuleiro de xadrez lá embaixo. Atrás de uma mesa de carvalho negro, um homem estava de costas, observando a neblina da cidade. O terno grafite era impecável, moldado em ombros que pareciam carregar o peso de todo aquele edifício.

- Você é persistente, Srta. Buonavitta - a voz dele ecoou, mais grave do que Ísis lembrava, desprovida de qualquer calor. - Meu setor imobiliário já informou que o galpão não está disponível para locações... "alternativas".

- A arte não é uma alternativa, Sr. Cezario. É uma necessidade - Ísis rebateu, sua voz firme apesar do coração martelando contra as costelas. - E aquele galpão está morrendo no escuro. Eu posso dar vida a ele.

Giorgio Cezario girou a cadeira lentamente. O movimento foi calculado, quase predatório. Quando seus olhos finalmente encontraram os dela, o tempo em Valverde do Sul pareceu simplesmente parar.

O cinza dos olhos de Giorgio, que antes lembravam a cor do mar em dias de tempestade, agora pareciam feitos de aço frio. Mas, por um milésimo de segundo, Ísis viu uma rachadura naquela máscara. Um brilho de reconhecimento que ele tentou sufocar instantaneamente.

- Ísis? - O nome escapou pelos lábios dele como um segredo proibido.

- Olá, Giorgio - ela respondeu, sentindo o peso de cada dia de silêncio entre os dois. - Ou devo dizer... Sr. Cezario?

Ele se levantou, a altura agora imponente, a mão direita repousando sobre a mesa, onde um porta-retrato com a foto de Soraya parecia vigiar o ambiente. O silêncio na sala era tão denso que Ísis conseguia ouvir o tique-tique do relógio de luxo no pulso dele. O menino que pintava sonhos havia sido substituído por um homem que gerenciava realidades. E a realidade deles agora era um abismo.

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