
A Cor do Nosso Reencontro
Capítulo 3
O silêncio na sala da presidência era quase físico, interrompido apenas pelo zumbido baixo do sistema de ventilação. Giorgio permanecia estático, como se uma lufada de vento pudesse desmoronar a fachada de mármore que ele levou uma década para construir. Ísis, por outro lado, sentia o sangue ferver - uma mistura de nostalgia indesejada e uma súbita vontade de rir da ironia do destino.
- Dez anos, Ísis - Giorgio finalmente disse, a voz recuperando a cadência profissional, embora um pouco mais rouca. - E você entra na minha empresa exigindo um galpão como se ainda fôssemos as crianças que pulavam o muro da Rua das Violetas.
- Eu não exijo nada, Giorgio. Eu vim fazer uma proposta de negócio - ela caminhou até a mesa dele, colocando o portfólio sobre a superfície polida. - O fato de você ser o dono do imóvel é apenas um azar estatístico. Ou sorte, se você ainda tiver algum senso estético guardado sob esse terno de mil dólares.
Giorgio olhou para o portfólio, mas não o abriu. Ele contornou a mesa, parando a poucos centímetros dela. O perfume dele - algo que lembrava madeira e chuva - atingiu Ísis como uma onda, trazendo flashes de tardes quentes em Valverde.
- Minha noiva, Soraya, quer aquele espaço para um showroom da marca de joias dela - ele declarou, e o nome da outra mulher pareceu uma barreira de gelo entre os dois. - O Grupo Cezario não investe em filantropia artística, Ísis. Investimos em lucro. E Soraya é o que Valverde espera de uma Cezario.
Ísis sentiu a alfinetada. "O que Valverde espera". Giorgio sempre foi prisioneiro das expectativas alheias, e agora ele parecia ter se tornado o carcereiro de si mesmo.
- Então é isso? - Ísis arqueou a sobrancelha, o orgulho Buonavitta brilhando em seus olhos castanhos. - O menino que queria desenhar catedrais agora se contenta em ser o balcão de negócios de uma moça mimada? Valverde do Sul mudou você, Giorgio. Ou talvez você só tenha revelado quem realmente era.
Antes que ele pudesse responder, o telefone sobre a mesa tocou. O visor exibia uma foto de Soraya fazendo um biquinho para a câmera. Giorgio não atendeu, mas o momento de trégua forçada acabou.
- Tenho cinco minutos antes da minha próxima reunião - ele disse, voltando à sua postura de CEO. - Me dê um motivo, um único motivo financeiramente viável, para eu não entregar as chaves daquele galpão para a minha noiva amanhã cedo.
Ísis sorriu. Era um sorriso desafiador, o mesmo que ela usava quando ele dizia que ela não conseguiria misturar certas cores.
- Porque se você me der aquele espaço, eu farei algo que o seu dinheiro não pode comprar: eu farei Valverde do Sul voltar a ter uma alma. E você sabe, no fundo dessa sua armadura, que o nome Cezario precisa de mais do que joias brilhantes para ser lembrado com respeito. Precisa de legado.
Giorgio hesitou. Por um instante, o olhar dele caiu para as mãos de Ísis, onde uma pequena mancha de tinta azul turquesa teimava em permanecer sob a unha do polegar. Aquele detalhe mundano e colorido parecia a coisa mais real naquela sala cinzenta.
- Deixe o projeto - ele murmurou, sem olhar para ela. - Vou analisar. Mas não espere milagres, Ísis. O mundo não é feito de aquarelas.
- O meu é, Giorgio. E você faz parte da pintura, queira ou não.
Ísis saiu da sala sem olhar para trás, os saltos batendo com força contra o granito. Ela sabia que tinha jogado uma isca perigosa. Giorgio estava noivo, estava rico e estava cercado por Soraya, mas o brilho que ela viu nos olhos dele por um segundo... aquele brilho ainda pertencia à menina que ele amou um dia.
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