
A Confissão Dele, Meu Mundo Despedaçado
Capítulo 3
Deslizei o dedo pela tela, esperando mais das palavras familiares e reconfortantes. Mas então, uma nova seção apareceu, um bloco de texto austero e não lido na parte inferior. Meu sorriso vacilou. A data era recente. Muito recente. Isso não era uma entrada antiga. Isso era... atual.
Um arrepio percorreu minha espinha. Meus dedos, agora dormentes, rolaram mais rápido.
Era a voz de Léo, mas não seu tom confiante de sempre. Estava crua, vulnerável, lutando com algo novo. Ele descrevia Clara. Sua risada. A maneira como ela se movia no palco. O jeito que seus olhos brilhavam quando ela falava sobre dança. Ele estava se apaixonando, perdidamente, e estava apavorado.
As entradas continuavam, uma descida cronológica na traição. Sua confusão se transformando em certeza. Sua culpa se transformando em um desejo desesperado por ela. E as respostas de Clara, escondidas na seção de comentários, igualmente conflitantes, igualmente apaixonadas.
Lembrei-me das saídas repentinas que eles começaram a fazer, dos "ensaios de dança" que duravam até tarde da noite, da maneira como seus olhos se encontravam do outro lado da sala, mantendo uma linguagem secreta que eu não havia entendido. Lembrei-me das vezes em que me senti como um pensamento tardio, uma sombra em sua órbita vibrante. Eu havia descartado isso, culpando minhas próprias inseguranças, mas a evidência agora era gritante, berrando para mim da tela.
Eu tinha sido tão ingênua, tão cega. A garota quieta dos abrigos, sempre esperando o pior, mas de alguma forma perdendo os sinais mais óbvios de seu mundo desmoronando ao seu redor.
A última entrada era de ontem. Léo escreveu: "Não consigo mais fingir. Vou contar para a Elisa amanhã, no aniversário dela. É cruel, mas é mais cruel continuar mentindo. A Clara merece saber que eu a escolho. A Elisa merece a verdade."
A tela piscou. Meu celular vibrou, vibrando violentamente na mesa. Léo. Seu nome brilhou, um branco forte contra a tela escura.
Encolhi-me, um tremor percorrendo meu corpo. Suor frio brotou na minha pele. A verdade, crua e feia, estava exposta. Eu sabia, não sabia? No fundo, naquele lugar quieto e inseguro, eu sempre soube que isso estava por vir. Foi por isso que procurei meu orientador, foi por isso que sempre mantive uma pequena parte de mim mesma guardada, pronta para recuar.
O telefone tocou novamente, insistente. Ele estava ligando para me contar. Para quebrar meu coração, calmamente, deliberadamente, no meu aniversário. Eu não conseguia encarar. Não suportaria ouvir aquelas palavras de seus lábios, ver a pena em seus olhos.
Minha mão voou para o notebook, pressionando 'enviar' no contrato da USP. Estava feito. Irrevogável.
Por favor, rezei, uma súplica silenciosa a um deus sem nome, não o deixe me encontrar. Deixe-me ir em silêncio. Deixe-os serem felizes.
O telefone continuou seu protesto estridente, um som irritante e agudo. Peguei-o, sem atender, e joguei na cama. Então, enterrei meu rosto nos travesseiros, abafando o mundo, abafando a dor. O toque lentamente desapareceu, substituído pelo rugido ensurdecedor do meu próprio coração partido.
A verdade doía mais do que qualquer mentira. Queimava, marcando minha alma. Era isso. O fim da minha família encontrada, o fim da minha história de amor. As lágrimas vieram, quentes e furiosas, encharcando meu travesseiro, um adeus silencioso a uma vida que agora estava perdida para mim.
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